.

Adoniran Barbosa, 100 anos - parte V

Tiro ao Álvaro, Prova de Carinho, Trem das Onze

.

.

“Tiro ao Álvaro” e “Chora na rampa”

Em 1960, em parceria com Osvaldo Moles, Adoniran compôs dois sambas: “Tiro ao Álvaro” e “Chora na rampa”. Este último bordão, que também fazia parte da marchinha da Gerarda e incomodara o censor Aldrovandi Scrosoppi, agora ganhara um música só para ele.

.

.

Chora na rampa negão
Chora na rampa
Chora que teus olhos se destampa

Ó Florisvarda
Eu chorei na tua campa
Chora negão na rampa
Ó Esmerarda
A chaleira está sem tampa
Chora negão na rampa

Ó Ermengarda
Tás bebendo minha úca às pampa
Chora negão na rampa
Tô sem bufunfa
Prá pagar a luz da lampa
Chora negão na rampa

No momento do seu lançamento, nem “Tiro ao Álvaro”, nem “Chora na rampa” fizeram muito sucesso, segundo o biógrafo Celso de Campos Jr.

O despacho do censor vetando a letra do samba “Tiro ao Álvaro” tinha a justificativa: “A falta de gosto impede a liberação da letra”. Foram assinaladas as palavras “Tauba”, “Artomove” e “Revorve”

.

Despacho da censura vetando "Tiro ao Álvaro" por "falta de gosto"

.

.

Demônios da Garoa - Tiro ao Álvaro

.

.

“Prova de Carinho”

.

Em homenagem a sua esposa, Mathilde, Adoniran escreveu a inspiradíssima letra de “Prova de Carinho”, musicada por Hervé Cordovil e gravada ainda em 1960 pelo Trio Marayá na Odeon.

Além da música, Adoniran presenteou sua esposa com uma aliança feita de uma corda metálica, supostamente proveniente de um cavaquinho. O detalhe é que o cavaquinho tocado no Brasil não possui uma corda mi como a mencionada no samba – trata-se de um instrumento de quatro cordas afinadas em ré, si, sol e ré. Se a confusão foi uma artimanha do poeta para enganar a amada e continuar gemendo seu instrumento pelas serenatas, ou um inocente equívoco que passou despercebido na hora da confecção da letra, não importa: Matilde emocionou-se de qualquer maneira.” (2)

.

.

"Prova de Carinho" com Adoniran Barbosa
Samba de Adoniran Barbosa, Odeon, gravação de 1974
(5)

.

.

.

Essa é a linda aliança que meu pai fez para sua Mathilde, companheira exemplar por mais de 40 anos. Estavam apaixonados e sem tostão para alianças de ouro. Então, ele se saiu com essa jóia, feita com a corda Mi de um violão. Acompanhada de um sambinha, Prova de carinho. Na música, ele fala em "corda Mi de meu cavaquinho", licença poética, pois cavaquinho não tem corda Mi.” Maria Helena Rubinato.

.

.

“Trem das Onze”

Adoniran Barbosa na estação Jaçanã

.

.

.

No início da década de 60, Adoniran encontrava-se, “num tenaz hiato produtivo”, nas palavras de seu biógrafo. O Grupo Demônios da Garoa “também não emplacava um sucesso em disco havia tempo. (...) A sorte dos Demônios da Garoa – e também do compositor Adoniran – só começaria a mudar em 1964, mais precisamente após um encontro fortuito entre o artista da Record e Arnaldo Rosa, líder do quinteto.

.

Ao comentar com o vocalista que havia preparado um novo samba, o autor de “Aqui Gerarda!” não teve tempo sequer de oferecer informalmente aos Demônios. (...) Arnaldo convocou de bate-pronto o compositor para apresentar sua obra, proposta aceita por Adoniran que alimentava a esperança de reeditar a parceria arrasadora da década de 1950.”

.

.

Quando ouviram Adoniran cantar “o dilema do rapaz que tinha de deixar um encontro com a namorada para voltar para a casa da mãe, Toninho, Canhotinho e Narciso torceram o nariz. Especialmente o último, além de não gostar da letra e da melodia, achou o tema inapropriado para um samba. Ao contrário do trio, Arnaldo se entusiasmou com a música, intitulada “Trem das Onze”. E vale lembrar que ele era o chefe.” (2)

.

.

“Lançado em meados de 1964, o compacto vendeu tanto em São Paulo que a gravadora Chantecler decidiu, antes do final do ano, relançar o samba em outro formato: um Long Playing, obviamente intitulado “Trem das Onze”, com outras composições de Adoniran. Surpresa mesmo foi a repercussão no Rio de Janeiro, já no início do ano seguinte. Apoiado pelo irreverente Chacrinha (....) o samba de Adoniran participou do concurso oficial de músicas carnavalescas do Quarto Centenário do Rio, do qual saiu vencedor, para surpresa geral.” (1)

.

.

Capa do disco Demônios da garoa: Trem das onze

.

.

Trem das Onze com Demonios da Garoa

.

.

Rever o preconceito contra São Paulo

.

“Reconhecendo o mérito do samba de Adoniran , o (na época) influente “Jornal do Brasil” admitiu :

“É hora de rever o preconceito contra São Paulo”. Até o polêmico Stanislaw Ponte Preta, referência no universo cultural carioca, saiu em defesa do compositor paulista: “Não posso ficar calado diante de tanta bronca por causa do sucesso do seu samba ´Trem das Onze` no Carnaval carioca”. Uma vitória como essa, ainda mais na casa do suposto adversário , deixou muitos cariocas preconceituosos num tremendo mau humor.” (1)

.

.

.

Trem das Onze com Adoniran Barbosa, 1974

.

.

***** FINAL DA PARTE V *****

.

.


Adoniran Barbosa, 100 anos

Parte I: O nascimento , o rádio-ator e comediante, o ator de cinema

Parte II: Malvina, Saudosa Maloca e Samba do Arnesto

Parte III: As Mariposas, Abrigo de Vagabundo , Iracema

Parte IV: Um Samba no Bixiga, Apaga o fogo mané, Quem Bate sou eu, Bom Dia Tristeza

Parte V: Tiro ao Álvaro, Prova de Carinho, Trem das Onze

Parte VI: Fino da Bossa, Aguenta a Mão João, Samba Italiano, Tocar na Banda, O Casamento do Moacir, Já Fui uma Brasa, Vila Esperança

Parte VII: Despejo na Favela, Nóis viemo aqui prá que?, Acende o Candieiro, Fica mais um pouco amor, Viaduto Santa Efigênia

Parte VIII: Primeiro e Segundos LPs, Elis e Adoniran, os 70 anos

Final: Silêncio

À medida que novas partes forem acrescentadas sobre outros aspectos de Adoniran Barbosa, os links serão aqui incluídos.

.

Fontes:

(1) Calado, Carlos – 7 Adoniran Barbosa – Coleção Folha Raízes da MÚSICA POPULAR BRASILEIRA, 2010 - Editora MEDIAfashion

(2) Campos Jr, Celso de – Adoniran, Uma Biografia – 2009 – Editora Globo

(3) Rossi, Fred - Anotações com Arte 2010 – Adoniran Barbosa, 2009/2010 - Editora Anotações com Arte Ltda

(4) Blog de Maria Helena Rubinato – Especial Adoniran Centenário – 1910-2010 (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/default.asp?a=818)

(5) Site do Instituto Moreira Sales – Acervos de Humberto Franceschi e José Ramos Tinhorão

(6) transcrição do CD Adoniran Barbosa - Documento Inédito (Gravadora Eldorado) e

Adoniran fala sobre Bom dia, tristeza - por fliberal@uol.com.br - Qua 15 Ago 2001

Site Samba-Choro (http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0108/0844.html)

(7) Lima, Dulcilei da Conceição - bacharel em História pela USP - "Adoniran Barbosa - a voz da cidade" (http://www.klepsidra.net/klepsidra24/adoniranbarbosa.htm)

Exibições: 574

Comentário de Laura Macedo em 6 agosto 2010 às 19:10
Gilberto, todas as fotos que estou postando nos comentários são da revista "MPB Compositores", nº 7, Ed. Globo, 1996.

O pesquisador e produtor J.C. Botezelli - Pelão é possuidor de uma das "bicicletinhas" confeccionadas pelo Adoniran, a qual ostenta com todo orgulho na sua mesa de trabalho.

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço