por Laura Macedo

Aracy Cortes (Zilda de Carvalho Espíndola, 1904/1985), durante mais de vinte anos reinou e foi cortejada como uma das maiores estrelas do Teatro de Revista, atuando nos palcos da Praça Tiradentes, que na época reunia o que havia de melhor no meio artístico.

Essa carioca, filha do chorão Carlos Espíndola e vizinha de Pixinguinha no bairro do Catumbi, logo migrou para os espetáculos circenses, atuando como cantora e dançarina de maxixes.

Possuidora de uma voz aguda, cheia de musicalidade, porém de extensão reduzida, sabia tirar partido da sua sensualidade e encanto pessoal para reinar a princípio no picadeiro e em seqüência no teatro.








Sua estréia oficial aconteceu no Teatro Recreio, na última noite de 1921, na revista “Nós Pelas Costas”, de J. Praxedes (Rafael Gaspar da Silva), cuja temática era a “duplicidade de opinião que as pessoas costumam manifestar à frente e por trás das outras”.

Foi nessa época que surgiu o pseudônimo Aracy Cortes , atribuído por Mário Magalhães, crítico teatral do jornal “A Noite”. É dele também o rótulo de “figurinha brasileira petulante”.









Mulher muito à frente de seu tempo, Aracy Cortes desde sempre desafiava preconceitos, como o de posar praticamente nua (foto ao lado) “vestida” apenas com o violão (1924), interpretando um dos seus maiores sucessos, a canção “Gemer Num Violão”.

Ouçam essa canção na voz da própria Aracy.


 







A trajetória do teatro de revista brasileiro é rica e vastíssima. Muito se produziu entre “As Surpresas do Sr. José da Piedade (1859) e “Tem Pimenta na Abertura” (1985).

Segundo Salvyano Cavalcanti de Paiva, a despedida épica do gênero deu-se em 1961, com “Diabo que a Carregue Lá Pra Casa!”, de Walter Pinto e Roberto Ruiz.

Seu apogeu concentrou-se no final dos anos 20, fase em que se cristalizou um “equilíbrio perfeito entre a graça das cortinas cômicas e a exuberância dos quadros musicais”.(Jairo Severiano).

Concorreram para isso a atuação de bons cômicos interpretando textos espirituosos, o aproveitamento maciço do que havia de melhor na música popular e o fascínio exercido sobre o público por um grupo de talentosas, belas e sensuais atrizes, entre elas, Margarida Max, Antônia Denegri, Lia Binatti, Otília Amorim e Aracy Cortes.




Desde sua estreia em 1921/1922, como citamos acima, até 1961, quando encenou “É por aqui Sinhô”, no Teatro Zaqui Jorge, Aracy Cortes foi protagonista de inúmeras revistas de sucesso.


VALE DESTACAR ALGUMAS DESSAS REVISTAS:


“Sonho de Ópio” (1923), de Oscar Lopes e Duque – Teatro São José.


Aracy Cortes fazia sua segunda apresentação em revista, cantando o samba “Ai, Madame”, do maestro Paulino Sacramento, e era orientada artisticamente pelo multifacetário Luis Peixoto, sendo bastante aplaudida.

A revista ainda contava com Francisco Alves interpretando um almofadinha e cantando algumas canções, e com a nossa querida Henriqueta Brieba, entre outras, destacando-se na parte cômica.
Segundo Salvyano, a revista emplacou 120 récitas, saindo de cartaz em janeiro de1924.






“Microlândia” (1928), de Marques Porto, Luís Peixoto e Alfredo de Carvalho – Teatro Fênix / Palace-Théâtre.

Esta revista, com músicas do maestro Serafim Rada e J.B. da Silva, o Sinhô - que vivia sua fase mais criativa, no auge do sucesso, com sambas seus e dos outros -, teve o mérito de lançar “Jura”, do nosso Rei do Samba, bisado/trisado todas as noites por Aracy Cortes.

Aqui vocês podem ouvir infinitas vezes.

 











O nome de Sinhô era poderoso para assegurar público ao teatro de revista.



Segundo J. R. Tinhorão, entre 1919 e 1930 - ano da morte do compositor – Sinhô deu sua contribuição em 42 revistas, às vezes com uma composição só, mas o bastante para ter seu nome destacado nos créditos da revista, tal o seu prestígio.





“Miss Brasil” (1928/1929), de Marques Porto e Luis Peixoto – Teatro Recreio.


Revista de maior sucesso no período citado. Um dos motivos de tanto sucesso foi o lançamento do samba-canção, paradigma do gênero, “Linda Flor” (“Ai, Ioiô”), de Henrique Vogeler, Luís Peixoto e Marques Porto, interpretado magistralmente por Aracy Cortes, no auge dos seus 24 anos.

Também foi lançado no espetáculo o samba “Medida do Senhor do Bonfim” (Sinhô). Nessa revista, Aracy repetia o famoso "Jura” e, com o cômico Palitos, encenava um requebrado maxixe que levava a platéia ao delírio.

Completavam o elenco Henriqueta Brieba (a baixinha gigante estava em todas), Mesquitinha (Olímpio Bastos), Lili Brenier (irmã de Oscarito), Vicente Celestino, entre outros.

Se existisse um túnel do tempo, com certeza essa revista seria uma das que gostaria de assistir.






Aracy Cortes interpretando "Linda Flor".

 









“Laranja Da China” (1929), de Olegário Mariano – Teatro Recreio.

Foi uma das primeiras a caricaturar Getúlio Vargas, ex-ministro da Fazenda e então governador do Rio Grande do Sul, que começava a se projetar nacionalmente, ao se opor a Júlio Prestes na sucessão presidencial.
Rica em textos e canções, tinha Vicente Celestino cantando a valsa “Hula”, de Olegário e Joubert de Carvalho, dançada pelos bailarinos Yati e Yara.
Aracy Cortes, em excelentes números musicais, como os sambas “A polícia já foi lá em casa”, de Olegário e Júlio Cristóbal, “Vamos deixar de intimidade”, “Vou a Penha” e o fox-trot “Febre Azul”, de Ary Barroso.






 





 



 


"A polícia já foi lá em casa", com Aracy Cortes.

"Vamos deixar de intimidade", com Mário Reis.

"Vou a Penha", com Mário Reis.

Salvyano, em “Viva o Rebolado”, só dá créditos autorais por "Febre Azul" a Ary Barroso. Já a Coleção MPB Compositores, nº 5, e Roberto Ruiz, em “Aracy Cortes, linda flor”, citando José Ramos Tinhorão, aponta Luís Peixoto como parceiro de Ary Barroso, ressaltando ser essa música a obra inaugural da dupla.

Esse número musical causou uma certa polêmica, pois Aracy e as girls borrifavam a platéia com uma água de colônia azul. “Era nas primeiras filas onde costumavam sentar-se, exatamente, os homens casados, que iam ao Recreio para deliciarem-se com a visão das pernas das coristas e com a sugestão do rebolado de Aracy Cortes” (Tinhorão). Como geralmente os maridos iam aos espetáculos “escondidos” das esposas, é óbvio que não podiam chegar em casa com cheiro de perfume feminino.

Resultado: o quadro do fox-trot “Febre Azul” teve que ser retirado de cena.



O sucesso de Aracy Cortes nas revistas citadas acima e nas não citadas (tive que colocar o pé no freio) correu paralelo ao sucesso da Aracy cantora. Sua voz tinha o “toque de Midas”. Do maestro Paulino Sacramento ao consagrado Ary Barroso, todos a cortejavam. E ela, rainha que era, aceitava a corte. Gravou inúmeros discos. Foi a primeira atriz de revista a excursionar pela Europa, levada por Jardel Jércolis, em 1933.

Por falar em rainha, em 1935 foi homenageada no Teatro Recreio com a placa de “Rainha do Teatro, e nesse mesmo ano, em concurso promovido pelo jornal Gazeta de Notícias, eleita a melhor artista do rádio, com 35.547 votos. Em segundo lugar Mário Reis (224.843 votos) e em décimo...Carmen Miranda, com 7.979 votos.

Nada mau para quem tinha o rádio como atividade secundária. Estrelíssima do teatro de revista, só se colocava diante dos microfones entre uma temporada e outra na praça Tiradentes.

Foi em 1953 que gravou, pela Odeon, seus últimos três discos de 78 rpm. No final da década de 1950, afastou-se do meio artístico.



Em 1965, o poeta e compositor Hermínio Belo de Carvalho promoveu sua volta ao palco, no show Rosa de Ouro, no Teatro Jovem, do Rio de Janeiro, no qual a Rainha se apresentou ao lado de Paulinho da Viola e Clementina de Jesus, entre outros. Deste espetáculo resultaram dois LPs lançados pela Odeon, Rosa de Ouro 1 (1965) e Rosa de Ouro 2 (1967).

Em 1984 (um ano antes de sua morte), em comemoração aos seus 80 anos, foi lançado o LP Aracy Cortes, uma coletânea com depoimentos da cantora, e o livro “Aracy Cortes, linda flor”, de autoria de Roberto Ruiz, ambos pela Funarte.


Conhecer a história de Aracy Cortes é conhecer também a história do Teatro de Revista Brasileiro e da Música Popular Brasileira.

Aracy, em ambas as atividades, deixou fluir seu charme, sua irresistível comunicação com o público e o domínio de cena de uma “Senhora Rainha”. (Música de Heitor Villa-Lobos / Letra de Hermínio Bello de Carvalho).

“Nós viemos colher
E depois ofertar
Uma rosa de ouro a você...








ARACY CORTES...

LINDA FLOR...

ETERNA...


SEMPRE VIÇOSA NA ALMA DE QUEM ADMIRA E RECONHECE SUA IMPORTÂNCIA PARA A CULTURA BRASILEIRA.





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FONTES:

- Viva o Rebolado – vida e morte do teatro de revista brasileiro, de Salvyano Cavalcanti de Paiva. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1991.

- Uma História da Música Popular Brasileira – das origens à modernidade, de Jairo Severiano. – São Paulo: Ed. 34, 2008.

- Aracy Cortes, Linda Flor, de Roberto Ruiz. – Rio de Janeiro, FUNARTE / INM / Divisão de Música Popular, 1984.

- História do Samba . Fascículos publicados pela Ed. Globo, 1998.

- MPB Compositores, nº 5. Fascículos publicados pela Ed. Globo, 1966.

- Dicionário Houaiss Ilustrado (da) Música Popular Brasileira. Criação e supervisão geral de Ricardo Cravo Albin. Rio de Janeiro: Paracatu, 2006.

- A Canção no Tempo – 85 anos de músicas brasileiras. Vol: 1: 1901- 1957, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. – São Paulo: Ed. 34, 1997.

- Timoneiro – perfil biográfico de Hermínio Bello de Carvalho, de Alexandre Pavan. – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2006.

- Revistas on-line: “O Malho” e “Para Todos”.

- Sites:Cifrantiga, Chiadofone e Instituto Moreira Salles.

- Garimpagem de fotos: Helô e Laura.

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Comentário de Teatro de Revista em 24 junho 2009 às 23:49
Cafu, Helô e Laura,
Quem doou o terreno para a construção do Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá, foi Fred Figner, dono da Casa Edison. Ganhou muito dinheiro com a Aracy e tantos outros. Na época Jacarepaguá era um mato só e mais longe que Sapopemba (antigo nome do bairro de Marechal Hermes e sinônimo de lonjura)! Hoje o terreno do Retiro vale uma fortuna.
Os portões do Recreio não poderiam estar em lugar melhor. Mas, aprentemente, do original acho que restam apenas as colunas e alguns detalhes.
Há muito tempo não vou lá. As Festas Juninas do Retiro dos Artistas ainda são as mais concorridas de Jacarepaguá. O clima lá é de animação nessa época.
Não sei quantos artistas moram lá atualmente, mas acho que não são muitos. De qualquer forma, vale uma visita.
beijão
Henrique Marques Porto

PS. Desculpem a inatividade hoje. Faleceu um parente querido em São Paulo e estou meio pra baixo.

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