Ary Barroso e Luiz Peixoto: Encontros Afinados

por Laura Macedo

Neste post vamos dá uma "espiada" pelo "Buraco da Fechadura" e ficar conhecendo como ocorreram alguns dos "Encontros" marcantes da dupla Luiz Peixoto e Ary Barroso.

LUIZ PEIXOTO: - Eu estava no Teatro Recreio, quando entrou um rapaz magro, malvestido e querendo que eu ouvisse alguns de seus sambas.

Luiz confessou que, de início, não fez fé naquele menino franzino de aparência modesta que queria uma oportunidade para trabalhar comigo. Mesmo assim, deixou que ele se sentasse ao piano e pediu que executasse algumas de suas composições.

Ary andava aí pela casa dos vinte cinco anos, com seis de sofrimento e falta de grana no Rio de Janeiro, tocando em intervalos de filmes. O compositor mineiro vinha fazendo seus “sambinhas” e deixava as partituras com o maestro David Senzen, na Casa Wehrs, que as analisava e decidia sobre a publicação.

Luiz estava às voltas com a direção de "Laranja da China”, de Olegário Mariano, e procurava músicas para o repertório da revista. A Casa Carlos Wehrs era roteiro obrigatório de todo aquele que tivesse em mente, nos anos 20, montar um espetáculo musical. Ary, de volta de uma viagem a Poços de Caldas, recebe a notícia do maestro:

- Ary, tem gente interessada em alguns de seus trabalhos.
- Quem?
- Luiz Peixoto, o homem do teatro. Ele e Olegário tiveram aqui há poucos dias e devem estar agora no Teatro Recreio ensaiando a peça.


Ary não perdeu tempo. Correu à Praça Tiradentes. Apresentou-se e logo depois estava sentado ao piano executando alguns temas que não eram lá seu forte – o foxtrote – para algumas cenas da revista. Luiz sentiu que podia apostar no compositor de Ubá:

- Amanhã você pode me trazer onze músicas para uma revista?
- Onze?
- Se você me trouxer onze foxes até às 13:00h, aqui no teatro, para ensaio...


Ary não esperou o final da frase. Eram cinco da tarde e para não deixar escapar a oportunidade, foi para a pensão que residia e varou a noite fazendo o dever de casa. Os hóspedes reclamando e ele batucando no piano como se já estivesse na casa da sogra. Assim nasceram as melodias “Febre azul”, “Carnaval”, “Segura a fazenda” e outras, que fizeram com que Ary vivesse algum tempo vendendo suas músicas para o teatro.

CARICATURA DE ARY BARROSO FEITA PELO AMIGO E PARCEIRO LUIZ PEIXOTO


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Em 1930, às voltas com a falta de dinheiro e influenciado por Eduardo Souto, o compositor mineiro resolveu participar e ganhou o primeiro lugar no concurso de música de carnaval promovido pela Casa Edson com a marchinha “Dá nela”, logo incluída por Marques Porto e Luiz no repertório da peça “A melhor de três”, que terminaria indo à cena com o título da música de Ary, que criticava as mulheres linguarudas.

"Dá nela" (Ary Barroso) # Francisco Alves. Disco Odeon (10.558-A) / Matriz (3258). Lançamento (janeiro/1930).


 


Em 1935, trabalhou na Rádio Kosmos a convite de Peixoto num programa de variedades, chamado “Hora H”, que alcançou grande audiência, sendo logo depois lançado em tablóide com o mesmo nome. Os dois não só escreviam como também apresentavam o programa, interpretando os tipos que eles mesmos criavam e onde predominavam os quadros humorísticos:

- Imagine a senhora, que desgraça!
A minha sogra esmagada debaixo de minha barata, feita em pedaços.
- E era velha?
- Não. Tinha comprado há dois meses.


Aproveitando-se da invasão da Etiópia pelo exército italiano, Luiz interpretava Selassié, enquanto Ary fazia as vezes de um malandro pernóstico, num quadro que contava com a participação de Gagliano Neto no papel e Mussolini.

De outra feita saíram-se com esta:

- Que diabos! Um churrasco e uma compota de goiabada por 22 mil-réis! Vocês deveriam ter um pouco de consideração, ao menos, com os colegas.
- Por que? O senhor também é dono de restaurante?
- Não. Eu também sou ladrão.



Apesar do sucesso do programa, Ary estava impaciente, querendo voltar para o Rio, não via a hora de rever a Cidade Maravilhosa: “Meu contrato terminará a 3 de março. Não renovarei, se meu amigo me arranjar outro aí, na Transmissora. Longe do Rio sou um homem absolutamente fodido. As saudades há muito me amargam. Preciso de mar...mar...mar...”
Renato Murce acaba atendendo o apelo do reclamante.


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Em 1940, lá estava Ary figurando com três músicas finalistas de um concurso que recebeu o título de “Noite da Música Popular”, mas que na verdade, tratava-se de músicas de carnaval. Além de “Upa! Upa! e "Iaiá boneca”, a “Aquarela do Brasil.

Na comissão julgadora, escolhida pelos próprios participantes, entre os vinte nomes apresentados, figuravam como jurados: Villa-Lobos, Pixinguinha, Eduardo Brown, Caribé da Rocha e...Luiz Peixoto. Mesmo tendo declarado solenemente, conforme nota divulgada pelo DIP, o promotor do concurso, “submeter-se às decisões da mesma comissão, quaisquer que elas sejam...”, Ary ficou fulo e esbravejou ao ver sua “Aquarela” eliminada sob a alegação de que era inadequada, pelo caráter cívico e retumbante, como composição carnavalesca.

Há quem afirme, a boca pequena, que “Aquarela do Brasil” teve a colaboração de Luiz, não só pelas redundâncias poéticas existentes na letra, tais como “Brasil brasileiro...”, “coqueiro que dá coco”, “rei congo do congado”, tão próprias do trovador ao cantar toda a canção do seu amor, também pelo fato de, como membro do júri, não poder figurar como co-autor da música.

Luiz jamais se pronunciou a respeito. Alcyr Pires Vermelho conta que, pouco antes de morrer, foi curto e grosso e indagou se Luiz, de fato, tinha alguma coisa a ver com a letra de “Aquarela do Brasil”, mas Luiz, “apesar de um pouco vacilante, desviou a conversa”.


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O número de composições da dupla Ary-Peixoto perdeu-se no meio das partituras escritas para o teatro musicado que não chegaram aos discos ou às rádios. Algumas ficaram para sempre.

O samba-canção composto em 1931 e batizado de “Bahia” deveria fazer parte da peça de Luiz Peixoto e Freire Jr., com uma letra que principiava com os seguintes versos:

Bahia
Cheguei hoje da Bahia
Trouxe uma figa de Guiné...


Luiz achou o tema muito batido e escreveu outra letra:

Maria, o teu nome principia
Na palma da minha mão
e cabe bem direitinho
dentro do meu coração
Maria!

“Maria” (Ary Barroso/Luiz Peixoto) # Sílvio Caldas. Disco Victor (33.594-A). Lançamento (dezembro/1932).


 

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Segundo Ary, “Na batucada da vida”, samba-canção, gravação original de Carmen Miranda e Os Diabos do Céu, com arranjo de Pixinguinha, a inspiração lhe chegara de repente, certa madrugada, num banco na Cinelândia, onde trocava confidências com Luiz.

- Estou sentindo falta do piano – reclamou Ary.
- Então, vamos até o Alhambra – propôs Luiz.
- Às duas da madrugada?
- O que é que tem? O vigia do teatro é meu amigo – sentenciou Luiz.


Assim nascia aquela que é considerada uma das melhores composições da dupla, na qual, mais uma vez, Luiz surpreende, quando consideramos a superficialidade que caracteriza as composições da época no tratamento temas sociais.

Na batucada da vida” (Ary Barroso/Luiz Peixoto) # Dircinha Batista. Disco Odeon (13.031-B) / Matriz (8685). Gravação (14/04/1950) / Lançamento (agosto/1950).


 


Ao longo da vida essa dupla fantástica produziu pérolas raras e belas do nosso cancioneiro, até hoje, reverenciadas pelas novas gerações.


Os “Encontros Afinados" rolaram até o ano de 1964. Difícil quantificá-los...


Segundo os autores do livro (vide fontes abaixo), “o ano de 1964 mal começara. Ary fora internado em estado grave no Instituto Cirúrgico Gabriel Lucena e as visitas estavam proibidas. Luiz achou que a proibição não era para ele e resolveu visitar o velho parceiro.

Antes, porém, passou por uma sapataria e comprou sapatos novos. Ao chegar ao hospital, precedido pelo ranger incômodo dos sapatos, foi recebido por Ivone, fiel companheira, que o alertou sobre o estado do marido.

Luiz entrou no quarto, pé ante pé, com todo cuidado para não incomodar o doente: ‘Assim não é possível , seu Luiz! Como é que você visita um doente com um sapato desses?’

No hospital, lembra Pedro Bloch, o velho Ary ainda nutria esperanças de que Luiz viesse fazer os versos de uma canção para a comemoração do IV Centenário do Rio e pedia: ‘ Luiz, vivo pensando na música do IV Centenário. Não demora, Luiz. Escreve logo’”.












Mas não deu... Ary Barroso apesar de ser mais novo que Luiz Peixoto 23 anos, partiu para o “andar de cima”, dia 09 de fevereiro de 1964, faltando, praticamente, um mês para o fatídico golpe militar de 64.











O próximo “Encontro” dos dois, agora, no “andar de cima”, se deu com a partida de Luiz Peixoto, aos 84 anos.


Imaginem o que já rolou, desde 1973, de “Encontros” apoteóticos, no "andar de cima", entre essa dupla, sem sombra de dúvidas, uma das mais expressivas do universo cultural brasileiro.


Pena que os "Encontros Afinados, no 'andar de cima', não dá para espiar... Mas dá para imaginar...







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Fontes:

- Luiz Peixoto pelo Buraco da Fechadura, de Lysias Enio e Luis Fernando Vieira. - Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2002.

Jornal "O Pasquim" - Ano VI, nº 235, Rio de Janeiro: 1º a 7 de janeiro de 1974.

- Áudios: Acervo do Instituto Moreira Salles.

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Comentário de Henrique Marques Porto em 5 outubro 2009 às 19:02
Laura,
Ótimo lembrar esses dois craques. Mas acho que Luiz Peixoto, digamos, romanceou um pouco o primeiro encontro com Ary quando diz que estava no Recreio e "entrou um rapaz magro, malvestido e querendo que eu ouvisse alguns de seus sambas".
Ary já era bem conhecido como músico. Era pobre mas não andava "malvestido" porque tocava em orquestra e ganhava dinheiro pelo menos para se vestir adequadamente. O próprio Ary conta assim como foi o início de sua carreira:

"Estreei tocando em cinema, na sala de projeção no Cinema Íris. Depois, fiz parte da orquestra do Sebastião, tocando na sala de espera do antigo Teatro Carlos Gomes, onde a Companhia Alda Garrido levava com retumbante sucesso a burleta de Freire Júnior "Luar de Paquetá". Daí, passei-me para a orquestra do J. Thomaz, na sala de espera do Rialto. Comecei, então, a ser conhecido como "pianista-jazz". Do Rialto, transferimo-nos para o cinema Central, do grande empresário Pinfilde, que nos dava fita e palco. Foi quando meu ordenado cresceu: vinte e oito mil réis por dia. Fazíamos bailes, ganhando eu dez mil réis por hora! (...) Depois galguei o cimo de minha carreira integrando a famosa "Jazz-band Sul-Americana" de Romeu Silva. Era a orquestra de alta roda. Tocávamos nos principais clubes da cidade: Country Club, Fluminense, América, C.R. Botafogo, Jockey Club, Tijuca, Guanabara e outros. (...)
Fui contratado pelo Teatro Recreio, como compositor e maestro ensaiador. Foi quando conheci Marques Porto, Luiz Peixoto, Olegário Mariano, Gilberto de Andrade, José do Patrocínio Filho, Carlos Bittencourt, dando inicio à segunda fase de minha juventude. Estávamos por volta de 1928! (...)".
(Em http://www.arybarroso.com.br/sec_textos_list.php?language=pt_BR&id=14&id_type=2)

Liderando ao piano os conjuntos que tocavam nas entradas dos teatros Carlos Gomes e Rialto é claro que o Luiz Peixoto já conhecia o Ary Barroso. Contratado pelo Recreio (leia-se pelo empresário Antônio Neves, padrinho de casamento do Ary), como "compositor e maestro" aí sim ele conhece Luiz Peixoto e outros escritores. E se foi contratado como compositor não precisava pedir para ninguém ouvir seus sambas.
Ah, depoimentos...São fontes valiosas, mas para ajudar a vida dos pesquisadores humildes deviam ser tomados sob juramento! Em Bíblia abençoada pelo Papa, é claro. :)
beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Cafu em 6 outubro 2009 às 17:26


O que dizer dessa dupla? É LUXO SÓ!
Bonito trabalho.
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 6 outubro 2009 às 19:22
Henrique,
Assino embaixo. Realmente seria maravilhoso, para nós pesquisadores, que os "famosos depoimentos" fossem tomados sob juramento.
Não faz muito tempo que começamos nossas pesquisas na área do Teatro de Revista e o que já constatamos de informação contraditória...
A sorte do nosso grupo é contar com um certo "Henriquecendo / Henriquesclarecendo". :)))))
Valeu!
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 6 outubro 2009 às 19:57
Cafu,
Vou continuar dizendo que você é a maior garimpeira de vídeos que conheço. Aliás não só de vídeos, mas, principalmente, de amizades...
Pra mim você "É Luxo Só!"
Beijos.
Comentário de Henrique Marques Porto em 6 outubro 2009 às 23:02
Laura,
O problema dos depoimentos para a posteridade quase sempre está em quem toma os depoimentos e faz as perguntas. Quem está sendo entrevistado geralmente puxa a brasa para a própria sardinha, com raras exceções. Brieba foi uma, pela humildade e sinceridade transparente de suas afirmações.
Os depoimentos do acervo do MIS são mais confiáveis por causa disso. O MIS chamava dois, três, quatro entrevistadores, todos conhecedores da biografia do entrevistado e mais capazes de fazer as perguntas certas e até de questionar algumas respostas.
As informações disponíveis são poucas e, ainda por cima, contraditórias. Pesquisador sofre com isso, mas é meio masoquista. É precisamente nesse "sofrimento" que está a graça da coisa!
beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Helô em 7 outubro 2009 às 14:25
Mais um post "laureado"! Parabéns!
:)
Laurinha, Cafu e Henrique

Desde o evento Rio 2016 tenho escutado exaustivamente a magnífica Aquarela do Brasil. Até em estilo japonês a composição do nosso querido Ary foi gravada. Aproveitando o post e a "suposta" contribuição de Luiz Peixoto na música, fui dar uma olhada no site oficial do compositor e encontrei o seguinte:

"Não foi por acaso que seu lançamento [Aquarela do Brasil] se deu na noite de 16 de junho de 1939, na revista “Entra na faixa”, pela voz de Aracy Cortes, então de volta ao Teatro Recreio. Nem foi por acaso que muitos viram na letra de Ary um possível “monstro” de Luís Peixoto (na linguagem musical, “monstro” é uma letra provisória feita para marcar sílabas, pontuação e acentuação da melodia). Mas não. Cada verso saiu mesmo da pena hiperbólica de Ary.
O fato é que “Aquarela do Brasil” só começou a acontecer 45 dias depois da estréia da revista, num espetáculo beneficente promovido pela primeira-dama Darcy Vargas. Espetáculo, diga-se, pretensamente sofisticado, diferente da revista: em lugar do Recreio, o Teatro Municipal; a platéia habitual da Praça Tiradentes substituída por grã-finos que podiam pagar caro pelo ingresso; o carioquíssimo título “Entra na faixa”, pelo afrancesado “Joujoux et Balangandans”; a descontraída Aracy Cortes, pelo solene barítono Cândido Botelho.
O samba ganharia elaborada orquestração do maestro Radamés Gnattali (com sua percussão de sopros discutivelmente pioneira) e logo seria gravado, nos dois lados de um disco de 78 rotações, pelo cantor mais popular da época: Francisco Alves. Sucesso. Tão grande que o Estado Novo realmente pegou carona em sua ode ao “Brasil brasileiro”. Do que Ary não teve a menor culpa. Como seu futuro político haveria de provar (seria eleito vereador pela antigetulista UDN), o seu Brasil não era aquele."
Beijos.
Comentário de Helô em 7 outubro 2009 às 14:33
Henrique, Cafu e Laura
Vale a pena conferir o especial sobre Ary apresentado pela Globo News. No primeiro filme, Tom Jobim canta e conta a história de "No Rancho Fundo".
Grande Ary!
Beijos.



Comentário de Henrique Marques Porto em 7 outubro 2009 às 17:31
Laura, Cafu e Helô
Dois comentários.
Um. O Ary Barroso tinha fama de ranheta -e era mesmo. Um dia ele cruzou com Carmem Miranda e cumprimentou: "-Como vai a minha parceira?" Carmem estranhou o tratamento, riu e disse que não era compositora. Ary retrucou: "-É, sim! Modificou tanto a minha música que é minha parceira..." Mas também era um dos sujeitos mais engraçados que esse país conheceu. Essa história com a palavra "filáucia" é uma delícia.
Outro. Como é bom ouvir a Elizeth Cardoso, ein...
beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Helô em 7 outubro 2009 às 19:58
Henrique
Isso aqui é pra você e pro Óscar :)
É do livro "Murais de Vinicius e outros perfis" (por Paulo Mendes Campos)
Beijos.

Comentário de Henrique Marques Porto em 7 outubro 2009 às 21:28
Helô,
Ary é um dos melhores presentes que os brasileiros já ganharam. Principalmente os flamenguistas. Lá pelos anos 40 Ary vinha criticando severamente os dirigentes vascaínos. Entenda-se, ele estava esculachando mesmo com os cartolas cruzmaltinos. Então foi marcado um Flamengo x Vasco no campo do rival em São Januário. Os vascaínos deram o troco proibindo a entrada de Ary no estádio na tentativa de impedir que ele narrasse o jogo. Nem por isso. Ary subiu num telhado vizinho e de lá, com auxílio de binóculos, narrou o jogo.
beijão
Henrique Marques Porto

Ary narrando um gol do Flamengo

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