Gaetano Donizetti era um compositor a toda velocidade. Óperas fluiam uma atrás da outra: constam em seu currículo mais de 70. O estílo sempre se mantinha, mas, quando o assunto era belcanto, Donizetti dominava, era imbatível. Anna Bolena é uma das três óperas que ele fez sobre as rainhas Tudor. Sua última apresentação se dera em 1881, em Livorno. Ficou esquecida, mofando nos arquivos, até que aparece uma grega ou americana talentosa, nunca sei a nacionalidade dela. Maria Callas desenterra Anna Bolena, juntamente com Giulietta Simionatto e a direção de Luchino Visconti faz um espetáculo memorável no Scala, em 1957. Depois dela, os grandes sopranos perceberam o potencial dramático da ópera, quem não quer ser aplaudido pela cena final. Leyla Gencer, Beverly Sills, Renata Scotto, Joan Sutherland e Dimitra Theodossiou interpretaram a complexa personagem, no decorrer das décadas.
Existem duas versões comerciais disponíveis em vídeo. A mais antiga foi gravada no Canadá, em 1984, com Joan Sutherland, James Morris e Judith Forst. Regência de Richard Bonynge e Ben Heppner em início de carreira, fazendo o papel de Hervey.
Retrato de sua época, essa montagem é tradição ao quadrado. Figurinos carregados, pouca ou quase nenhuma interpretação cênica. Todo mundo paradinho, cantando bonito. Tudo no seu devido lugar, a luz é uma penumbra constante. A direção se limita a contar uma história, transcreve o que está no libreto com fidelidade e nada mais. O destaque fica para as vozes, todos os solistas são de gabarito. Sutherland tem agilidade de um grande soprano coloratura, seu timbre agrada, entretanto sua dicção deixa a desejar. James Moris é barítono legítimo, não desses que existem atualmente, tem aqueles graves cheios e volumosos caracteríticos dos cantores do passado. Judith Fosrt tem voz densa, enorme. A regência do maridão (da Sutherland) Boninge é clássica, sem inovações. A imagem e o som analógicos deixam a desejar aos adeptos do blu-ray.
A Anna Bolena de Bergamo, gravação realizada em 2006, é o oposto da canadense. Sua direção é impecável, não transcreve apenas o libreto e sim faz uma versão teatral. Provoca o espectador, chama à reflexão. O cenário possuí arquibancadas ao fundo, sempre presentes com membros do coro. A leitura do diretor é clara, a vida dos membros da realeza é pública, não existe espaço privado. Os solistas não têm o mesmo nível vocal da versão canadense: em contrapartida, atuam, dão realismo aos persongens. A luz faz parte do cenário, os figurinos são leves e a gravação digital deixa tudo nos conformes.
Ouvi cobras e lagartos de Dimitra Theodossiou, mas o soprano se sustenta no belcanto. Sua voz consegue a agilidade nas difíceis coloraturas, despeja potência e técnica, mas chega desgastada no final. Os demais solistas se garantem, todos cantam e atuam , isso é ópera moderna.
As duas versões mostram a evolução da ópera. De montagem tradicional a leitura moderna. De encenação básica a uma visão, uma forma de contar a história, uma provocação. Todos os aspectos referentes a produção evoluíram. Cenários, figurinos, luz, cores, movimentação de coro, gravação, direção de cenas e etc. Ganhou a ópera, que avançou no tempo, se modernizou buscando renovar seu público. Gravações do século XXI são pensadas para o vídeo. Mas nem tudo é perfeito, as vozes de outrora eram superiores às atuais.

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