Hoje recebo o meu salário, o meu exíguo salário com o qual eu tento não ser defenestrado da classe média. E saio a ver as vitrines em busca de um presente que reafirme o meu amor por ti. É que hoje, minha querida, é o dia de teu aniversário. Mas... está tudo tão caro, tão inacessível a meu bolso, tão... E não dá mesmo para comprar no crediário, os juros estão escorchantes, proibitivos.
Sabes de uma coisa? Presentes são futilidades! Muitas vezes, são eles dados em total desacordo com as personalidades de quem os dá e os recebe. Noutras, apenas para preencher uma falsa necessidade que a sociedade de consumo criou. Então, ao invés de te oferecer um mimo cujo desfrute logo acaba, eis-me a te presentear com dinheiro. Sim, com dinheiro que é o modo de não me equivocar jamais.
O fato é que outra vez aniversarias, minha cara. Para a minha indizível felicidade (pois o que é a felicidade senão a soma desses momentos em que te procuro?). Ah, acima do bem e do mal, está o teu regaço amigo, onde encontro proteção contra a dissipação e a esbórnia. Sem que eu, na grande conta em que te tenho, haja um instante sequer chegado a teus limites.
Em ti deposito todas as minhas expectativas. Porque sei que serão depois confirmadas no saldo de nossa amizade. E tudo que te modifica me interessa. És leve, gentil, intimorata. És frasco - ouso fazer a presente comparação - a encerrar o mais ambicionado dos extratos. E, ainda, louvo a tua lealdade e correção, ó aplicada companheira destes tempos difíceis!
Feliz aniversário, minha caderneta de poupança.
PGCS

Marcadores: crônica, humor


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