Muito se murmurou sobre o palavrório do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) acerca das cotas no STF. Ali, deve-se ter em conta, o senador foi atropelado pela confusão de ideias e pela verborragia.


Já ontem o senador fez um texto, publicado no blog de papel corrido do Noblat, que pouca gente comentou. Mas este texto sim, foi uma peça digna de análise por sua fraqueza de argumentos.


Vamos ao texto. Vou me permitir usar o mesmo método de análise do Nassif, ou seja, comentarei os parágrafos com um texto sublinhado.



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Bom dia a cavalo



Os finais de governo costumam ser modorrentos e podem provocar certas situações desgostosas para os mandatários contaminados pela excessiva admiração de si mesmos, especialmente no cenário das relações
exteriores.



Os mandatários podem até ser contaminados por essa excessiva admiração. Mas ela ocorre em todos os campos, não só no das relações exteriores. O senador forçou o gancho para jogar a viagem do Lula na conversa.



É quando a boa orientação diplomática exige do interessado comedimento próprio de quem praticamente cumpriu a missão de governança e por isso deve deixar para o sucessor as aspirações de médio prazo.



Quer dizer, para o senador não há políticas de estado, mas apenas de governo. Qual seria o tempo mínimo, para ele, que um governante diria: “bom, aqui não avanço mais, deixa para o
próximo.”? Vivemos num país e não numa linha e montagem.



A negação desse receituário simples pode significar expressivo bom dia a cavalo, conforme ocorreu com o nosso presidente na inoportuna visita a Israel.



Inoportuna visita a Israel. Quando seria oportuno? Quando Israel sediasse uma copa do mundo? Sim, porque Brasil é o país do futebol e, pelo que parece, só servimos para isso. Recomenda-se ao senador ler os jornais,
inclusive os que são menos elogiosos ao Lula, porque o Lula não foi visitar só
Israel
.



O presidente Lula – o cara conforme nominou Barack Obama – sem dúvida vai entrar para a história como o estadista que soube manipular com extrema competência os mecanismos globais de projeção pessoal e do próprio País.



Isso é verdade. Ele manipulou no sentido de “utilizou as ferramentas”.



Quando o planeta estava bem das pernas, lá estava Lula a utilizar o prestígio relativo do Brasil para dar voz às nações pequenas, como se houvesse alguma importância o tal diálogo Sul- Sul.



Como se houvesse alguma importância no diálogo Sul-Sul? Que isso senador? Isso é falta de visão política, ciúmes ou simplesmente um sentimento elitista e preconceituoso que enxerga nas relações multilaterais que
estão se construindo uma “trupe do atraso”? Reduziu o diálogo Sul-Sul a coisa
sem importância... Como medir a importância dos países? Só pelo poderio econômico? O Brasil deveria então optar pelo caminho da perpetuação dos equívocos das nações mais ricas?



Época em que falava pela África, naturalmente representava parte da América Latina e tinha até alguma coisa a dizer em nome de Bangladesh. Desempenhou muito bem o papel de Gandhi ou de Mandela sem uma causa específica.



Nossa mãe. Agora partiu para as alegorias infelizes. Por ódio ao presidente e por defender seu quinhão partidário (só pode ser isso), o senador reduz o desejo das ações ditas Sul-Sul de desempenharem
um poder global mais relevante de uma mera ação sem causa... Significa que ele
preferiria que isso não acontecesse? Bom era o mundo do jeito que era?



Durante a crise financeira mundial, aí sim chegou lá depois de ser admitido no clube fechado dos ricos e festejado para o delírio de grandeza dos nacionais aparelhados na máquina de governo.



Lá onde? No rol do sucesso? Daí ele já desvia o foco do pretensioso texto para atacar a famosa “máquina sindical petista” que está no governo. Para ele é essa máquina que festeja. Ela deve representar 83% da população do
Brasil.



Nessas ocasiões, o presidente, imodesto e palrador, escarneceu dos grupos do qual fez parte em reuniões cheias de simbolismo e quase nenhum pragmatismo. Por outro lado colheu vitórias fantásticas, tanto é
verdade que conseguimos ganhar o direito de sediar uma Copa do Mundo e as
Olimpíadas.



Seria importante que senador, ao galhofar, diferenciasse o que é simbolismo e o que é pragmatismo em diplomacia. Sabendo-se que tais conceitos andam na mesma corda bamba das relações internacionais, fica
vazia a sua afirmação. É possível, por exemplo, o país fazer gestos simbólicos
por pragmatismo. Pode também fazer gestos simbólicos sem nenhum pragmatismo,
aguardando o futuro. São opções. Ao não citar um exemplo claro, o cara fincou
um prego na manteiga. Daí ele opõe a este vazio de considerações as conquistas
da Copa e das Olimpíadas. O texto, a essa altura, já tá uma mistureba danada.



Nas discussões sobre as mudanças climáticas, Lula também estava entre os que efetivamente eram ouvidos.



Agora chegou o momento de ver escasseada a sua importância em virtude da natural chegada do fim do mandato. Começa a receber aquele tratamento que se dá a parentes indesejados em vez do tapete vermelho estendido
a que se acostumou a transitar.



Nossa, é mesmo. A visita ao Oriente Médio que o diga. O senador parece que e não pôde acompanhar os fatos. É compreensível.



O primeiro-ministro italiano Sílvio Berlusconi inopinadamente cancelou a visita que faria ao País, certamente motivado pelas trapalhadas do governo no gerenciamento do caso da extradição do terrorista
Cesare Batisti, mas também por que seria perder tempo vir ao Brasil.


Ele deve estar de brincadeira, com certeza. O fanfarrão Silvio Berlusconi (aquele que fala ao celular e deixa a Angela Merckel esperando) cancelou sua visita porque sequer consegue manter de pé seu governo
na Itália. O senador ainda me enfia um “por que” separado em resposta, mas isso
nem merece análise. O mais incrível é seu sentimento de inferioridade em relação
ao Brasil: ele realmente acha que seria perda de tempo um chefe de governo vir
ao Brasil. Veja que exemplo de brasileiro!



O “companheiro” Barack Obama ensaiou a vinda pelo menos umas três vezes ao País. Pode ser que apareça no segundo semestre, embora a crise comercial entre o Brasil e os Estados Unidos não recomende a viagem e a
passagem da secretária de Estado americana tenha deixado as coisas em bom
tamanho.



Isso que dá o Brasil reivindicar seus direitos na OMC. Agora somos obrigados a levar um puxão de orelhas de um senador de nosso próprio país porque o Obama pode talvez quem sabe não querer vir ao Brasil. De que tamanho
ele fala acerca da passagem da Hilary por aqui? Essa foi vazia...



A visita do presidente a Israel foi um demonstrativo da perda de “calor humano” que deve marcar a presença de Lula no cenário internacional.



Caramba. De onde ele tirou isso? Ele estava lá? Se ele não estava, que jornal ele leu? Nem os mais terríveis e implacáveis jornais sensacionalistas e fazedores de factóides foram assim tão chorosos...



É certo que não se podia esperar do Estado Judeu tratamento apaixonado em relação ao nosso presidente, justamente em decorrência dos equívocos diplomáticos do Itamaraty em se isolar no cenário internacional no
apoio ao belicoso ditador iraniano. Mahmoud Ahmadinejad se sustenta no poder ao
difundir o ódio islâmico de jogar Israel no mar e negar o holocausto.


Agora não há como esconder que Lula já discursou para plateias mais entusiasmadas e numerosas. No seu pronunciamento no Knesset, Parlamento israelense, havia mais cadeiras vazias do que autoridades.



Questionar a relação Brasil-Irã é uma coisa. Dizer que o Brasil está isolado é contraditório com a própria viagem do presidente ao Oriente. Seria relevante o DEMocrático senador ver as imagens de outros chefes de estado no
Knesset. Lá não costuma ser mesmo nenhuma festa de recepção.



Sobre a sua pretensão de patrocinar o novo no processo de paz entre árabes e judeus, francamente melhor seria se tivesse proposto apenas aquele jogo entre o selecionado brasileiro e um combinado israelense-palestino.



Eu acho que faltou mesmo o tal jogo. Seria um bom treino antes da Copa. No resto, a diplomacia foi impecável. Para um país acostumado a exercitar seu pior instinto “cordial”, a diplomacia brasileira caminhou muito
nos últimos anos. Se ele acha que é peça de ingenuidade fazer o que o país fez
indo ao Oriente Médio é porque anda mal de história e geografia.



O nosso presidente afirmou ser portador do vírus da paz, mas seria positivo se fosse vacinado contra a fatuidade, antes que seu governo acabe. Já o ministro das relações exteriores de Israel precisa tomar umas
lições de boas maneiras.



O último parágrafo é sempre o das lições de morais para fechar o texto. Fatuidades, enfim...



Demóstenes Torres é procurador de Justiça e senador (DEM-GO)


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