Estamos tristes e perplexos com os relatos e as imagens acerca da tragédia na serra fluminense neste início de 2011. A catástrofe, iniciada por uma noite inteira de chuvas fortes, tem um complexo de causas de difícil avaliação, porém, como brasileiro e morador de Nova Friburgo, tentarei expor o meu ponto de vista.
1) Sobre as chuvas da madrugada do dia 12
Absolutamente atípicas. Não pelo mês em que ocorreram - pois os verões na Serra dos Órgãos sempre foram úmidos e superúmidos - mas pela intensidade das chuvas. Elas caíram em freqüentes e fortes pancadas, sem vento, durante toda uma noite. Ou seja, quantidade e duração sem precedentes, em um período em que a maioria da população dormia.
2) Sobre os impactos
Sem querer cair no senso comum, a paisagem é a de um cenário de guerra, com maior destruição em áreas pobres.
3) Sobre a natureza da Serra dos Órgãos
Relevo definido por vales estreitos e escarpas íngremes; solos rasos, argilosos e lixiviados (frequentemente lavados). Isso quer dizer, em poucas palavras, solos com elevado potencial de escorregamento, sejam eles ocupados por condomínios ou favelas, pastos ou florestas.
4) Sobre as habitações em Nova Friburgo
Como em boa parte do Brasil – senão em todo o país – as construções ficam à mercê do mercado imobiliário e de sua lógica. Quem tem dinheiro constrói onde quiser, quem não tem, onde puder.
5) Sobre o potencial habitacional brasileiro
Elevado. Vasto espaço para construções seguras e enorme disponibilidade de matérias-primas e mão-de-obra.
6) Sobre as políticas públicas
Necessárias e urgentes, porém, até agora, ineficientes. Acredito que um dos grandes problemas reside no fato da representatividade política estar atrelada e condicionada ao poder econômico, ou seja, políticos comprometidos desde antes das eleições com os interesses do mercado. Como conseqüência, áreas sem valor econômico ficam esquecidas à própria sorte.
7) Sobre a crise do Poder Público
São vários os aspectos visíveis, desde a aceitação de construções irregulares em áreas de risco até a “oficialização” de loteamentos clandestinos. Neste sentido, a crise é gravíssima, pois tende a revelar tanto incompetência quanto corrupção.
8) Sobre a Mídia
8.1) Sobre o jornalismo
Graças ao corajoso trabalho de repórteres e equipes de jornalismo, pudemos obter importantes informações sobre pessoas e localidades atingidas. Para nós moradores, isso é essencial. O nosso muito obrigado!
8.2) Sobre o “aproveitamento” da situação
Infelizmente, a mídia tem também outra face... Hoje, ao mesmo tempo em que evoca e enaltece a solidariedade da sociedade brasileira, procura um “bode expiatório” para o desastre, sem nenhuma reflexão ou busca de nexo causal. Em programas de entrevistas com especialistas, faz uma abordagem pontual, sem nenhuma ligação com a dinâmica social brasileira, seu funcionamento, sua história... chegando a comparar, inclusive, Brasil à Austrália somente pelo índice pluviométrico de suas calamidades!?. Para mim, isso não é burrice. Isso beira a cinismo!
9) Sobre os profissionais e voluntários envolvidos na assistência à tragédia
A gratidão eterna.
10) Sobre a solidariedade brasileira
Um motivo para acreditar neste país
11) Sobre a crise social brasileiraA tragédia na serra fluminense é, no momento, o problema maior e mais visível do país. No entanto, temos vários problemas de ordem humanitária que ocorrem frequentemente em nosso “cotidiano ensolarado”, e que muito tem a ver com a desgraça atual... Miséria, habitações precárias, moradores de rua, crianças abandonadas não são fenômenos naturais. São, antes de tudo, indicadores de nossa patologia social.
12) Sobre "sistemas de alerta"
Super necessários, mas, infelizmente, diante do conteúdo dos itens assinalados acima, não acredito que pudessem minimizar tanto assim os efeitos dessa tragédia.
André Lacerda
Professor de Geografia Humana da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia – NF
Técnico em Química da UERJ- Campus de Nova Friburgo
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