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Abraços
Oscar.


GILBERTO MENDES - O Estado de S.Paulo


Então, não vai ser mais possível um novo Beethoven, um Bach, um Brahms? Um novo Stravinski, um Villa-Lobos?


Muito se fala, hoje em dia, sobre o fim da música erudita, nome sem dúvida meio pretensioso, esquisito, apesar de inventado pelo grande Mário de Andrade. Mas também se fala no fim da história, dos tempos, do romance, de tudo, enfim. É a moda.

Podemos sentir como pop uma canção cult de um Guillaume de Machaut, de um Dufay, mestres medievais, como outras vezes podemos sentir como cult a canção pop de um jongleur, um gaukler, os menestréis da mesma época. De certo modo, é o que volta a acontecer no século 20, a partir do aparecimento da música popular urbana, inventada pelo escravo negro apenas nas Américas.


Diferente da música popular folclórica, que é praticada pelo campesino e passada de uma geração para outra em toda a sua pureza, a música popular urbana é impura, suja, efêmera, uma música de salão, das cidades. Dance music. É o foxtrote norte-americano, o tango argentino, o chorinho e o samba brasileiros, la habanera, a rumba e o bolero cubanos. Todas essas formas identificadas por uma mesma batida de percussão africana.


Esse desenho rítmico africano e seus desenvolvimentos inspiraram boa parte da moderna música erudita do século 20. O tango, o foxtrote e o timbre da jazz band marcaram o expressionismo musical alemão de Kurt Weill, Hanns Eisler, Paul Dessau, e mesmo certo expressionismo eslavo de Stravinski e Shostakovich.


Se tivemos no século 20 admiráveis vanguardas musicais europeias, não menos importante, na mesma época, foi essa invenção musical afro-americana. Sobretudo o jazz, que Theodor Adorno, morrendo de inveja e preocupação, pichou o mais que pôde, para preservar a hegemonia da música alemã. A presença de uma neue musik negra estava em evidência. Os alemães consideram a música uma arte alemã. Os preconceitos de sempre, bem europeus.


Há um forte teor de seriedade, alta cultura, no João Ninguém, de Noel Rosa, na interpretação de Aracy de Almeida, arranjo magistral do qual participa o maravilhoso pianista "Fats" Elpídio. Nada mais música de cabaré, mais Moulin Rouge do que Le Papillon et la Fleur, de Gabriel Fauré, e Seligkeit, de Schubert.


O que é, portanto, música erudita? O que é música popular? A gente se perde ao tentar uma classificação. O mais intrigante, Bartok percebeu em suas pesquisas de campo: a música folclórica é a própria erudita transfigurada em popular. O que podemos perceber inversamente: a música popular eruditizada, muitas vezes pelas big bands de Duke Ellington, Stan Kenton, Woody Herman, depois pelos Beatles, David Byrne, Frank Zappa. Lembro-me bem de Zappa em Darmstadt, 1962, discutindo a neue musik nos debates durante os famosos ferienkurse. Boulez regia sua música!


Mais intrigante, ainda, e até paradoxal, é que a música erudita e a popular são duas artes totalmente diferentes uma da outra. Villa-Lobos não tem absolutamente nada a ver com Pixinguinha. A beleza é uma coisa terrível e misteriosa!...


Como explicar aquele balanço, o amor e o mar, que sentimos em Esse Cara, do velho Caetano Veloso?! Oh Look at me Now, cantada pelo Frank Sinatra e os Pied Pipers, que música mais de praia, mocidade, alegria !! O sprechgesang do Pierrot Lunaire, de Schoenberg, que nos faz até pensar em Tom Waits! O pai que
interroga o destino em Les Noces, de Stravinski! A impressionante plasticidade estrutural dos Kontra-Puncte, de Stockhausen! O flutuar na profunda transparência dos Reflets dans l"Eau, de Debussy, quase um Oscar Peterson! E a emoção de, num longínquo sábado à noite!, dançar Looking for Yesterday, de Jimmy Van Heusen - disco de Tommy Dorsey, 78 rotações - cheek to cheek com uma deliciosa jovem perfumada, no embalo de uma festinha íntima de seus 18 anos!!!



GILBERTO MENDES É COMPOSITOR, CRIADOR DO FESTIVAL MÚSICA NOVA E DOUTOR PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. AUTOR DO LIVRO "UMA ODISSEIA MUSICAL" E MEMBRO HONORÁRIO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE MÚSICA.







Exibições: 112

Comentário de Henrique Marques Porto em 28 março 2010 às 23:50
Ih, Oscar!
Eu desconfio que há nesse artigo uma confusão danada sobre muita coisa. Mas quem sou eu para questionar um membro honorário de academia de música?
abração
Henrique Marques Porto
Comentário de Volnei dos Santos em 16 maio 2010 às 2:11
Essa classificação popular x clássico dá bastante pano para manga! Muita gente inteligente discute isso e não chega a lugar nenhum...

Particularmente, gosto de uma metáfora que li uma vez, baseada na literatura. Por exemplo, literatura de cordel, um gênero popular até a raiz. O escritor desse gênero não estuda a forma estrutural dos textos para escrever seus livros; ele o faz de forma orgânica, natural, simplesmente escreve. É diferente se um grande escritor, como Guimarães Rosa, tivesse estudado a estrutura de literatura de cordel e escrevesse um livro neste estilo.

Um exemplo em música pode ser um tango de Piazolla. Este é um compositor erudito; se escreve um tango, o faz consciente de sua forma, estuda a harmonia e orquestração, e então gera seus produtos. Produtos eruditos baseados numa temática popular.

Claro que as fronteiras muitas vezes são obscuras, e a metáfora não é perfeita. Em muitos casos, gosto de pensar em termos de outro conceito, o de "música contemporânea". Toda música feita hoje é, por definição, contemporânea. Mas só o tempo vai dizer quais, dentre estas, se tornarão clássicas! O próprio GM, por exemplo: será que um dia Santos Football Music virará um clássico? ;)

Quanto a se o gênero clássico "morreu" ou não, bem... minha humilde opinião é que tudo se transforma. Penso que não haverá mais um Beethoven, um Bach, mesmo um Villa, porque são de estilos que já passaram. As pessoas de hoje são diferentes, querem coisas diferentes. O típico jovem de hoje não aguenta mais ficar horas sentado vendo uma sinfonia (infelizmente), quer coisas mais rápidas, de consumo mais direto e fácil. Mas penso que é uma questão de estilo dessa época maluca. E que o tempo, implacavelmente, saberá escolher dentre o contemporâneo aquilo que virará clássico. E que a música contemporânea de amanhã será, novamente, o clássico de depois-de-amanhã. Assim, o mundo continuará a girar...

[]'s otimistas!
Comentário de Oscar Peixoto em 17 maio 2010 às 21:54
Volnei, creio que sua opinião não difere muito da do autor do artigo. Parece-me que de algum tempo para cá a distância entre erudito e popular encurtou, ou está se anulando, na medida em que o popular sofisticou-se em arranjos cada vez mais ricos e complexos, privilegiando, na maioria dos casos, a harmonia passando a melodia e o ritmo para um segundo plano (o problema é que cada vez fica mais difícil você assoviar uma música popular). Atualmente, compositores populares possuem diploma de composição e regência, muitos são exímios instrumentistas, e isso é muito bom, posto que sua obra eleva o povo para um patamar de música mais rica, mais elaborada.
Por outro lado, o compositor assim chamado erudito busca novos conteúdos, novas formas de expressão, enveredando por caminhos, diria, quase laboratoriais. São experiências atonais, dodecafônicas, etc., desafiando padrões e fórmulas consagradas, com o intuito de encontrar caminhos ainda não percorridos. O que também é muito bom, pois muitas vezes abre novos horizontes artísticos.
Entretanto, não raro essas experiências enveredam por caminhos tortuosos que dificilmente mostram seu rumo aos viajantes. Exemplifico: há alguns anos (muitos, na verdade) assisti a um programa de música erudita transmitido pela extinta TV Educativa: “Duo Concertante para Violino e Copo”. Isso mesmo: violino e copo! Enquanto o violinista agredia as cordas do instrumento com o cabo do arco, emitindo grunhidos e gemidos pungentes, o “copista”, engalfinhava-se com as entranhas do piano, arranhando suas cordas com um copo emborcado, produzindo sons semelhantes a de um porco sendo encaminhado para a imolação. Isso, meu amigo, era um programa de música erudita, produzido por uma emissora estatal, em busca de novos valores. Passados uns 30 anos, aproximadamente, creio que o “Duo concertante” morreu ali mesmo, naquela praia árida e poluída.
Nesse contexto, pode até ser que o Santos Football Music venha até a ser tornar um clássico. Afinal jogo do Santos é sempre um clássico. :-)
Abraços
Comentário de Volnei dos Santos em 19 maio 2010 às 23:51
Olá Oscar e demais colegas.
Sim, é bem verdade que alguns estilos populares são tão rebuscados que vencem a fronteira do "orgânico" que comentei anteriormente: não dá para fazer bem se não for através de bastante estudo! Jazz, choro... Isso sem contar aqueles que, dizem, tem em suas raízes um pezinho na música clássica, como a Bossa Nova...
Serão esses estilos os clássicos de amanhã? Não seria a primeira vez na história que músicas populares ficariam registradas como clássicos de seu tempo (música medieval e renascentista, pelo menos, tem bastante disso). Quem sabe se as orquestras do século XXII ainda não tocarão Vinícius e Pixinguinha em seus repertórios... ;)
[]'s
Comentário de Volnei dos Santos em 30 maio 2010 às 23:17
Para quem se interessar, há uma discussão interessantíssima sobre essa questão da música clássica x música popular, no blog de música Euterpe. É uma série de 4 posts, inclusive com exemplos e um princípio de análise de uma sonata de Beethoven, identificando como, na música clássica, a forma também carrega o conteúdo:

Música clássica: um gênero?, um estilo?, uma prateleira de CDs?

Música clássica: o conteúdo da técnica

Música clássica: ouvindo arte (na prática)

Música clássica: a desumana exigência da forma
Comentário de Ricardo Nachmanowicz em 26 abril 2012 às 0:24

Lendo os comentário tendo a concordar com o Henrique Marques, que o artigo deixa muitas pontas soltas e mal explicadas, que indicam mesmo uma compreensão bastante turva por parte do eminente Gilberto Mendes. 

Os exemplos de Jazz e de música popular estão sempre em ordem cronológica inversa ao que quer provar, e os ganhos da música erudita parecem estar desempenhando papel preponderante e migrando para esta outra esfera e não o contrário. Com exceção de alguns compositores que como Stravinsky tentaram absorver a "moda popular", e que a exemplo da História de um soldado, produziu música 'rala' para os padrões eruditos. Esta 'moda' inclusive passou muito rápido. Mesmo a crítica de Adorno não tratava tão somente do orgulho Alemão de ser. Este orgulho eurocêntrico certamente pairava ali, porém, sua crítica se dirigia ao discurso musical das Big Bands (dos sucessos instantâneos como nosso Michel Teló) tomarem o lugar de um outro tipo de escuta mais sensível e detalhista. A crítica de Adorno não era um mero preconceito ao Jazz, mas de como o discurso cultural substituiu a produção cultural musical e a marginalisou e deixou no lugar uma música de salão, música ligeira como diz Adorno. 

Se hoje em dia podemos indicar um Cecil Taylor quase como um 'Boulez de Structures I' intuitivo, estamos falando de música contemporânea e de um Jazz que poucas pessoas estão dispostas a assumir que seja música popular. E os exemplos mais do que defasados como Bossa Nova, Chorinho e Duke Ellington  fazem referência a música erudita européia do século XIX e XVIII e são claramente distinguidos de uma tradição erudita, pois fazer música erudita nos anos 50 não tinha nada a ver com harmonias funcionais e empréstimos modais. 

Termos tradições musicais diversas não é um problema. É ótimo inclusive que tenhamos uma música popular tão madura e que ela se atualize, só ganhamos com isto.

Mas a tradição erudita continuou produzindo seus Beethoven's e suas novas escolas de Viena... Trata-se da expressão de uma ignorância profunda se perguntar onde estão os compositores da música erudita, pois eles nunca pararam de aparecer (Graças ao bom deus!!). Eu retorno a pergunta: "Onde estavam que não acompanharam um Pendereki, Berio, Ligeti, Scelsi, Ferneyhough, Grisey... E no Brasil Flô Menezes, Silvio Ferraz só como referência em São Paulo, sem falar em Minas Gerais e nos demais estados. E tantos mas tantos outros?"

Chamar música dodecafônica de música contemporânea já mostra que a defasagem real não é entre a música popular e erudita, pois estas sabem muito bem como progredir e trabalhar suas questões e resolvê-las. A defasagem que há é entre os estudiosos e interessados em música e o simples ato de escutar e compreender o pensamento musical através dos tempos, para vir a entender o que acontece hoje em dia, e não simplesmente fazer como o avestruz e se recusar à realidade tentando algum refúgio em um discurso popular (as vezes populista) de tentar transformar os raros espaços da música erudita em um museu onde se toca apenas músicas (e apenas alguma delas) do passado ou arranjos de sucessos populares. 

Os novos Beethoven estão ai, mas ninguém quer escutá-los...

A única coisa que interessa sobre a questão Erudita x Popular (que em sentido Wittgensteiniano considero um falso problema) é que escutemos músicas eruditas e populares. O acesso a uma é fácil, a outra, é cara e dificil, esta é a questão!!

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