Algumas das Raras Parcerias de Vinicius de Moraes

 Vinicius de Moraes durante o programa Vox Populi, da TV Cultura, em 1980, ano de sua morte.

 

Texto adaptado de Danilo M. Martinho, do Portal da Fundação Padre Anchieta.

 

"A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida." Já diria Vinicius de Moraes no clássico "Samba da benção", e encontros não faltaram em sua vida. Foram inúmeros parceiros musicais durante a carreira do poeta e diplomata, na qual se destacam Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell e Carlos Lyra. Mas a vida também é feita de desencontros.
No caso de Vinicius de Moraes destacaremos alguns desses desencontros que resultaram em raras parcerias.

Adoniran Barbosa e Vinicius de Moraes nunca se falaram, nem ao menos se conheceram, mas "Bom dia, tristeza", imortalizada na voz de Maysa, registra uma parceria de sucesso entre os dois. Bastaram alguns versos rabiscados por Vinicius em um guardanapo e entregue à Aracy de Almeida, amiga em comum dos dois compositores. O sambista natural de Valinhos (SP) assinou a melodia, e a parceria entre desconhecidos estava parida.

 

“Bom dia tristeza” – interpretação de Maysa

 

A vida também separou Vinicius de outros parceiros. Ernesto Nazareth não viu uma de suas obras para música popular, o choro "Odeon", receber a letra do poeta.

 

 

“Odeon” – interpretação de Nara Leão

 



Vinicius, por sua vez, não conheceu a letra que Adriana Calcanhoto fez para melodia composta por ele e Francis Hime nos anos 1970, "Um sequestrador", a pedido do próprio Francis. Música lançada em 2003, no disco Brasil lua cheia, de Francis Hime.

 

 

“Um sequestrador” – interpretação de Francis Hime e Adriana Calcanhoto.

 



A maioria de seus parceiros eram sempre de amigos. Amigos com quem tinha muito cuidado e carinho chamando-os pelo diminutivo, como "Tonzinho" ao se refrir ao seu companheiro de tantas composições e uísques, Tom Jobim.

Outro nome da MPB que conviveu intensamente com Vinicius de Moraes foi Chico Buarque. O diplomata era amigo dos pais de Chico e frequentava sua casa constantemente. Mesmo assim, Chico e Vinicius moldaram apenas duas músicas em conjunto, "Valsinha" e "Desalento". E contando as composições à seis mãos, ora com Tom, ora com Toquinho, ora com Francis Hime, as músicas não chegam a dez, por mais que não pareça.

 

 

“Valsinha” – Intepretação de Mônica Salmaso

Chico Buarque recebeu a música de Vinicius na Argentina, onde o compadre fazia um show com Toquinho. Voltou com a fita para o Brasil e, tempos depois, remetia a letra pelo correio. Vinicius respondeu propondo algumas alterações, inclusive o título, que a seu ver deveria ser “Valsa hippie”.

K

“Desalento” – interpretação de Chico Buarque

 

Com “Desalento” (lado B do compacto que tinha “Apesar de você”) Chico retribuiu a gentileza que Vinicius lhe fizera em “Gente humilde”. O poeta escreveu os versos “Diz que eu estive por pouco / Diz a ela que estou louco / Pra perdoar” e ganhou a parceria. Com a proibição do compacto, a canção foi incluída no LP Construção (1971).



Vinicius de Moraes teve encontros que chegam a passar despercebidos. É o caso daquele que gerou "Rosa de Hiroshima", obra composta com Gerson Conrad (segundo Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello) ou em parceria com João Ricardo (segundo o Dicionário Ricardo Cravo Albin), para o grupo Secos e Molhados.

 

 

“Rosa de Hiroshima” – Interpretação de Ney Matogrossso

 

Os encontros do nosso eterno poetinha – Vinicius de Moraes – jamais passavam em brancas nuvens, sejam os relacionados ao amor-paixão, que foram inúmeros; os ocasionais; os de amizades, sempre bem cultivadas; os rotineiros; os ocasionais; enfim, eles ganharam a eternidade em seus poemas e canções.

 

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Fontes:
- Histórias das Canções de Chico Buarque, de Wagner Homem / Chico Buarque. –São Paulo: Leya, 2009.
- Portal Fundação Padre Anchieta. (Danilo M. Martinho, em 26/10/2010).

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Comentário de Alceu da Viola em 10 janeiro 2011 às 13:33
Sensacional esta matéria! A bossa nova, apesar de esquecida e abandonada da mídia musical, teve ao meu ver uma importantíssima contribuição para a música popular brasileira. A bossa nova, com seus arranjos dissonantes e sofisticados, trouxe aos ouvidos dos músicos da época, e para os de hj também, uma sonoridade que muitos não tinham coragem, conhecimento, nem ousadia de usar. Gravei uns tempos atrás, algumas músicas do cancioneiro popular, como "O cravo e a Rosa", "Samba Lelê", "Trem de Ferro" entre outras, todas em ritmo de bossa nova, com arranjos sofisticados, sem obviamente exagerar, porque era um trabalho direcionado para crianças de 1ª a 4ª séries. Seria uma espécie de "2 em 1". As crianças aprendiam a cantar as músicas, e ao mesmo tempo se estimulariam a conhecer o "ritmo contagiante" da nossa música popular.
Comentário de Laura Macedo em 11 janeiro 2011 às 11:14

Alceu,

Quero parabeniza-lo pelo trabalho de resgate do nosso cancioneiro popular nas escolas. Sou de opinião favorável que, a cultura em geral, especialmente a música, é um poderoso instrumento de transformação social de crianças e jovens, carentes ou não. Aqui em Teresina (PI) temos várias experiências bem sucedidas nesse sentido.

Grata pelo comentário e sucesso na sua carreira musical.

Abraços.

 

Comentário de Alceu da Viola em 11 janeiro 2011 às 13:18
Infelizmente esse trabalho não chegou ao fim. As escolas públicas em São Paulo, na época em que eu desenvolvia esse trabalho, sofreram transformações (para pior). Os professores do estado na sua maioria, devido aos baixos salários, dão aula na prefeitura e tem o Estado como um bico pra "ganhar grana". Então, não há na maioria dos casos um comprometimento desses profissionais com a educação. Eles tem um forte comprometimento com suas contas pessoais. Sendo assim, seria um trabalho dificil faze-los entender que a música na sala de aula é uma importante dinâmica para evolução intelectual dos "pequenos". Mas, essas questões sobre professores, ensino estadual no estado de SP, dariam folhas e folhas de discussão. Abçs
Comentário de Gregório Macedo em 16 janeiro 2011 às 23:45

Ótima seleção, e muito válida a inserção do inédito (para mim) verso sequestrador do Francis Hime. Quantas antológicas mais o poetinha teria feito!

Beijos.

 

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