América Latina: Estudo discute relação entre investimentos militares e corrida armamentista

LILIAN MILENA
Da Redação - ADV


Os países da América do Sul são os que mais investem no setor militar em comparação aos vizinhos da América Latina (nações da região central e o México). Dos US$ 44 bilhões alocados para a compra de armamentos e reestruturações de defesa, só em 2007, cerca de US$ 39,6 bilhões foram gastos, sobretudo, por Brasil, Venezuela, Chile, Colômbia e Equador.

Dessa forma, o crescimento de recursos fornecidos para a defesa da região, tem suscitado debates sobre uma possível corrida armamentista iniciada por esses países.

No período de 2003-2007 os investimentos da América Latina, como um todo, tiveram aumento médio anual de 6%. O que, segundo o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), Rafael Duarte Villa, ainda está muito abaixo em comparação a outras regiões do mundo, como Ásia e Oriente Médio.

Por outro lado, ao longo dos últimos dez anos, a América do Sul apresentou um padrão de crescimento nos gastos militares quase que constante em relação ao restante das nações latinas, algo que não se via desde o final da década de 1990 – a região centro-americana, por exemplo, manteve os índices de gastos anuais.

O menor gasto entre os países do Sul, registrado no ano de 1999, representou 86% do conjunto de gastos latino-americanos. Já no ano de maior investimento (2007) a região Sul foi responsável por 97% dos valores alocados por toda América Latina.

As nações que mais sofreram com o aumento proporcional das despesas militares no período 2003-2007, foram: Venezuela (com 78,53% do montante), Chile (53%) e Equador (49%). Também são do sul da América, os países latinos com os maiores orçamentos militares: Brasil (responde por 46% dos gastos da região); Colômbia (15%) e Chile (13%).

“O aumento coincide com o fato de que entre 2004-2006 a região sul-americana teve uma série de três anos seguidos de forte crescimento econômico (cresceu a uma taxa média aproximada de 5,3%)”, explica Villa.

Em 2007, o desenvolvimento econômico da região chegou a recuar 4,9%, mesmo assim, os países mais fortes (Brasil, Argentina, Chile e Venezuela), mantiveram ganhos positivos no setor militar em relação ao PIB, na ordem de 8,7%, 5,3%, 5,1% e 8,4%, respectivamente - Ou seja, naquele ano, a América do Sul incrementou seus gastos em 23,75% em comparação ao ano anterior.

Logo, algumas fontes de estudo, crêem que a busca pelo incremento da defesa por parte dos países latino-americanos, na verdade reflete os resultados positivos de apreciação do PIB, somado ao dólar fraco – estimulando a importação de bens –, e a vontade política de modernizar as Forças Armadas da região.

Por outro lado, as preocupações da Colômbia com a compra de armamentos por parte da Venezuela levaram, no período recente, o governo colombiano a incentivar mecanismos que monitorem as compras venezuelanas de armas, revelando certa tensão entre as duas nações.

Mercado promissor

A partir de 2005, Chile e Venezuela passaram a melhorar os recursos para as compras da defesa em relação ao restante dos países da América do Sul. Além disso, dados divulgados em 2008 pelo Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI, na sigla em inglês), apontam que os três países na região que mais incrementaram investimentos militares foram: Brasil, Chile e Venezuela.

O aumento percentual das transferências de armamento para a América do Sul fez com que a região se tornasse responsável por 5% do volume de transferências internacionais de armas convencionais importadas no período 2003-2007. Assim, o incremento nos cinco anos mais recentes é 47% superior aos investimentos registrados entre 1998-2002.

Ainda, segundo a SIPRI, a América do Sul estaria se transformando em um mercado emergente para a indústria militar. O Chile e a Venezuela, por exemplo, se tornaram mercados da Rússia e da Grã-Bretanha, junto com a região do Norte da África.

O fato desses países comprarem de determinadas nações e não de outras aumenta o coro que vê no incremento militar da América do Sul uma corrida armamentista.

A Venezuela, por exemplo, entre os períodos 1998-2002 e 2003-2007, saltou da 56ª posição para a 24ª colocação, passando a ser considerada a nação que mais importa na região sul da América tendo gasto US$ 887 milhões em material bélico no período.

Em 2007, a Venezuela foi o terceiro mercado das exportações da Rússia, “com 5%, embora esse percentual seja inferior aos 45% de exportação para a China, e os 22% que vão para o mercado indiano”, explica o pesquisador.

Villa destaca em seguida que, a preferência de fornecedor por parte da Venezuela, foi incentivada por medidas norte-americanas. Em 2006, o Departamento de Estado dos EUA impôs um embargo impedindo que a Venezuela tivesse acesso a bens e serviços de Defesa, o que levou a sua aproximação com a indústria militar russa.

No período mais recente, 2003-2007, o montante investido pela Venezuela (US$ 1,417 bilhões), foi menor que o investido pelo Chile (US$ 2,283 bilhões).

Brasil

O Brasil tem metade do PIB da região sul-americana (56%), assim acaba sendo uma das nações locais que mais investem no setor militar. Apesar disso, entre 2003-2007, o país reduziu seu peso internacional com a importação de equipamentos convencionais.

Caiu da posição 32 no período 1998-2002, para a 33ª posição nos cinco anos mais recente. “Esse decréscimo foi compensado pelo importante incremento do orçamento militar no ano de 2007, de mais de 33%, de longe o mais importante numa década”, destaca Villa.

O Brasil até 2006 ocupou a 14ª posição entre os países com maiores gastos militares, e passou para 12ª posição em 2007. Mas o pesquisador ressalta que, em comparação à apreciação do PIB, os gastos do Brasil no setor diminuíram. Ou seja, entre 2003-2007, o Brasil investiu US$ 70 bilhões enquanto que só em 2007 o PIB obtido pelo país foi de US$ 1,5 trilhão (ou R$ 2,5 trilhões).

“Disto resulta que, na relação gasto militar/PIB, o Brasil seja um país que gasta pouco quando comparado à Colômbia ou ao Chile”, afirma.

Entre 2003-2007 o Brasil gastou em média 1,5% do PIB em despesas militares. O orçamento de defesa recebeu aumento de 15% entre 2004 e 2007 (só 33% em 2007, em comparação ao ano anterior).

Por outro lado, apesar do montante alocado, apenas 4% do total orçado foi disponível para as novas aquisições e inovações – o resto do dinheiro foi, basicamente, gasto com o pagamento de pessoal.

“Dessa maneira, o gasto real de US$ 818 milhões em compras e upgrade de armamento no período de 2003-2007 foi inferior aos do Chile e da Venezuela”, completa o pesquisador.

Ainda assim, em comparação a 2006, o setor teve um aumento de US$ 3,64 bilhões nos recursos disponíveis no ano de 2007. Para 2008, o aumento registrado foi de US$ 5,6 bilhões.

Espera-se que em 2009, o orçamento nacional para o setor chegue ao total de R$ 50,2 bilhões. Portanto, é possível que nos próximos anos o montante alocado para a defesa brasileira comece aos poucos a se estabilizar numa proporção de 2,5% do PIB.

Para acessar o etudo na íntegra, clique aqui.

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