" - 'Merda', disse a Madre Superiora" - Luiz Fernando Veríssimo, alertando o leitor para que este não se assustasse, e com aquele talento único para o humor, escreveu que sempre quis começar um conto com essa frase.

Brincadeiras à parte, é fato que a questão de como começar um texto pode causar alguma inquietação. Qual a melhor maneira de captar a atenção do leitor e ao menos insinuar o tema principal?

Para mim, um dos melhores parágrafos de abertura - ou pelo menos o mais hilário - não pertence a nenhum clássico da literatura, mas a algo bem mais trivial: Postais do inferno, a autobiografia romanceada de Carrie Fisher, em que a Pincesa Leia de Guerra nas Estrelas conta a sua descida ao submundo das drogas e das clínicas de recuperação (o livro depois virou um filme pífio, apesar de dirigido por Mike Nichols e estrelado por Meryl Streep). Eis o texto: "Talvez não devesse ter dado o número do meu telefone para o cara que lavou meu estômago, mas que importância tem? De qualquer maneira, minha vida acabou. Além disso, o que devia fazer? Eu estava deitada, doze horas depois da overdose, quando ele apareceu no quarto e me deu aquele animal de pelúcia idiota que parece um polegar. Não estava me sentindo atraente. Tinha vomitado mariscos com Percodan nele, na véspera, na sala do pronto-socorro. Achei que seria grosseria não lhe dar meu telefone. De qualquer maneira, ele provavelmente não vai me ligar. Ninguém nunca mais vai ligar para mim".

Na seara doméstica, a abertura que mais me fascina, por ser a um tempo descrição econômica e insinuação poética, é a de O Encontro Marcado, o livro de Fernando Sabino que renovou o romance brasileiro com sua linguagem telegráfica e multi-referencial. Não é de bom tom dizer isso, mas é fato que o livro divide-se em duas partes: uma fascinante, em que tais virtudes estilísticas, a serviço do relato da infância e adolescência de Eduardo Marciano - o alter-ego de Sabino -, não permitem que se desgrude os olhos da leitura; e a parte final, maçante e concentrada na vida adulta e nos dramas existenciais do protagonista, após mudar-se de Minas para o Rio de Janeiro. O livro abre assim:

"A casa tinha três quartos, duas salas, banheiro, copa, cozinha, quarto de empregada, porão, varanda e quintal.
Que significava o quintal para Eduardo?
Significava chão remexido com pauzinho, caco de vidro desenterrado, de onde teria vindo? minhoca partida em duas ainda mexendo, a existência sempre possível de um tesouro, poças d'água barrenta na época das chuvas, barquinho de papel, uma formiga dentro, a fila de formigas que ele seguia para ver onde elas iam. Iam ao formigueiro. Um pé de manga-sapatinho, pé de manga-coração-de-boi. Fruta-do-conde, goiba, gabiroba. Galinheiro. A galinha branca era sua, atendia pelo nome:
- Eduarda."

Na área ensaística, o meu voto iria para Camille Paglia, que abre o artigo "A Escola Maternal do Campus: A Corrupção das Ciências Humanas nos Estados Unidos" da seguinte forma: "Há vida intelectual na América? No presente, a resposta é não." Muito sutil e argumentativo, como convém aos textos acadêmicos, não é mesmo?

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