Portal Luis Nassif

DAYANA AQUINO
Da Redação - ADV


A absorção imediata de profissionais graduado, feita pelo mercado, tem provocado retração nas metas estipuladas pelo Plano Nacional de Pós-Graudação (PNPG) 2005-2010, cujo objetivo era encerrar 2010 com 16,1 mil doutorandos, número teto proposto pelo plano. Entretanto, de acordo com as projeções o número real não deve superar o piso de 13 mil. Para 2009, o número de doutores com base nas previsões da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (CAPES) deve ficar em 12 mil.

Na análise de Jorge Almeida Guimarães, presidente da CAPES, a redução na formação de doutores está relacionada a demanda de mão de obra qualificada enfrentada pelo mercado. Segundo ele, as áreas ligadas a tecnologias, como engenharia e informática, estão contratando pessoal por altos salários, assim que os mesmos deixam a graduação. Um dos exemplos é a Petrobras, cujo desenvolvimento de novos projetos demandará profissionais dessas áreas.

Se por um lado a busca por profissionais graduados é boa para a empregabilidade no país, por outro, pode reduzir o número de especialistas em pesquisas importantes para o desenvolvimento científico e tecnológico e, até mesmo, o número de docentes para os cursos de pós-graduação. Guimarães ressalta que a previsão de engenharia para a Capes era de 20%, porém o registrado é de 13%, justamente pela concorrência com as empresas.

Ao mesmo tempo, enquanto muitos profissionais são absorvidos pelo mercado, há um movimento de retorno de pessoas graduadas e empregadas para pós-graduação. A opinião é da Sub-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Mônica Heilbron. Para ela, a aproximação da indústria é benéfica, pois traz um equilíbrio para as universidades mesclando mestrandos e doutorandos dedicados à área acadêmica e à indústria.

Na avaliação do Presidente da Comissão de Implantação da Universidade Federal da Integração Luso-Afro-Brasileira (Unilab), Paulo Speller, a absorção de profissionais pela iniciativa privada é natural, pois são estas mesmas empresas que geram empregos e tributos, garantindo que o governo custeie as bolsas dos programas de pós-graduação. Para Speller a iniciativa privada poderia absorver mais profissionais do que tem feito atualmente, mas concorda que faltam pós-graduados na área de engenharias.

Bolsas

Em 2003, o número de bolsistas de mestrado e doutorado era de 20 mil. Hoje, são 60 mil bolsistas, dos quais 52 mil são financiados pela Capes. Guimarães explica que todo o planejamento de criação de bolsas é feito com base em diferentes cenários, portanto, já prevendo futuras demandas.
Em relação à ampliação das bolsas, Guimarães esclarece que o processo é meritocrático. Dos 170 mil estudantes de pós-graduação, um terço possui bolsa de estudos. Outro um terço têm vínculo empregatício, perdendo o direito à bolsa, e outro um terço busca financiamento em outras agências de fomento, bancos e etc.

O baixo valor do incentivo – bolsa – favorece a migração dos alunos para a iniciativa privada, na opinião de Heilbron. Hoje, por meio das duas agências federais (Capes e CNPq), a bolsa para mestrado é de R$ 1.200 e, para doutorado, R$ 2.000. Os valores podem ser suficientes para algumas áreas, mas não para a área tecnológica, por exemplo, pois as propostas salariais são atraentes.
Para Heilbron o número de bolsas é razoável e provoca concorrência entre os candidatos. Os cursos, que duram dois e quatro anos, respectivamente, sugerem comprometimento do aluno, e este filtro deve ser feito desde o momento da seleção.

Já para Angela Uller, pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ), o número de bolsas não é suficiente e não acompanha os programas do governo que incentivam os alunos a buscarem especialização. Há aumento de procura, mas o número de bolsas tem se mantido constante. A professora ressalta que os novos cursos começam com número reduzido de bolsas, sendo apenas duas vagas. A cada três anos os cursos são avaliados, e se subirem de nível, são contemplados com mais bolsas.

Uller avalia positivamente as estratégias do governo para melhorar a educação superior no país, explica que alguns avanços já foram percebidos, mas poderá levar algumas décadas para perceber resultados reais. Algumas medidas surtem impacto no curto prazo, segundo Uller, a exemplo do reajuste do benefício concedido aos bolsistas, cuja revisão não acompanha o aumento dos custos do aluno e deve ser revista pelo Congresso.

Capacitação de professores

O plano prevê investimentos globais de R$ 3,2 bilhões até 2010. Destes, R$ 1,6 bilhão será direcionados apenas a formação de novos docentes. Como as projeções traçadas são baseadas em diferentes cenários, a meta de docentes absorvidos pela pós-graduação é de 4,7 mil a 2,8 mil.

De acordo com a Capes, para atuar na formação de professores para a educação básica, o Ministério da Educação (MEC) criou em 2005 a Universidade Aberta do Brasil (UAB), fruto da articulação entre universidades estaduais, federais e institutos federais de educação, ciência e tecnologia (Ifets). O objetivo é levar ensino superior público de qualidade aos municípios brasileiros nos quais não há cursos de formação superior, ou cujas ofertas são insuficientes para atender a todos. A medida também vai ajudar a reduzir as diferenças regionais.

Na avaliação de Speller, as universidades têm demandado um bom número de profissionais mestres e doutores, conforme últimos concursos lançados pelo Governo Federal. Ele acredita que a defasagem possa estar na demanda por profissionais qualificados na própria inciativa privada, em áreas como ciências sociais.

Uller pondera que, embora haja uma demanda por profissionais com pós-graduação no setor acadêmico, essas oportunidades estão mais concentradas nos cursos novos. Nos cursos mais antigos, há maior presença de profissionais sênior- com mais tempo de experiência e muitos próximos a aposentadoria -, a renovação ainda é pequena. Ela acredita ser necessário um programa de incentivo aos professores, para ampliar os cursos mais antigos e suprir a demanda futura por novos profissionais.

Leia mais sobre pós-graduação na matéria "Pós-graduação no Brasil: 10 vezes abaixo do ideal"

Exibições: 39

Comentário de Maria Adélia Aparecida de Souza em 20 julho 2009 às 17:08
Esta análise merece algumas reflexões adicionais: 1. A Universidade não deve atender apenas as demandas do mercado, mas a produção de conhecimento e formação de pessoas visando o mais alto interesse do pais; 2. O que tem acontecido com os professores universitários que se aposentaram com a malfadada lei da aposentadoria durante o Governo FHC e 3. Como resolver o comadrio e partidarismo que tomou conta das universidades nos ultimos vinte anos, aumentando o espirito corporativo e o abandono da competencia intelectual em favor do comadrio?
Maria Adelia de Souza, Professora Titular da USP

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2018   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço