As histórias de bastidores da canção "Nova Ilusão"

 

Bororó, Sílvio Caldas, Claudionor Cruz e Pedro Caetano

 

post dedicado aos amigos Gilberto Inácio e Luciano Hortencio *

 

 

Tantas vezes gravado, o samba choro “Nova ilusão”, de Claudionor Cruz e Pedro Caetano, não teria nascido se não fosse outro clássico da música brasileira, “Da cor do pecado”, de Bororó. Sílvio Caldas é protagonista desta história, contada no programa apresentado por João Máximo.

 

 

 

 

Relato de João Máximo

 

 

 

 

 

 

Numa terça-feira do verão carioca de 1941, quatro dias antes de estrear o show no Golden Room do Copacabana Palace, Sílvio Caldas encontrou-se por acaso com o seu velho amigo Claudionor Cruz

 

Sabendo da estreia de Sílvio, grande cartaz a época, Claudionor ofereceu para lançar no show uma valsa inédita, apaixonada, seresteira como as que Sílvio gostava e como as que Claudionor fazia tão bem com seu parceiro Pedro Caetano.

Sílvio Caldas, ele próprio compositor de belas valsas, agradeceu. Valsas tinha muitas. Que tal Claudionor e Pedro fazerem um samba. Um samba choro nos moldes de “Da cor do pecado”, música e letra de Bororó que o próprio Sílvio gravara com sucesso, em 1939.

 

 

 

 

 

Da cor do pecado” (Bororó) # Sílvio Caldas. Disco Victor (34485B), 1939.

 

 

 

 

Não querendo perder a oportunidade Claudionor Cruz prometeu a Sílvio Caldas entregar o novo samba no dia da estreia, sábado. Promessa difícil de cumprir porque Pedro e Claudionor moravam um no centro e o outro no subúrbio e não poderiam se encontrar antes disso.

 

 

 

Foi de Pedro Caetano a ideia e Claudionor aceitou na hora. Ele Pedro faria uma nova letra para “Da cor do pecado”, ou seja, mesmo número de versos, cada verso com o mesmo número de sílabas, observando pontuação e acentuação melódica de Bororó. Ao mesmo tempo Claudionor faria a melodia que coubesse perfeitamente na letra de “Da cor do pecado”. Quanto à letra de Pedro Caetano, mais lírica e menos sensual do que a de Bororó, era romanticamente arrebatadora, dizia:

 

É dos teus olhos a luz
Que ilumina e conduz
Minha nova ilusão
É nos teus olhos que eu vejo
O amor, o desejo do meu coração
És um poema na terra
Uma estrela no céu, um tesouro no mar
És tanta felicidade
Que nem a metade consigo exaltar


Se um beija-flor descobrisse
A doçura e a meiguice
Que teus lábios têm
Jamais roçaria as asas brejeiras
Por entre roseiras em jardins de ninguém
Oh, dona dos sonhos
Ilusão concebida
Surpresa que a vida
Me fez das mulheres
Há em meu coração
Uma flor em botão
Que abrirá se quiseres

 

 

Primeira e segunda parte pronta, letra e melodia casadas, samba intitulado “Nova ilusão”. Sílvio Caldas aprendeu um pouco antes de entrar em cena. Lançou na noite de estreia, mas por algum motivo jamais o gravaria.

 

 

 

Quem fez primeiro foi Renato Braga, cantor hoje pouco lembrado. Nada aconteceu. Em março de 1953, Lúcio Alves reviveu com arranjos de Radamés Ganattali, já então como samba canção.

 

 

 

“Nova ilusão” (Claudionor Cruz/Pedro Caetano) # Renato Braga. Disco Columbia (55285B), 1941. (Uma curiosidade: Renato Braga era irmão do Braguinha).

 

 

 

 

 

 

 

 

Nova ilusão” (Claudionor Cruz/Pedro Caetano) # Lúcio Alves. Disco Continental (16715-A), 1953.

 

 

 

 

 

 

 

 

E as lições que ficam dessa história são pelo menos três: uma, o atestado do imenso talento de Pedro Caetano e Claudionor Cruz, dois gigantes da nossa música popular brasileira, ambos hábeis tanto em letra como em melodia. Outra lição: a de que até um Sílvio Caldas podia errar na hora de escolher o que gravar. A terceira: a de que o novo samba nasceu para ficar, sobretudo quando revivido mais de trinta anos depois por Paulinho da Viola.

 

 

 

 

Nova ilusão” (Claudionor Cruz/Pedro Caetano) # Paulinho da Viola.

 

 

 

 

 

 

 

 

Concordo com João Máximo quanto à gravação feita pelo Paulinho da Viola, realmente uma arrebatadora interpretação. Também gosto muito da gravação feita pela cantora Zélia Duncan. Confiram.

 

 

 

 

Nova ilusão” (Claudionor Cruz/Pedro Caetano) # Zélia Duncan (voz), Gabriel Grossi (gaita), Marco Pereira (violão), Hamilton de Holanda (bandolim) e Márcio Bahia (pandeiro).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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* Agradecimentos especiais aos amigos Gilberto Inácio (áudio da interpretação de Lúcio Alves) e Luciano Hortencio (montagem do vídeo).

 

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Fontes:

 

- Programa de João Máximo na Rádio Batuta do IMS (Instituto Moreira Sales).

- Site YouTube (Vídeo).

- Edição/montagem de fotos: Laura Macedo.

 

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Exibições: 951

Comentário de Laura Macedo em 26 março 2014 às 0:55

Errata: leia-se Radamés Gnattali.

Comentário de lucianohortencio em 26 março 2014 às 0:57

Parabéns pelo excelente Post e obrigado pelo gentil oferecimento. Abração do luciano

Comentário de Laura Macedo em 26 março 2014 às 1:45

Amigo Luciano,

O agradecimento é recíproco :)

Abraços da amiga Laura.

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