Desde a noite de quinta-feira (2-abr-2009), o silêncio vai imperar nos aeroportos brasileiros. A voz que alertava passageiros para embarque e desembarque não mais será ouvida. O serviço foi extinto pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária-Infraero. A alegação? Poluição sonora.
Posso até concordar com eles com relação a alguns aeroportos do país por onde andei. Em alguns sequer se entendia o som dos alto falantes. Em outros, parecia uma gralha desafinada grasnando feito um corvo histérico. Estes podem e devem ser emudecidos. Pura poluição. Porém, em outros, deveria ser mantido.
A deusa dos aeroportos atende pelo nome de Íris Lettieri. Dona de voz sensual, a locutora, cantora e ex-atriz carioca despertava o imaginário de alguns passageiros que subiam e desciam dos aviões. Iris é considerada por correspondentes internacionais “a mais bela voz do mundo” (com informações da Infraero: http://www.infraero.gov.br/impr_noti_prev.php?ni=5071&menuid=impr).
O primeiro aeroporto a utilizar sua locução foi o de Manaus, em 1976. Mas com a inauguração do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro/Galeão, em 1977, que ela ficou mundialmente conhecida como a voz oficial desse aeroporto.
Contudo, nos últimos tempos, os anúncios estavam restritos aos Aeroportos de Guarulhos (São Paulo), Congonhas (São Paulo), Eduardo Gomes (Manaus), Antonio Carlos Jobim/Galeão (Rio de Janeiro) e Santos Dumont (Rio de Janeiro).
Para mim a lembrança do Galeão/Tom Jobim ficará marcada para sempre na memória: "Atenção senhores passageiros com destino a Miami: embarque imediato no portão de número ...". Uma frase normal e corriqueira, mas que qualquer um gostaria de ouvir durante muito tempo se pronunciada na voz sexy Íris.
Eu já havia ouvido e visto essa senhora em programas de televisão. Era bonito. Mas nada se comparou ao delicioso choque quando sai para o saguão do Galeão/Tom Jobim e recebi aquela carícia em meus ouvidos. Parei. Melhor: Estaquei. Se você nunca ouviu, não saberá o que digo. Se já ouviu, saberá entender o meu estupor.
Imobilizado entre um passo e outro eu procurava no éter. Era como se a pessoa estivesse ao meu lado, falando lânguida e sensualmente só para mim. Convidando-me para ir para Miami – nem sei mais se era mesmo para lá – com ela. E eu teria ido de bom grado, se fosse verdade. Não sei quanto tempo fiquei parado naquela posição ridícula, com um pé à frente e o outro atrás. Acho que estava em pose semelhante à clássica foto do ex-presidente Jânio Quadros logo após a renúncia, com cada pé apontando para um lado diferente. Sem rumo.
Ouvir a ‘Voz’ de Íris Lettieri foi uma das sensações mais agradáveis para mim. Era como flutuar no espaço, sustentado pelas deliciosas ondas sonoras emitidas por ela. Mãos imaginárias, delicadas e sensuais, me acariciavam.
Tenho quase certeza da permanência desta lembrança em minha mente por todos os meus dias ainda restantes. Já se passou 15 anos da experiência e ela continua vívida. Talvez, em alguns anos, quando não mais lembrarem dela, eu estarei sentado com os meus netos e direi orgulhosamente a eles ter ouvido, um dia no passado, a mais bela voz do mundo.
Em termos de excelentes lembranças auditivas só posso dizer que ouvi-la no Galeão/Tom Jobim só pode ser comparado com a primeira vez que ouvi um Uirapuru na floresta Amazônica. Foi lindo. Mas este cantava sozinho, enquanto ela falava por um alto-falante em meio à cacofonia de vozes humanas e o ensurdecedor ruído de turbinas. Assim, para mim, ela ocupa o primeiro lugar.
Penso ser eu um privilegiado. Pude ouvir as duas mais belas vozes do mundo: um Uirapuru e Íris Lettieri. Acredito não haver neste mundo algo capaz de se comparar a estas duas emanações vocais. Mas pássaros existem vários. Íris só uma.
Só ficou uma pontinha de tristeza por não ter ouvido ao vivo e pessoalmente. Só para mim. Mas isso é avareza. Íris deveria ser compartilhada com todos. E assim o foi.
E então eu penso que se Rick Blaine (Humphrey Bogart) teve a sua Ilsa Lund (Ingrid Bergman) e eles sempre terão Paris, eu e Iris Lettieri sempre teremos o Galeão/Tom Jobim. Ainda que ela não saiba disso.

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Comentário de elizabeth em 3 abril 2009 às 22:18
ai que susto! achei que a Iris tinha morrido!!! voz maviosa, eu a conheci, no século passado, na Tupi
Comentário de elizabeth em 3 abril 2009 às 22:19
e nao tem coisa mais enlouquecedora que voce ouvir as vozes das moças das companhia aereas, quando tá tudo atrasado, e de minuto em minuto entra uma no ar, Deus me livre.

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