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Adoniran Barbosa, 100 anos - parte VIII

Primeiro e Segundos LPs, Elis e Adoniran, os 70 anos

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Últimas alegrias

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Adoniran não viu outra composição sua se aproxiamar da repercussão que teve “Trem das Onze”. Mesmo assim a carreira musical ainda lhe reservou algumas alegrias durante seus últimos anos de vida. (1)

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Primeiro LP

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Em 1974, logo depois de finalizar as gravações da novela “Mulheres de Areia”, que voltou a projeta-lo nacionamente por meio da TV, Adoniran entrou no estúdio da Odeon, para enfim gravar seu primeiro LP. A produção foi de J.C.Botezelli, o Pelão, que no ano anterior produzira o primeiro LP de Nélson Cavaquinho. No acompanhamento, craques como o percussionista Marçal, o violonista Theo de Barros e o maestro e arranjador Briamonte. (1)

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A censura vetou “Samba do Arnesto” (pela suposta imoralidade da letra recheada de erros de português) e “Um Samba no Bixiga” (por fazer menções à Polícia e a um sargento). Mesmo assim o disco foi muito bem recebido pela crítica e as vendas surpreenderam. Nova gravação foi feita apenas 6 meses depois. (1)

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Segundo LP

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O segundo LP de Adoniran, lançado em 1975, também foi produzido por Pelão, que não descansou enquanto não conseguiu a liberação de “Samba do Arnesto.” Como havia deixado a contracapa do álbum anterior sem texto de apresentação, em protesto pelas faixas censuradas, Pelão caprichou no segundo: para escrever sobre Adoniran, convidou nosso maior crítico literário e professor de literatura Antônio Cândido. Ao ler o texto, emocionado, o sambista chegou às lágrimas. A ótima repercussão do disco rendeu a ele muitos convites para shows. (1)

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Adoniran Barbosa e Elis Regina 1978

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Outra alegria para Adoniran, no final de 1978, foi ver seu samba “Saudosa Maloca” ser resgatado por Elis Regina que o incluiu no show “Transversal do Tempo” e no LP de mesmo nome. (1)

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Encontro de Adoniran Barbosa e Elis Regina.

Músicas: "Iracema", "Um Samba no Bixiga" e "Saudos Maloca".

Bar da Carmela - Bairro do Bixiga - Cidade de São Paulo - 1978

“Abrigo de Vagabundo” e “Torresmo à Milanesa”

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" Já em 1979, outras estrelas da MPB gravaram composições de Adoniran.

Em seu disco Esperança, lançado pela EMI-Odeon, a mineira Clara Nunes fazia uma bela releitura de “Abrigo de Vagabundo. (2)

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Abrigo De Vagabundo com Clara Nunes e Adoniran Barbosa, EMI Brazil

http://www.youtube.com/watch?v=Tkan1k721FQ

(o código de incorporação deste vídeo não está liberado, apenas a url)

Abrigo de Vagabundo com Clara Nunes

“ (…) já a carioca Clementina de Jesus reservava uma faixa de seu álbum Clementina e Convidados para o mais novo samba de Adoniran, sua primeira parceria com Carlinhos Vergueiro: “Torresmo à milanesa.

Composta no balcão do bar Mutamba, na rua Major Quedinho, a música chamava-se originalmente “Bife à milanesa”. Quando Carlinhos foi à Cidade Ademar para registrar a canção em um fita, a fim de manda-la para o conhecimento de Clementina, o mestre-cuca Adoniran fez algumas mudanças na receita, com base em teorias que não se aprendem em nenhuma escola de culinária.

- Carlinhos, vamos mudar de bife à milanesa para torresmo à milanesa

- Por quê Adoniran?

- Porque não existe.

Carlinhos então substituiu o nome do prato e ligou o gravador para registrar a nova versão. Quando chegou ao final, veio o toque final do chef nos versos “Arroz com feijão/ E torresmo à milanesa”.

- Carlinhos, vamos mudar para “um torresmo”. Tem que ficar “Arroz com feijão/ E um torresmo à milanesa”.

- Por quê Adoniran?

- Porque é mais triste.

Voilá” (2)

Clementina de Jesus, Adoniran Barbosa e Carlinhos Vergueiro - Torresmo a Milanesa

A homenagem pelos 70 anos

Em 1980, parentes , amigos e profissionais da música começaram a preparar a celebração de seu 70º aniversário. E nada melhor que um novo disco para comemorar. O produtor Fernando Faro vinha planejando o terceiro álbum do compositor desde 1978. A exemplo do que fizera para o LP de Clementina de Jesus em 1979, o produtor selecionou a nata do elenco da EMI-Odeon para a homenagem à Adoniran. Em dueto com Adoniran, participaram Roberto Ribeiro (“Bom Dia Tristeza”), Djavan (“Agüenta a mão, João”), Nosso samba (“Acende o Candieiro”), Vânia Carvalho (“Prova de Carinho”), MPB-4 (“Vila Esperança”), Clara Nunes (“Iracema”), Gonzaguinha (“Despejo na Favela”), Talismã (“O casamento do Moacir”), Clementina de Jesus (“Torresmo à milanesa”), Carlinhos Vergueiro (“Torresmo à milanesa” e “Viaduto Santa Efigênia”) e Elis Regina (“Tiro ao Álvaro”). Sozinho, Adoniran cantaria “Fica mais um pouco amor” e “Apaga o fogo Mane”. Nada de Demônios da Garoa. (2)

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Adoniran Barbosa e Elis Regina - Tiro ao Álvaro

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O duo de Elis e Adoniran seria um dos pontos altos do disco. Além da interpretação irretocável da diva gaúcha, merece menção o cochicho quase inaudível do compositor ao final da música, já com os instrumentos calados: “Saiu bão?”, pergunta, ingênuo, em interrogação mantida por Faro na faixa 2 do LP – e só compreensível com o volume do aparelho de som no máximo. (2)

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Registro do historico encontro de Elis Regina e Adoniran Barbosa

na Padaria Real, próxima à TV Tupi

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Eu sou este palhaço triste aqui

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As gravações começaram em maio, mas o disco seria lançado em agosto para coincidir com as celebrações pelos setenta anos de Adoniran. Elifas Andreato preparou o projeto para o álbum do autor de “Trem das Onze”. Para a capa, o artista teve a idéia de reproduzir uma placa comemorativa. Para o encarte, Elifas elaborou um desenho em que Adoniran era retratado como um palhaço lacrimejante. Ao mostrar para Roberto Augusto, diretor da gravadora, este ponderou: “Está lindo, mas você acha que ele vai entender esse negócio de palhaço?”.

Elifas pensou então que realmente Adoniran pudesse se ofender com a imagem. E preparou um outro desenho, de um Adoniran sóbrio, com a clássica imagem do chapéu e a gravata borboleta. Mandou emoldurar o desenho antigo e entregou-o de presente a Fernando Faro, que pendurou o quadro em seu escritório. Depois de alguns meses, uma ligação do produtor chegava ao estúdio do ilustrador: “Baixo, tem alguém querendo falar com você aqui.” Era Adoniran, que, de frente para a arte rejeitada, pegou o aparelho e sentenciou: “Elifas, eu sou esse palhaço triste aqui, e não o alemão que você pôs na capa do disco”. Do outro lado da linha, o desenhista corou.

“ Nunca senti tanta vergonha. Artista não dá pra subestimar. Subestimar artista é uma merda.”

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“eu sou esse palhaço triste aqui, e não o alemão que você pôs na capa do disco”

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***** FINAL DA PARTE VIII *****

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Adoniran Barbosa, 100 anos

Parte I: O nascimento , o rádio-ator e comediante, o ator de cinema

Parte II: Malvina, Saudosa Maloca e Samba do Arnesto

Parte III: As Mariposas, Abrigo de Vagabundo , Iracema

Parte IV: Um Samba no Bixiga, Apaga o fogo mané, Quem Bate sou eu, Bom Dia Tristeza

Parte V: Tiro ao Álvaro, Prova de Carinho, Trem das Onze

Parte VI: Fino da Bossa, Aguenta a Mão João, Samba Italiano, Tocar na Banda, O Casamento do Moacir, Já Fui uma Brasa, Vila Esperança

Parte VII: Despejo na Favela, Nóis viemo aqui prá que?, Acende o Candieiro, Fica mais um pouco amor, Viaduto Santa Efigênia

Parte VIII: Primeiro e Segundos LPs, Elis e Adoniran, os 70 anos

Final: Silêncio

À medida que novas partes forem acrescentadas sobre outros aspectos de Adoniran Barbosa, os links serão aqui incluídos.

Fontes:

(1) Calado, Carlos – 7 Adoniran Barbosa – Coleção Folha Raízes da MÚSICA POPULAR BRASILEIRA, 2010 - Editora MEDIAfashion

(2) Campos Jr, Celso de – Adoniran, Uma Biografia – 2009 – Editora Globo

(3) Rossi, Fred - Anotações com Arte 2010 – Adoniran Barbosa, 2009/2010 - Editora Anotações com Arte Ltda

(4) Blog de Maria Helena Rubinato – Especial Adoniran Centenário – 1910-2010 (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/default.asp?a=818)

(5) Site do Instituto Moreira Sales – Acervos de Humberto Franceschi e José Ramos Tinhorão

(6) transcrição do CD Adoniran Barbosa - Documento Inédito (Gravadora Eldorado) e

Adoniran fala sobre Bom dia, tristeza - por fliberal@uol.com.br - Qua 15 Ago 2001

Site Samba-Choro (http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0108/0844.html)

(7) Lima, Dulcilei da Conceição - bacharel em História pela USP - "Adoniran Barbosa - a voz da cidade" (http://www.klepsidra.net/klepsidra24/adoniranbarbosa.htm)

Exibições: 892

Comentário de Laura Macedo em 11 agosto 2010 às 21:46
Gilberto,

Como você inicia o post mencionando o Primeiro LP produzido pelo J.C. Botezelli - Pelão -, trouxe o video pra cá.

Parte da série "Adoniran Barbosa - 100 anos na boca do povo", produzida de Rede Bandeirantes.



Gilberto, sou fã do Carlinhos Vergueiro desde minha adolescência. Tenho vários Lps dele.


Maravilhosa a foto da Eils com o Adoniran. Eu não conhecia.

Outra caricatura do Elifas.


Agora vou para a parte final.

Beijos.

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