Andrea Piccini - Arquitetura árabe no berço do Renascimento

Por Ana Maria Barbour

Após anos de estudos e pesquisas, o arquiteto italiano Andrea Piccini lançou no dia 3 de setembro seu novo livro “Arquitetura do oriente médio ao ocidente: a transferência de elementos arquitetônicos através do Mediterrâneo até Florença.” Na publicação ele analisa as manifestações arquitetônicas influenciadas pelas culturas médio-orientais, árabe e islâmica no Mediterrâneo, entre os anos 1.000 e 1.400. Mostra como elementos se transferiram de forma muito mais flexível e intensa do que foi aceito na história elaborada no mundo ocidental europeu.

Arquiteto, Piccini se formou na Universidade de Florença em 1974. Foi na faculdade que desenvolveu seus primeiros estudos sobre a arquitetura árabe, realizando diversos trabalhos de campo na Síria. Entre 1975 e 1980, viveu na Argélia, trabalhando com a cooperação italiana na ajuda de reconstrução do país após a independência. No Brasil, o autor fez Mestrado (1991) e Doutorado (1997) na área de engenharia, na Universidade de São Paulo, tendo também lecionado na instituição. Hoje, trabalha na UNISOL – Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários –, na área de Relações Internacionais.

Em entrevista para o ICArabe, concedida pouco antes de embarcar para o Uzbequistão, onde iniciará uma nova pesquisa arquitetônica na Ásia Central, Piccini conta um pouco mais sobre seu livro e a descobertas que ele traz:

Qual é o grande diferencial da pesquisa publicada neste livro?
Eu estudei o período de transição entre a Idade Média e o Renascimento na região de Florença. Ao contrário do que grande parte dos estudos afirmam, o gótico e o bizantino florentino nunca existiram. Esta classificação foi posterior e traz com ela o preconceito do ocidente em admitir que foi o contato e a influência árabes que deram novo impulso à economia, à cultura e à arquitetura da cidade, considerada o berço do Renascimento.

E de que forma este contato se deu?
A origem é econômica. Ocorreu por meio do comércio com o Oriente Médio através da navegação pelo Mar Mediterrâneo. Durante a Idade Média, em que a Europa passou um profundo processo de retração econômica e cultural, os árabes desenvolveram intensamente todas as áreas do conhecimento: as artes, as ciências, a arquitetura, engenharia, a área jurídica, etc. A retomada dos contatos comerciais entre os dois povos trouxe consigo influências culturais enormes e muitos costumes árabes foram adotados em Florença, afinal, eles eram referência de modernidade e sofisticação.

Quais tipos de costumes foram adotados?
Diversos, entre eles os costumes das cortes do Oriente Médio, a utilização de garfos e facas nas refeições e vestimentas.

E na arquitetura, quais são as características que marcam esta influência?
A engenharia e a arquitetura árabes criaram novas possibilidades principalmente para as grandes construções. Trouxeram leveza e fantasia à arquitetura, com colunas, arcos, mosaicos e elementos decorativos em geral. A Basílica de San Miniato al Monte, em Florença, apresenta uma série de semelhanças com a Mesquita de Damasco. Há textos e documentos que mostram que muitos artesões e artistas de Florença eram árabes. As famílias ricas traziam mão de obra do oriente Médio para trabalhar nas construções. Muitos árabes também imigraram e se instalaram na região.

Então a cultura árabe era para os ricos?
Sim, era para quem tinha poder econômico e comercial. Nem todo o povo florentino podia importar isto.

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Comentário de Zé Via de Regra em 7 outubro 2009 às 13:29
Matéria fascinante, Carlinhos,
Tudo o que tire um pouco a visão eurocentrista e gringa de que os bárbaros são ou outros é legal, necessário. A Renascença não floresce somente em cima de colunas greco-romanas, mas em infraestruturas mouriscas e tranfusões culturais riquíssimas em toda a costa do Mediterrâneo. O setor artístico-cultural mais rico da Espanha está nas regiões onde houve ocupação moura. O Norte brecou a penetração militar, mas não teve como brecar as influências culturais.
O que fez muita diferença foram as Cruzadas, claro, por questões econômicas, mas que levaram à subida de um tom religioso e onde manda a teocracia o entendimento harmônico entre civilizações vai pro beleleu! Aí, passou a predominar a racionalidade estratégica do catolicismo na consolidação do absolutismo voltado à hegemonia. Santos padres sabiam bem as artes da guerra na formação de Estados Nacionais e na formulação de "tecnologia". Noção que talvez tenha faltado aos árabes.
Mas naquele filme extraordinário de Michael Mann ou Ridley Scotto(?): Cruzada, há uma clara exposição das diferenças de "espírito" entre mouros e cristãos, inclusive nas práticas éticas e nas lutas intestinas.
Comentário de Maria Bernadete Barbosa Hesse em 7 outubro 2009 às 14:52
Matéria muito importante! As pessoas esquecem, inclusive, de que os árabes, como invasores, respeitaram acima de tudo a cultura local das regiões invadidas, deixando que seu legado cultural se somasse à cultura das terras invadidas. Eles viram o Outro (alteridade) coisa muito rara na história mundial.
Comentário de Dulce Leão em 10 janeiro 2010 às 13:23
Carlos querido,

Adorei o seu post. Também adoro arqutetura árabe. Basta visitar Toledo, na Espanha, para ficar maravilhada. Certamente o despeito do ocidente, com os "árabes", foi preponderante na época das cruzadas. Cultura riquíssima, e refinada. Bárbaros...somos nós.

Um abraço

Dulce.

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