Sem nada que se compare a uma convulsão social e gozando de uma Constituição, que Chávez busca cumprir ao tentar descentralizar o poder dos monopólios de mídia, a Venezuela não pode de modo algum ser caracterizada como uma ditadura militar.

Por Ana Helena Tavares


Muito se fala em Hugo Chávez. Mais uma vez, jornalistas do mundo inteiro decretam que é a pior crise de seu governo. Tenho, às vezes, a nítida sensação de que se uma creche lotada explodir nos EUA a grande imprensa mundial nem se lembrará de Bin Laden, arrumará logo um jeito de pôr a culpa no Chávez. E, se os conglomerados midiáticos o acham tão exageradamente ruim, sou tentada a concluir que algo de muito bom – e de democrático – ele tem.

A Venezuela atual é progressista, ainda que uma análise fria nos leve a concluir que não há uma conjuntura de revolução. Na tentativa de desmascarar alguns mitos midiáticos, começo me perguntando: por que tanto taxam Chávez de ditador?

Não há análises precisas sem contextualizações necessárias. O contexto latino-americano sempre possuiu um valor largamente geoestratégico para os EUA. É uma relação de dependência de tal modo que se pode afirmar que sem o controle da América Latina os EUA perderiam seu quintal, veriam sumir os frutos de sua horta e perderiam boa parte de seu poder.

Historicamente, nas décadas de 50, 60 e 70, fervilharam na América Latina processos progressistas e revolucionários que se compuseram de tendências várias, movimentos sindicais fortes, e ainda uma igreja que germinava a futura teologia da libertação. Tais processos levaram a que os EUA elaborassem e apoiassem planos ditatoriais de extrema-direita para os países rebeldes, enforcando (muitas vezes, literalmente) a possibilidade de mudanças sociais. Se pudessem, teriam matado Fidel, tal como se pudessem já teriam dado um sumiço em Chávez para pôr no lugar um Lobo em pele de cordeiro.

Ora vejamos... Nem João Goulart nem Salvador Allende eram comunistas, tão somente conduziram leves alterações nos mecanismos econômicos de maneira a atenuar distorções sociais e a promover ações afirmativas com a população. Mas para os EUA e suas multinacionais essa é a senha para que a banda troque a música... Fuzilamentos, torturas, repressão e o cerceamento das liberdades civis e individuais foi o que se viu...

“Chávez isto, Chávez ditador, Chávez comunista, Chávez militarista” é o que se ouve. Só que nem Hugo Chávez, nem Evo Morales, nem Rafael Correa cometem o tipo de prática que as elites burguesas legitimaram melancolicamente no passado e, em certos casos, como o de Honduras, também no presente.

Sem nada que se compare a uma convulsão social e gozando de uma Constituição, que Chávez busca cumprir ao tentar descentralizar o poder dos monopólios de mídia, a Venezuela não pode de modo algum ser caracterizada como uma ditadura militar.

Se Chávez é ditador, por que, depois de ter sido preso, este quando chegou ao poder, por voto popular, não exerceu nenhum tipo de repressão sobre seus algozes? Chávez limitou-se a prendê-los, sem qualquer tipo de violência. E por quê? Para mim, não há outro nome senão coerência. Era por uma Venezuela livre que o tenente-coronel Hugo Chávez lutava na intentona de 1992; é por uma Venezuela livre que o presidente Hugo Chávez luta. Numa luta como esta, tanto lá como aqui, não cabem revanches. Cabe que se assegure ao povo a liberdade de expressão e a liberdade ir e vir; cabe a punição dos que merecem ser punidos, dentro do cumprimento das leis que devem reger um país democrático. É isso o que Chávez faz e é isso o que apavora o mundo.

A melhoria da qualidade de vida dos pobres e sua conseqüente ascensão social, a erradicação do analfabetismo e os programas de saúde em parceria com médicos cubanos são fatores vitoriosos de seu governo. A isto a mídia faz vista grossa, mas chamá-lo de ditador é capa de jornal. Atitude não muito diferente com relação ao nosso presidente.

É claro que a Venezuela ainda tem muitas lacunas a preencher, mas ditador Chávez não é. Bem como também não é nenhum Bin Laden e nem sorri para qualquer um como o fazem Obama e o Lobo de seu quintal.


Ana Helena Tavares é escritora e poeta eternamente aprendiz. Jornalista por paixão e futura jornalista com diploma, é colunista da “Revista Médio Paraíba” e editora/administradora do blog “Quem tem medo do Lula?”.

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Comentário de Sérgio Troncoso em 8 fevereiro 2010 às 5:09
Texto legal Ana, sintetiza bem o que mais ou menos penso de Chavez. Um abraço,Sérgio.

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