Leio no ‘Outro Lado da Notícia’ (www.outroladodanoticia.wordpress.com) que para o dia 26 de janeiro, seis dias após a tomada de posse do novo presidente norte-americano, está marcado o julgamento do canadense Omar Kahdr, detido no Afeganistão com apenas 15 anos.
Segundo se pôde apurar pela mídia nacional, este garoto hoje com 21 anos (seis em Guantánamo) foi preso e acusado de terrorismo por ter atirado uma granada que feriu um ‘mariner’ americano e o deixou cego de um dos olhos. Na prisão efetuada logo após o combate, o garoto também ficou cego de uma das vistas. Lei de Talião. War is War.
Omar Kahdr é filho de muçulmanos e tem origem egípcia. Um de seus irmãos está paraplégico por ter sido atingido por foguetes americanos em uma escola no Afeganistão, onde o pai, suposto líder do Taleban, foi morto.
Não entrarei no mérito se o rapaz atirou ou não a granada que feriu o soldado americano nem no fato dele ser ou não terrorista. Também não questionarei sua pouca idade ou mesmo o fato dele, talvez, nem mesmo ser afegão.
Vou me apegar sim no fato dele ser muçulmano e ter ido lutar em um país igualmente muçulmano e que, em seu ponto de vista, estava sendo invadido por infiéis. Para chegar ao ponto que entendo ser o principal neste caso, vou retornar à idade média, onde grupos de cristãos foram levados a invadir o oriente para salvar a cidade santa, Jerusalém. Foram hordas e mais hordas de europeus que mataram e saquearam toda a região em busca de uma ‘guerra santa’. E foram escorraçados por um líder islâmico, Saladino, em uma Jihad ou guerra santa.
Teriam sido os europeus terroristas? Ou será que os Árabes o foram quando vieram de diferentes regiões e lutaram para defender seus irmãos?
Ao longo da história vemos pessoas que se deslocaram de um lado para outro e defenderam guerras que não eram suas. Apenas para ilustrar cito o caso de Giuseppe Garibaldi em sua vinda da Itália para cá e da ida de sua amada para lá, onde ambos são heróis em dois mundos. Na época foram chamados de terroristas. Hoje são heróis que lutaram pelos seus povos.
Em casos mais recentes temos os Partisans. O termo ficou conhecido durante a Segunda Guerra Mundial para se referir a determinados movimentos de resistência à dominação alemã, e também àqueles que lutaram durante o pós-guerra contra o regime comunista da União Soviética no leste europeu.
No caso da Grande Guerra qual era a função destes soldados sem exército regular e devidamente apoiados pelas nações contrárias a Hitler? Explodir linhas férreas, atacar comboios militares, notadamente os de suprimentos, de forma a transformar as ações dos exércitos regulares um caos e reduzir sua capacidade de combate.
Mais recentemente, no Vietnan, onde os americanos mataram milhões e perderam a guerra, muitos praticaram atentados contra as tropas do ‘Tio Sam’. E são heróis.
Em um período mais recente, quando a ex-União Soviética invadiu o Afeganistão, os americanos deram todo apoio a um grupo muçulmano local: os Talibãs. Estes foram armados e treinados para enfrentarem o poderio soviético. E fizeram isso de forma tão bem executado ao ponto dos invasores desistirem de dominar a região. E foram heróis por terem enfrentado os estranhos.
Agora, nos tempos atuais, os EUA querem julgar por terrorismo um garoto de apenas quinze anos pelo fato dele ter feito o preconizado e apoiado pelos próprios EUA contra os Russos. Querem dar responsabilidade a um garoto, que eles mesmos criaram e forjaram na luta por aquele espaço, pela sua incompetência de se protegerem.
O garoto não foi preso nos Estados Unidos da América. Não estava jogando granadas nos transeuntes do Central Park em New York. Ele estava em sua casa. Em seu país. Se não de nascimento, de adoção e com o qual tem afinidades religiosas. Estava apenas defendendo seu quintal. Ele foi apenas o resultado de anos de jogo entre as potências mundiais, onde as populações residentes nada significam. É a criatura que se voltou contra o criador.
Se ele for condenado por lutar em seu próprio território, teremos de rever a história. E partir daí, ninguém mais poderá lutar pelo seu país contra um invasor. Garibaldi e Anita, os Partisans e outros serão bandidos. Talvez seja realmente esta a mensagem mais forte passada pela prisão desta criança.
Não sou a favor do terrorismo. Se o caso tivesse se dado dentro dos Estados Unidos, estes teriam todo o direito de prender quem quer que fosse. Mas atravessar o mundo para prender crianças que lutam pelo seu quintal, apenas os torna tão maus quanto aqueles que entraram em seu território e explodiram seus símbolos de luxúria e capitalismo.

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