Sinto como se agora o mundo dispusesse de uma grande régua para dividir seus dias. São três, os tipos de dias do mundo: Os menos trágicos, os mais ou menos trágicos e os muito trágicos.
A tendência difunde-se por todo o tecido da cultura, invade as ruas, os bairros grandes e pequenos, penetra nas casas, rumorejando por entre as persianas, as saídas de energia e de água, a tela plana da TV, a folha aberta do jornal impresso, esquecido sobre a mesa do café da manhã.
A calma do domingo não passa de um conjunto de caracteres na tela do computador. Um cão ladra sua revolta na rua silenciosa. Esta é somente a minha rua. O domingo está tisnado pela força de mais um dia muito trágico. No município de Santa Maria, Rio Grande do Sul, a noite de sábado, uma faísca, a iluminação e a alegria de jovens universitários vestiu-se de cinzas, mergulho no rescaldo de um incêndio descomunal, a morte arrebanhando aos bocados suas vítimas, pedindo escavadeira, pedindo guindaste, acordando funerários, atirando aos montes nas entradas dos hospitais todos os seus despojos.
O mundo, com sua poderosa régua, esquadrinhando a tragédia em grande medida. A morte, com seu cheiro a ferrugem, pedindo aos jornalistas que tragam seus quites-tragédia, repórteres esquecidos do tempo plano, a editarem a agonia em grande angular.
Régua poderosa, a espalhar em proporções respeitáveis o mapa das desgraças do mundo. A telenovela, a produção cinematográfica, a literatura, abrindo de par em par suas comportas para os atos de morte. Tragédia nossa de cada dia, cada família tem o seu quinhão. Fernanda Ellen, por que o nome ainda está nas manchetes?  
E esse menino fazendo ziguezague no meio do trânsito na Avenida Brasil? Não, não é cena de novela das oito. Esse menino era Rafael, dez anos, dois vs traçados na cara magra: Vítima da violência e do craque, que a morte, esta senhora trabalhadora, não poupa nem grandes nem pequenos.
Quantas Fernandas terão visto pela última vez, a faísca decisiva que deflagrou o incêndio na boate de Santa Maria?
“Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores”... É o murmurar de mães à espera, sem saber se se alegram ou se sofrem com o silêncio do telefone. Santa Maria, a cidade, em estado de sítio, contando suas vítimas.
Vou escrever uma carta, organizar numa equação matemática, um recado aos que não são daqui. Não venham. Este não é mais um lugar seguro. O mundo organiza seus dias num gráfico apertado, em que linhas paralelas precipitam-se todas para um mesmo lugar, um lugar onde até as alegrias se vestem de cinza e entoam um canto de morte.

Exibições: 74

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço