Adoniran Barbosa, 100 anos

Parte III - As Mariposas, Abrigo de Vagabundo, Iracema

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Adoniran: Como é que eu faço samba? Não sei como é que eu faço samba. É, é uma pergunta que não tem resposta.. Dá um cigarro, dá um cigarro. Como é que faz samba? Não entendo, não sei responder. Eu faço. Por exemplo, eu faço. Eu nunca morei na Vila Esperança e fiz Vila Esperança. Nunca morei no Jaçanã e fiz Trem das Onze. Pensar no Bixiga, nunca morei no Bixiga, só frequentei o Bixiga, muito né? Nick Bar, Major Diogo. Então eu fiz... Samba no Bixiga. "

“As Mariposas”

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Desde o sucesso de "Saudosa Maloca" e "Samba do Arnesto", em maio de 1955, Adoniran passa a compor com regularidade, produzindo canções româniticas, carnavalescas ou simplesmente de "maloca". Todas as suas composições eram oferecidas em primeira mão aos Demônios da Garoa - à mina de ouro chamada Demônios da Garoa.

No segundo semestre de 1955, o compositor mandou par ao quinteto dos infernos “As mariposas”, espirituoso samba que o conjunto, farejando mais um triunfo, correu para gravar na Odeon.” (2)

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Eu sou a lâmpida/ E as mulher/ É as mariposa/ Que fica dando vorta em vorta de mim / Toda noite/ Só pra me beijar”.

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“As Mariposas” com Demônios da Garoa
Samba de Adoniran Barbosa, Odeon, gravação de 1955
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“Arranjei Outro Lugar”, um fiasco.

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Arranjei Outro Lugar” era um samba oportunista, alardeado pela Odeon como sendo a “resposta” da “Saudosa Maloca”. A idéia era até interessane , mas Adoniram e Raguinho (Antônio Rago), co-autores da proeza, não se esforçaram muito para bolar uma continuação decente. A música tem duas estrofes, uma delas o refrão de “Saudosa Maloca”, que os preguiçosos compositores não se deram ao trabalho de substituir. Nem a popularidade dos Demônios da Garoa foi suficiente para colocar a obra nas paradas de sucesso." (2)

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Falei,

Com Mato Grosso a noite inteira

Pra ele se agüenta

Falei,

Que já arranjemo outro lugá

Pra nóis tudo ir mora!

Ele chora feito criança

Não qué se conforma

Tá sempre cantando assim

Saudosa Maloca

Maloca querida

Dindindonde nóis passemo

Dias feliz

De nossa vida.

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“Abrigo de Vagabundo”, um samba inspirado

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O pífio desempenho da canção ficaria engasgado na garganta de Adoniran, que voltaria ao tema dois anos mais tarde para engendrar, finalmente, uma continuação à altura para “Saudosa Maloca”. “Abrigo de vagabundo” foi gravado pelos Demônios da Garoa em outubro de 1958, e talvez seja uma das letras mais inspiradas do compositor. (2)

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Zeca e Demônios da Garoa - Abrigo de Vagabundo

Samba de Adoniran Barbosa

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ABRIGO DE VAGABUNDO com Adoniran Barbosa

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“Iracema”, samba de mulher atropelada ou “Ta aqui, ó. Te matei”

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O fiasco carnavalesco de “Arranjei outro lugar” seria compensado menos de um mês depois, com o êxito de “Iracema”, lançada também em 1956. (...) Como de costume, Adoniran mostrara com antecedência à atriz Nair Belo, da Record, sua amiga e uma de suas principais fontes de amostragem da reação do público.

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“Iracema” contava a história trágica de um atropelamento que vitimava a noiva a menos de um mês do casamento. Nair belo, que até então aprovava com louvor todos os sambas do artista, não só torceu o nariz para “Iracema” como ainda passou um sermão no colega: “Adoniran, você está louco? O que é isso, fazer um samba sobre mulher atropelada? Ninguém vai gostar de uma coisa dessas, pode ter certeza. Não vai dar em nada. (2)

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Em suas entrevistas, Adoniran afirmava que a inspiração para o samba viera de uma notícia real de um jornal de São Paulo, que informava a morte por atropelamento de uma mulher na rua da Consolação – substituída na música pela avenida São João."

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Adoniran: Iracema foi o que eu vi no jornal. Coitada. Eu vi, eu vi. E não foi na São João,começa que foi na Consolação que ela... Lia jornal. O Dia, lembra? cê conheceu o jornal O Dia?. Foi no Dia que eu li desse desastre, como eu li a notícia, fiquei foi .. ah isso vai dar um sambinha. Foi o primeiro samba errado que eu fiz. Iracema.

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Para alguns amigos mais chegados, porém, o compositor contava outra história: a canção teria sua gênese em um flerte não correspondido, cuja data ou período escapou a seus interlocutores. De acordo com esse relato, Adoniran vivia tentando se aproximar de uma exuberante mulher da noite paulistana, que jamais dava linha ao artista. Cansado de ser ignorado, Adoniran, em determinada ocasião, teria se dirigido subitamente à dama, e, dedo em riste, afirmado: “Eu vou te matar”. No dia seguinte, o artista voltou ao bar com a letra de “Iracema” e estendeu-a à altura dos olhos da mulher: “Ta aqui, ó. Te matei”. E saiu sem dizer tchau. (2)

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“Iracema” com Demônios da Garoa
Samba de Adoniran Barbosa, Odeon, gravação de 1956
(5)

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Foi um dos grandes sucessos de Adoniran, e Nair, sempre espontânea e sincera, muitos anos depois reconheceria a bola fora em seu jeitão:

“Eu não entendo porra nenhuma de música mesmo.”

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***** FINAL DA PARTE III *****

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Adoniran Barbosa, 100 anos

Parte I: O nascimento , o rádio-ator e comediante, o ator de cinema

Parte II: Malvina, Saudosa Maloca e Samba do Arnesto

Parte III: As Mariposas, Abrigo de Vagabundo , Iracema

Parte IV: Um Samba no Bixiga, Apaga o fogo mané, Quem Bate sou eu, Bom Dia Tristeza

Parte V: Tiro ao Álvaro, Prova de Carinho, Trem das Onze

Parte VI: Fino da Bossa, Aguenta a Mão João, Samba Italiano, Tocar na Banda, O Casamento do Moacir, Já Fui uma Brasa, Vila Esperança

Parte VII: Despejo na Favela, Nóis viemo aqui prá que?, Acende o Candieiro, Fica mais um pouco amor, Viaduto Santa Efigênia

Parte VIII: Primeiro e Segundos LPs, Elis e Adoniran, os 70 anos

Final: Silêncio

À medida que novas partes forem acrescentadas sobre outros aspectos de Adoniran Barbosa, os links serão aqui incluídos.

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Fontes:

(1) Calado, Carlos – 7 Adoniran Barbosa – Coleção Folha Raízes da MÚSICA POPULAR BRASILEIRA, 2010 - Editora MEDIAfashion

(2) Campos Jr, Celso de – Adoniran, Uma Biografia – 2009 – Editora Globo

(3) Rossi, Fred - Anotações com Arte 2010 – Adoniran Barbosa, 2009/2010 - Editora Anotações com Arte Ltda

(4) Blog de Maria Helena Rubinato – Especial Adoniran Centenário – 1910-2010 (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/default.asp?a=818)

(5) Site do Instituto Moreira Sales – Acervos de Humberto Franceschi e José Ramos Tinhorão

(6) transcrição do CD Adoniran Barbosa - Documento Inédito (Gravadora Eldorado) e

Adoniran fala sobre Bom dia, tristeza - por fliberal@uol.com.br - Qua 15 Ago 2001

Site Samba-Choro (http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0108/0844.html)

(7) Lima, Dulcilei da Conceição - bacharel em História pela USP - "Adoniran Barbosa - a voz da cidade" (http://www.klepsidra.net/klepsidra24/adoniranbarbosa.htm)

Exibições: 440

Comentário de Laura Macedo em 6 agosto 2010 às 18:37
Gilberto, olha só o nosso Adoniran anotando tudo... O resultado você tão bem nos apresenta nesta séria maravilhosa.

Comentário de Gilberto Cruvinel em 6 agosto 2010 às 20:49
Oi Laura,

Esse Adoniran.... era uma figuraça

Legenda desta foto na Biografia do Celso Campos Jr que não incluí na minha série e que vai agora exclusivo para você:

"Adoniran buscava na fonte a inspiração para compor seus personagens;

evidentemente , o bloquinho e a caneta desta imagem são para inglês ver"

Obrigado e Beijo Laura
Gilberto

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