Alopragem e Bafafá moral: a carta compromisso

Um termo que não deveria sair de pauta em tempos de internet e que entrou de esgueira no final da campanha de 2006, acabando por comprometer-lhe o rumo, é o cunhado por Lula na expressão "aloprados". Em seu significado mais geral o "aloprado" é aquele militante que de modo supostamente apaixonado acaba por tomar atitudes que fogem ao campo da política democrática e que, em razão do impacto eleitoral que causam, levam à condenação ética do partido por parcelas ponderáveis do eleitorado e fragilizam, por isso, suas chances de vitória eleitoral.

Evidente que o potencial de danos trazido pela "alopragem" é proporcional à capacidade dos adversários de, em face do maior ou menor poder de pautar a grande mídia, criminalizar a atitude voluntariosa e delas obter dividendos eleitorais.

Mas o que na campanha de 2006 pôde ser considerado como ação de aloprados, ganha agora características de verdadeiro estado de espírito na medida em que milhares de militantes e cabos eleitorais empenhados em marcar moralmente o campo adversário, plantlam ou dão repercussão por meio da internet a aleivosias que supostamente pensam beneficiar seu próprio candidato.

No centro da gincana do achincalhe está o tema do aborto e o da homosexualidade. Sua prevalência é denotativa de uma sociedade cujos avanços democráticos não alcançaram ainda o estágio de lidar com diferenças de visões de mundo e que vêm a desatar os nós que a prendiam à miséria e a sua expressão cultural: o dogma e o preconceito.

Esse, aliás, é o Brasil para o qual as novelas sempre falaram, buscando estabelecer compromissos mínimo de valores que permitisse a continuidade do processo modernizador alavancado pela penetração do grande capital financeiro na agricultura e nos setores retardatários da economia. Um compromisso que de tão precário, deixou aberta as portas para as denominações religiosas mais sintonizadas com o desejo de ascensão social sistematicamente negado pelo status quo tradicional e o seu veículo ideológico, o catolicismo.

A integração ao mercado de novos setores de classe, decorrente dessa penetração das práticas capitalistas e da ação deliberada do Estado em programas redistributivos de renda, produziu o choque entre o atraso e a contemporaneidade de que nos dão revelação as paixões morais despertadas pelas bandeiras homofóbicas e de anti-aborto da campanha presidencial de 2010.

A internet, por comunicar-lhes o conteúdo de maneira imediata e permitir--lhes a propagação sem a mediação de uma classe políttica que lhes tivesse antes dado tratamento, torna-se o campo da guerra agora sem quartel em que os receios de uma classe emergente e o oportunismo de uma elite deslocada encontram confluência e mútuo reforço.

E aí chegamos aos novos aloprados, gente que pensando encontrar-se do lado menos dogmático do embate, potencializa a situação de conflagração moral com o recurso às mesmas táticas protagonizadas pelas elites no concerne em mobilizar a verve moral dos segmentos de classe recèm-incluídos ao mercado cuja visão de mundo é predominantemente marcado pelos valores das sociedades tradicionais.

Esses aloprados são agora milhares, figuras sem rosto que movem-se pelo ambiente virtual dizendo o que lhes vêem a cabeça e arrebanhando, com isso, muito mais adversários que adeptos entre essas novas classes que predispostas ao conservadorismo, como bem o destacou em estudo recente o sociólogo André Singer, enxergam na exacerbação do debate moral o prenúncio do caos que lhes toldará ao fim a ascensão social obtida.

É nesse momento que a direção e as garantias políticas proporcionadas pelo partido se faz insubstituível, pondo ordem ao caos, fazendo com que a algazarra estabelecida em suas hostes na internet não venha ser interpretada como a véspera da algazarra nas ruas. Se mais não fosse, porque o medo suscitado pelos embates morais leva a discussão para o campo do adversário a quem se associa a perspectiva de um estado forte disciplinador.

Por ordem entenda-se o compromisso formal dirigido às grandes massas eleitorais que demonstre, a exemplo da carta aos brasileiros de 2006, o reconhecimento pelo novo governo das clivagens de pensamento existentes na sociedade brasileira e a decisão de conduzi-las à conciliação por meio das instituições de representação democrática de que hoje dispõe a sociedade, abrindo-se mão da força das maiorias para definir-lhes o rítimo e o passo.

Que se diga, pois, não à descriminalização do aborto e não à legalização da união entre homosexuais neste momento, como forma de retomar-se as condições de diálogo entre os diferentes grupos sociais.

Isso se se quiser que os novos aloprados da internet não pautem tragicamente as eleições.

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