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Adoniran Barbosa, 100 anos - parte VI

O Fino da Bossa, Aguenta a Mão João, Samba Italiano,

Tocar na Banda, O Casamento do Moacir, Já Fui uma Brasa, Vila Esperança

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O Fino da Bossa: Adoniran Barbosa e Elis Regina

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Em 12 de julho de 1965, Adoniran foi convidado para uma das maiores vitrines musicais da TV Brasileira: o recém criado programa O Fino da Bossa, da TV Record, apresentado por duas jovens promessas da música popular - o paulista Jair Rodrigues e a gaúcha Elis Regina.

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“ Elis recebeu Adoniran cantando “Saudosa Maloca” no palco de um superlotado Teatro Record para uma histórica entrevista de 10 minutos. O compositor divertiu a platéia, e especialmente a apresentadora, com uma interpretação performática de algumas de suas obras, como “As Mariposas” e “Um Samba no Bixiga”. Além disso, piadas de ocasião, como a resposta à pergunta de Elis sobre a parceria de “Luz da Light” – “Essa eu fiz comigo mesmo.” – completaram a aplaudida participação do artista no programa. O ponto alto foram os quatro duetos de Elis e Adoniran: acompanhada pelo violonista Mário, a dupla cantou “Prova de Carinho” e “Bom dia tristeza”.

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No programa, Adoniran conta a história da música “Bom Dia Tristeza” para Elis Regina que o acompanha na canção:

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Elis: Eu sei, mas muita gente não sabe, que você foi parceiro por correspondência de um dos maiores nomes da música brasileira, não só da música moderna, mas da música brasileira em todos os tempos. Agora eu queria saber como é que aconteceu isso. Como é que você se tornou parceiro de Vinícius de Moraes sem sequer conhecê-lo?

Adoniran: Fácil, é fácil, fácil. A Aracy de Almeida, que é muito amiga dele, ele tava em Paris nessa ocasião, na Unesco e ela recebeu uma carta dele e dentro da carta veio assim essa letra, dois versinhos e [ele] dizia embaixo "Aracy, faça o que você quiser com esses versos."

Elis: Então a Aracy pegou e deu prá você.

Adoniran: Então eu tava pertinho dela, não é? e ela era ligação minha, não é? [risos] ela disse "Ô Adoniran, bota a música aí."

Elis: Quer dizer que a letra é de Vinícius de Moraes e a melodia é que é que é sua.

Adoniran: A letra é de Vinícius e a musiquinha é minha. Cê conhece?

Elis: Eu conheço. Você pode mostrar prá gente?

Adoniran: Posso, eu dou a saída e você embala depois, tá? (6)

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O segmento terminou com Adoniran interpretando seu “Trem das Onze” , para delírio da audiência.” (2)

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Elis Regina recebe Adoniran Barbosa no programa Fino da Bossa, 12/07/1965

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“Agüenta a Mão João”, sambão de crítica social

“Samba Italiano”, samba com influência de Puccini

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" No segundo semestre de 1965, Adoniran entregou mais ração para sua galinha dos ovos de ouro: as duas composições que os Demônios gravaram foram “Agüenta a Mão João” em parceria com Hervé Cordovil, “sambão alegre", mas impregnado de crítica social e “Samba Italiano”, uma de suas mais criativas. O original “Samba Italiano” nasceu de uma conversa de Adoniran com Otelo Zeloni, (ator do TBC e que atuava em programas da TV Record, como a Família Trapo), enquanto ambos observavam uma chuva que caía sobre São Paulo." (2)

[falado]

Gioconda, piccina mia,

Va brincare nel mare nel fondo,

Ma atencione co el tubarone, ouvisto?

ai capito meu San Benedito.

Piove, piove

Fa tempo que piove qua, Gigi

E io, sempre io

Sotto la tua finestra

E voi senza me sentire

Ridere, ridere, ridere,

Di questo infelice qui

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Ti ricordi, Gioconda

Di quella sera in Guarujá

Quando el mare ti portava via

E me chiamasti

Aiuto, Marcello!

La tua Gioconda há paura di quest´onda

"Adoniran cunhou uma hilária mis-em-scène, com influências que remontam até a ópera La Bohème de Puccini – o verso “Aiuto, Marcello!” foi apropriado de uma das falas da costureira Mimi." (2)

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Aguenta a Mão, João

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Samba Italiano

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Demônios da Garoa - "Samba Italiano" e "Um Samba no Bixiga"

Sambas de Adoniran Barbosa - Programa Som Brasil - TV Globo, 01/01/2010

“ Tocar na Banda"

" Ainda no ano da vitória de "Trem das Onze" no concurso do Quarto Centenário fluminense, Adoniran compusera "Já tenho a solução" (com Clóvis Lima), “Minha roseira” (com Dedé) e a espirituosa “Tocar na Banda”, que trazia no refrão uma sensacional boutade sobre a situação profissional da música no Brasil – além de uma estrofe que poderia virar apêndice da Teoria da Relatividade de Albert Einstein. Fabricados pela Souza Cruz a partir da década de 1920, os cigarros Yolanda eram simplesmente intragáveis, de acordo com seus contemporâneos. Com uma embalagem ilustrada por uma loiraça de sobrancelhas negras fazendo biquinho, o produto ficou conhecido na Itália como La Bionda Cattiva - "a loira malvada". " (2)

Tocar na Banda

prá ganhar o que?

Duas mariolas

e um cigarro Yolanda

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Num relógio é quatro e vinte,

no outro é quatro e meia.

É que dum relógio prá outro,

as hora vareia.

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Marquei com a minha nega às cinco,

cheguei às cinco e quarenta.

Esperar mais de vinte minutos

Quem é que aguenta?

Tocar na banda com Adoniran Barbosa

Samba de Adoniran Barbosa, Odeon, gravação de 1975

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“O Casamento do Moacir”

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“ Entre 1966 e 1 967, o compositor ainda registraria “O Casamento do Moacir” (parceria com Osvaldo Moles), “Chá de cadeira” (com Jucata), “Plac-ti-plac” (como Peteleco, nome de seu cão, em parceria com Waldemar Camargo), “Nunca mais faço Carnaval” e “Já fui uma brasa”, talvez a mais sintomática dessa safra. Escrita a quatro mãos com o produtor e diretor da TV Record Marcos César, a canção era um desabafo ao relativo abandono que o artista - e aí não só Adoniran, mas a maioria dos sambistas das antigas - estava relegado, quando comparado à turma arrasa-quarteirão da bossa nova e da Jovem Guarada. " (2)

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O Casamento do Moacir com Adoniran Barobsa e Quarteto Talismã

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Já Fui um Brasa com Adoniran Barbosa

Samba de Adoniran Barbosa, Odeon, gravação de 1974 (5)

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Em abril de 1966, em um novo programa da TV Record, conduzido por Solano Ribeiro, Alberto Helena Jr e Luiz Vergueiro, (...) a produção reuniu ninguém menos do que Adoniram Barbosa, Paulo Vanzolini e Chico Buarque para soltar o verbo sobre o tema que corria nas veias da trinca: o samba. Um dos entrevistadores cutucou Adoniran, que não se intimidou:

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Pergunta: O iê-iê-iê bem que pode jogar o samba a escanteio, Adoniran. Bem que pode. O samba é bem capaz de sumir com tanto cabeludo mandando brasa por aí. Mora!

Adoniran: Mas que some nada! O lema do samba é devagar e sempre. O coitadinho está sempre pressionado. Mas não some, não. Tirar ele de circulação é duro, é o mesmo que tirar a lua do lugar. Some nada. Não sei explicar por que, mas que não some, não some.

Pergunta: E esse Roberto Carlos, Adoniran?

Adoniran: Parece bonzinho.

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“Vila Esperança”

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Em novembro de 1968, Adoniran resolveu inscrever no IV Festival de Música Popular Brasileira, a ser disputado no Teatro Record Centro, uma canção feita a quatro mãos com Marcos César no início do ano. Mudou apenas o nome para dar à obra aquele ar de música fresquinha. “Primeiro Carnaval”, marcha-rancho que já havia sido apresentada pelo Diário Popular no dia 28 de fevereiro de 1968, foi rebatizada com o título “Vila Esperança” para entrar na briga com as mais de mil músicas que particparam da pré-seleção. Mais uma vez, porém, o compositor não passou pela peneira.”

O artista declarou depois: “Acho que não tem jeito mesmo. Não fui feito para festival. A marcha era muito boa, tinha melodia bonita e letra bem simples. Podia não ganhar, mas seria sucesso garantido.” A previsão do compositor se mostraria assustadoramente certeira.” (2)

Vila Esperança com Adoniran Barbosa e conjunto MPB4

***** FINAL DA PARTE VI *****

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Adoniran Barbosa, 100 anos

Parte I: O nascimento , o rádio-ator e comediante, o ator de cinema

Parte II: Malvina, Saudosa Maloca e Samba do Arnesto

Parte III: As Mariposas, Abrigo de Vagabundo , Iracema

Parte IV: Um Samba no Bixiga, Apaga o fogo mané, Quem Bate sou eu, Bom Dia Tristeza

Parte V: Tiro ao Álvaro, Prova de Carinho, Trem das Onze

Parte VI: Fino da Bossa, Aguenta a Mão João, Samba Italiano, Tocar na Banda, O Casamento do Moacir, Já Fui uma Brasa, Vila Esperança

Parte VII: Despejo na Favela, Nóis viemo aqui prá que?, Acende o Candieiro, Fica mais um pouco amor, Viaduto Santa Efigênia

Parte VIII: Primeiro e Segundos LPs, Elis e Adoniran, os 70 anos

Final: Silêncio

À medida que novas partes forem acrescentadas sobre outros aspectos de Adoniran Barbosa, os links serão aqui incluídos.

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Fontes:

(1) Calado, Carlos – 7 Adoniran Barbosa – Coleção Folha Raízes da MÚSICA POPULAR BRASILEIRA, 2010 - Editora MEDIAfashion

(2) Campos Jr, Celso de – Adoniran, Uma Biografia – 2009 – Editora Globo

(3) Rossi, Fred - Anotações com Arte 2010 – Adoniran Barbosa, 2009/2010 - Editora Anotações com Arte Ltda

(4) Blog de Maria Helena Rubinato – Especial Adoniran Centenário – 1910-2010 (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/default.asp?a=818)

(5) Site do Instituto Moreira Sales – Acervos de Humberto Franceschi e José Ramos Tinhorão

(6) transcrição do CD Adoniran Barbosa - Documento Inédito (Gravadora Eldorado) e

Adoniran fala sobre Bom dia, tristeza - por fliberal@uol.com.br - Qua 15 Ago 2001

Site Samba-Choro (http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0108/0844.html)

(7) Lima, Dulcilei da Conceição - bacharel em História pela USP - "Adoniran Barbosa - a voz da cidade" (http://www.klepsidra.net/klepsidra24/adoniranbarbosa.htm)

Exibições: 213

Comentário de Laura Macedo em 11 agosto 2010 às 20:52
Gilberto,

Muito bacana ouvir os diálogos de Elis e Adoniran. Uma delícia.

Beijos.

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