A vida privada na pauta dos presidenciáveis

Ao acompanhar os debates dos candidatos à Presidência da República, fico abismado com o tempo dispensado pelos postulantes para se discutir a sexualidade alheia. Digo isso, pois o centro da questão não tem sido sobre a supressão, manutenção ou redução dos direitos dos homossexuais e sim, a vida privada alheia propriamente dita.

Não há debate pautado na questão em si e sim uma guerra velada pela interferência no desejo, no amor e na vontade íntima; assuntos que reputo de ordem exclusivamente privada.

Certo que não há obrigatoriedade de se aceitar a homossexualidade e sim, de respeitá-la. A preocupação com o prazer alheio, que agora invade a seara política, está chegando a um patamar vergonhoso que nos remete à Idade Média.

As afirmações de cunho religioso e científico, feitas pelos líderes religiosos, geram grande repercussão na mídia. Entendo que tal explanação merece algumas considerações e cautelas.

O Supremo Tribunal Federal igualou as uniões homoafetivas às heterossexuais. Trata-se de um dos maiores avanços desde o advento da Lei 6.515/77, que instituiu o divórcio no Brasil.

À época em que o divórcio foi instituído, parcela considerável da sociedade manifestou-se contrária ao direito de uma pessoa constituir nova união matrimonial.

Quanto às parcerias homossexuais, a decisão tomada pelo STF em 2011 deveria deixar os membros do Congresso Nacional desconcertados. Isso porque uma mudança de tal natureza deveria nascer, por questões óbvias, no âmbito legislativo mediante lei e não por entendimento majoritário da mais alta Corte Brasileira.

O reconhecimento jurídico da união de casais do mesmo sexo deveria ter sepultado a concepção moralista de que estamos lidando com pessoas enfermas, execradas, viróticas ou pecadoras.

À época, o então Ministro Ayres Britto, foi feliz ao afirmar que "aqui é o reino da igualdade absoluta, pois não se pode alegar que os heteroafetivos perdem se os homoafetivos ganham".

O eminente jurista foi categórico em seu comentário; afinal, o que estava em foco era se o fato de não se ter a opção sexual natural implicaria diferenciações sociais.

O reconhecimento por si só não foi capaz de promover um clarear de retinas. A sociedade precisa moldar-se à nova concepção. Isso não quer dizer que as opiniões contrárias sobre as uniões homoafetivas devam deixar de existir.

A campanha presidencial desse ano é a prova cabal que há, sim, preconceito contra os homossexuais. Grande parcela de eleitores é capaz de ignorar os altos juros cobrados pelos bancos, a precária mobilidade urbana, os irrisórios aumentos no salário mínimo e a ausência de uma reforma tributária e política. Porém, não deixam de questionar os motivos que levaram as uniões alternativas de terem avançado e adquirido tantos direitos.

Aqueles que não aprovam as uniões homoafetivas têm o direito de defesa desse posicionamento. Todavia, há necessidade de se agregar a essa garantia opinativa o sentimento de RESPEITO.

É preciso extinguir o indignante instinto de julgar e controlar a sexualidade alheia. Por outro lado, concordo que o posicionamento contra os atos homossexuais não se trata de homofobia.

No entanto, a aceitação das diferenças é primordial e um princípio básico para o crescimento de uma sociedade mais justa, igualitária e pacífica.

Sobre a questão religiosa, na Bíblia Sagrada, a homossexualidade é considerada um pecado, o que deve ser respeitado. Contudo, ouso discordar dessa regra como absoluta.

Como professor de Direito de Família há doze anos, pude entender que antes, muito antes da sexualidade, o homem e a mulher precisam ser reconhecidos pela capacidade de exercerem a caridade, a probidade, a ética e a moral que são pouco debatidas por nossos candidatos ao cargo de chefe do Executivo Federal.

Suas preferências sexuais cabem à seara da intimidade e não à opinião pública.

Precisamos de propostas de governo e não de ações pontuais direcionadas ao progresso de todos os núcleos sociais. O Brasil precisa de avanços administrativos e será mais difícil obtê-los se as mentes que irão governar estiverem enterradas no debate da vida privada em detrimento à coisa pública. 

Precisamos exigir que o comportamento sexual alheio não seja o centro do debate. Discutir assuntos que dizem respeito ao bem-estar comum - e não individual - deve ser a tônica, elevando o padrão da pauta eleitoral e visando, sim, a postura política dos candidatos. Isso é o que nos importa!

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Comentário de Ivanisa Teitelroit Martins em 9 setembro 2014 às 17:25

Muito bom! Parabéns! Concordo, um abraço

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