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Santa Maria: como acender um charuto na miséria alheia
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Por Lenio Luiz Streck
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“El diablo sabe más por viejo”
Já de pronto informo que fiquei em dúvida em relação ao título. O plano B seria “Entre William Bonner e o oportunismo jurídico: quem falha mais?”; e o plano C era “El diablo sabe por diablo pero más sabe por viejo”. Acabei optando pelo primeiro, porque é um escárnio feito por Machado de Assis, no livro Quincas Borba, há mais de 100 anos. Mas, vamos ao texto. Logo entenderão o porquê.
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A tragédia de Santa Maria gerou vários tipos de reações e comportamentos. De um lado, aqueles que interpreta(ra)m a tragédia no plano simbólico de uma sociedade em que a cidadania não funciona, mostrando que ela é mais um capítulo da tese de “porta arrombada, tranca de ferro”. Foi o que tentei demonstrar na minha Coluna da semana passada (...).
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A imprensa
Houve os que transformaram a tragédia em espetacularização, como grande parte da mídia, fenomenologia que pode ser simbolizada pela figura de William Bonner transmitindo o Jornal Nacional, da Globo, desde a frente da Boate. A República “precisava” da ida de Bonner a Santa Maria. Não se fala de outra coisa. O avião do JN aterrissando em Santa Maria... Imagine-se o frisson causado pela presença global no local. E imagine-se o frisson no restaurante em que a comitiva do JN jantou, se é que não voltou de imediato, chispando de lá.
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O humorista
Há, também, os humoristas que acham que, estando acima do bem e do mal, podem fazer charge sobre qualquer coisa. Penso que há coisas que não têm humor. São, simplesmente, trágicas. Naquele dia, o humorista tem de decretar luto. Não deve tentar ser engraçado. E mais não é necessário dizer sobre isso.
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O jurista
De outra banda, vi juristas pegando carona na espetacularização e, passadas apenas 24 horas — ou um pouco mais — da tragédia, já com manifestações contundentes, de forma definitiva, contra qualquer possibilidade de prisão dos envolvidos. Coitado do Delegado de Polícia de Santa Maria, que, cumprindo seu dever — afinal, sua atividade, segundo o CPP, por enquanto ainda é inquisitorial — foi acusado de cometer abuso de autoridade (sic), conforme palavras ao “pé da letra” que podem ser vistas no artigo “Não há fato que justifique as prisões em Santa Maria” — (...) —, do advogado Ticiano Figueiredo. Falarei desse tipo de exagero e precipitação na sequência. A crítica tem um sentido acadêmico. Lhana. E respeitosa.
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Em face disso é que traço este artigo. Para mostrar o óbvio, isto é, de que a virtude está no meio, sem querer ser piegas ou melodramático. Tem coisas sobre as quais não se pode ser precipitado. Na verdade, em nada devemos sê-lo. Mas, principalmente quando se trata de algo complexo, como um evento em que houve centenas de mortes e mais de uma centena de feridos, teríamos-de-ter-um-cuidado — e me refiro, aqui, à Sorge (cuidado no sentido de que fala Heidegger) — muito grande.
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A publicização da lágrima privada
Há alguns anos, escrevi uma crônica em jornal do Rio Grande do Sul sobre uma tragédia ocorrida em Porto Alegre, em que uma mãe perdeu dois filhos em incêndio de uma casa em vila popular. Ainda envolvida por rolos de fumo, a pobre mãe foi interpelada pelo repórter — que depois recebeu prêmio pela “proeza” — com a seguinte pergunta: “E agora, o que a senhora vai fazer?” O jovem repórter deixou o microfone colado ao rosto da destruída mãe até que uma lágrima descesse de seu rosto. Pronto. O repórter venceu. Publicizara a lágrima privada, única coisa que restara àquela senhora. Que “vitória”, não?
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Vejam. Machado de Assis era um gênio. Há bem mais de 100 anos já denunciava esse tipo de estratégia de buscar utilidades nas tragédias. Nossa imprensa é expert no assunto. Está lá em Quincas Borba. Vejam como cabe perfeitamente no caso do repórter de Porto Alegre e naquilo denunciado na coluna:
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“Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona — um triste molambo de mulher — chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.
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- É minha, sim, meu senhor; tudo o que eu possuía neste mundo.
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- Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?
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O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias.”
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E, agora, pergunto eu: e não é mesmo verdade? Não foi, também, o que basicamente fez grande parte da mídia no episódio de Santa Maria? Entrevistaram pessoas que, por alguma razão, não foram à Boate, parentes dessas pessoas, filmaram os pertences das vítimas, aproximaram microfones e câmaras nos rostos sofridos. Enfim, todos tiraram a sua “casquinha”. Repórteres foram tirados das férias para “irem morar” em Santa Maria. Ficar em cima. Tirar até a última gota do sofrimento alheio. (...).
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A fronteira do oportunismo
Já no meio jurídico, vi que, mesmo sem maiores informações, um jovem advogado adiantou-se a todos e — mesmo sem maiores informações — “decretou” que a prisão de quatro pessoas envolvidas na tragédia era “abuso de autoridade” — sem falar em frases dramáticas como a “morte do estado Democrático de Direito”, verbis:
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“Seria prudente, sim, prender as autoridades públicas responsáveis por esse manifesto abuso de poder. Da mesma forma seria prudente providenciar a inclusão de um novo crime no ordenamento jurídico pátrio: ‘excessiva vontade de aparecer na mídia’”.
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Portanto, que o Delegado tenha cuidado... — o juiz, entretanto, foi, estrategicamente, poupado das críticas. Sobrou mesmo é para o Delegado. Sei que foi uma figura de linguagem utilizada no calor dos acontecimentos — por vezes, escreve-se muito rapidamente, na ânsia de colocar nossas (enfáticas) teses — mas, por que razão seria “prudente prender as autoridades” (sic)?
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De todo modo, o advogado signatário do referido artigo pode estar certo. Assim como William Bonner também pode estar certo, dependendo de que lado percebemos a ambos. Por exemplo, Bonner está praticando um case jornalístico, que provavelmente faz “escola” nas Faculdades de Jornalismo — na verdade, Bonner se transforma em um Banner, se me entendem! Algo do tipo: “Fique em cima do fato”; “Construa os fatos. Participe”; “Se houver enchente, entre na água até o meio das canelas”; “Se o trigo subir de preço, vá, primeiro, para o meio de um trigal, fazendo uma tomada a la Van Gogh, aproveitando o sol do final da tarde. Depois, entre em uma casa e filme pães em cima da mesa. E entreviste um senhora que compra seis pães por dia e que agora terá um aumento de despesa de x reais”. O repórter falará disso tudo e encerrará com a fala da dona de casa, que deverá dizer “assim não dá; o governo deveria cuidar dos preços da farinha”. Afaste a câmara lentamente, de preferência, filmando o ranho de um dos moleques mulambentos. Bingo! Viva Quincas Borba!
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Ah! E, na virada do ano, aproveite o nascimento da primeira criança. A repórter — sim, neste caso, melhor é alguém do sexo feminino — deverá estar vestida de auxiliar de enfermagem e fará um speech de dentro da maternidade. E entrevistará o pai, que dirá: “vamos dar o nome de Vitória à nossa filha”. E, no momento seguinte, entra a repórter, que entrevistará Pai Oxum de Guindá, que estará jogando búzios e falando das previsões. A reportagem deve ser feita no interior do atelier do “adivinho”.
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Dica final para bons cases: cole sempre palavras e coisas. Não deixe o imbecil do telespectador — que tem a mentalidade do Hommer Simpson, como já sentenciou o próprio W. Bonner — pensar. Pense por ele. Deixe tudo pronto. Prêt-à-penser.
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Pois a tragédia de Santa Maria está sendo “contada” a partir do modelo que descrevi. Sem tirar, nem por. Aliás, podem botar mais coisas. É muito pior que se pensa. (Continua).
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(Para ler a matéria completa, clique aqui: http://www.conjur.com.br/2013-fev-04/lenio-streck-santa-maria-acend...
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Sistema de freios e contrapesos, freios morais inibitórios, escrúpulos, sobriedade, tudo isso andou faltando relativamente à tragédia. Natureza humana? Competição tresloucada? A literatura e o cinema são pródigos na abordagem do assunto. A montanha dos sete abutres...
Jornalismo apelativo, compulsão em aparecer, vaidade incontida. Há algumas décadas, no governo do general Figueiredo, foi moda no O Pasquim e outros veículos, por um bom tempo, o seguinte lugar comum: um personagem qualquer, na situação mais ridícula/constrangedora possível, desde logo a justificar-se:
"É que eu preciso sobreviver, entende?".

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