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É possível que um dia possamos nos compadecer daquele cachorrinho faminto e sarnento que insiste em nos acompanhar e levá-lo para casa, até porque existe um apelo muito grande da mídia e da população em geral sobre o assunto.

Interessante que seres humanos perambulam pelas ruas das grandes e até pequenas cidades e mesmo dotados do poder da comunicação, simplesmente não são notados, porque o que tem a dizer agride ao ouvido refinado e a mera presença provoca náuseas nos atuais afortunados.

Na verdade quando um se aproxima, a primeira atitude da madame é segurar a bolsa com as duas mãos e virar a cara. Tudo bem. Poderia mesmo haver um furto naquela ocasião, muito embora o visual da figura maltrapilha não indique que esteja se dando bem como ladrão e o mais provável é que queria pedir apenas uma moeda para comprar o primeiro e, talvez único, pão daquele dia.

E quem são eles? Seriam deficientes mentais? Pessoas sem perspectivas na vida e acomodadas? Crianças abandonadas pelos pais? Com certeza são motivos para que muitos encarem os "obstáculos" das calçadas e praças. Porém, no meio desse público, considerado um verdadeiro lixo pela sociedade moderna, estão profissionais que perderam seus empregos com o passar dos anos, se tornaram um fardo na casa de familiares e “amigos”, de lá foram expulsos, ou não suportaram as humilhações e só contaram com outra opção que não ofendesse ao próximo além dessa, que seria o suicídio.

Entretanto, apesar dos pesares, eles são dotados de Fé em Deus e aceitaram a cruz que carregarão pelo resto dos seus dias, despejando os dejetos ao relento, enquanto xingados, censurados e até queimados vivos, de maneira covarde, preconceituosa e, acima de tudo, injusta, por absoluta falta de um simples banheiro químico que lhes oferecêssemos e atendesse suas necessidades.

Alguém é capaz de levar um bichinho desses pra casa? E um morador de rua? Deixando a hipocrisia de lado, confesso que ainda não pensei em uma adoção desse tipo, mas, nada me garante que um dia não venha a ser julgado por isso, inclusive pagando pela mesma moeda.

A rigor, talvez não precisássemos adotar o cachorrinho ou o sujeito que anda com a mudança nas costas. Quem sabe deixá-lo repousar sob a marquise do nosso portão, pelo lado de fora, além de atirar-lhe alguma sobra do jantar por cima do muro, já não amenizasse nosso pecado por omissão?

E, se ao invés disso, colocássemos a comida numa embalagem descartável, mais uma garrafa pet de água limpa e gelada e levássemos até essa pessoa através da grade ou uma brecha qualquer, enquanto oferecêssemos o pé do portão para que ela estendesse o papelão e passasse a noite alimentada e sem o temor de ser atropelada pelo carro que vem de dentro?

Certamente Deus se alegraria ao constatar a mudança no animal que somos.

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