Atração de Cérebros: Os Interpretes do Brasil

"Na França pesquisadores abraçaram um movimento contra a "mcdonização da ciência". Nos trópicos, a slow bureaucracy tenta implantar a fast science", Thomaz Wood Jr., Carta Capital.


Caros Geonautas, 

O que o Brasil deve fazer para a "atração de cérebros da "ciência"? (minha contribuição ao post do Nassif de ontem, "clique aqui").

Como nos lembra Alfredo Bosi, "nada se aprende fora da história", já antecipo o que vejo, o nosso caminho é pela cultura. 

Primeiramente é fundamental entender que a ciência  não explica todo o mundo, mas uma parte dele, embora a panacéia que se faz em torno dela seja uma coisa de outro mundo, como uma coisa "milagrosa"  que ainda não temos e precisamos desesperadamente, a "mcdonização da ciência", como diz artigo Slow science, de Thomaz Wood Jr., Carta Capital dessa semana, 23 de maio de 2012, (artigo ainda não disponível online, mas excelente texto, recomendo), diz o artigo a certa altura em destaque:

"Na França pesquisadores abraçaram um movimento contra a "mcdonização da ciência". Nos trópicos, a slow bureaucracy tenta implantar a fast science"

O cientista Miguel Nicolelis, que "deseja transformar o Nordeste na Califórnia brasileira", ele deseja só isso, que maravilha (apesar de ter minhas ressalvas sobre seu projeto tipo positivista "Blade Runner" para paraplégicos), costuma dizer, que "se Einstein fosse cientista no Brasil hoje, ele não teria nota máxima da Capes", e ainda completa, "se Albert Santos Dumont tivesse frequentado nossa escola normal, não teria invetado o avião". 

Tenho a impressão, que esse início do século XX, de um certo modo, estamos voltando ao século XIX, ao "século da ciência", temos agora, além do fundamentalismo religioso, também o fundamentalismo científico. devemos lembrar que a ciência nasceu da ideologia, e que ciência pura não existe:

Frederick Perls:

“A ciência, por mais pura que seja, é o produto de seres humanos engajados na fascinante aventura de viver suas vidas pessoais” (Frederick Perls, et al. Gestalt Therapy. p. 24).

Filosofia da Ciência, Rubem Alves, p. 137.

Rubem Alves:

(...) “A ciência é um fato social, como muitos outros, tais como religião, família, exércitos, partidos políticos: instituições que se organizaram em torno de certos problemas e estabeleceram regras para o seu funcionamento”. (...) “Imagine as várias divisões da ciência – física, química, biologia, psicologia, sociologia – como técnicas especializadas. No início pensava-se que tais especializações produziriam, miraculosamente, uma sinfonia. Isto não ocorreu. O que ocorre, freqüentemente, é que cada músico é surdo para o que os outros estão tocando. Físicos não entendem os sociólogos, que não sabem traduzir as afirmações dos biólogos, que por sua vez não compreendem a linguagem da economia, e assim por diante.”

(...) “Antes de mais nada é necessário acabar com o mito de que o cientista é uma pessoa que pensa melhor do que as outras.,”

(...) “O conhecimento está a serviço da necessidade de viver... E essa necessidade criou no homem os órgãos do conhecimento... O homem vê, ouve, apalpa, saboreia e cheira aquilo que precisa ver, ouvir, apalpar, saborear ou cheirar ... Os parasitas que, nas entranhas dos outros animais, vivem dos sucos nutritivos por estes preparados, como não precisam de ouvir ou ver, não ouvem nem vêem ... Para estes parasitas não deve existir nem o mundo visual nem o mundo sonoro.”,

(...) “Preconceito e resistência parecem ser mais a regra do que a exceção no desenvolvimento científico avançado.”

Filosofia da Ciência, Rubem Alves, p. 155, 160


Alvin Gouldner: 

(...) “é necessário “abandonar o pressuposto muito humano, mas elitista, de que os outros crêem movidos por interesses, enquanto que eles (cientistas) crêem em obediência aos ditames da lógica e da razão”,


L. L. Whyte:

“O místico crê num Deus desconhecido. O pensador e o cientista crêem numa ordem desconhecida. É difícil dizer qual deles sobrepuja o outro em sua devoção não racional.”


Vejamos o que diz os economistas, por exemplo, Robert J. Shiller, Univ. Yale, no Valor:

Shiller: "Esse é um dos grandes problemas dos economistas: poucos leem qualquer coisa que não sejam artigos da própria área. Os problemas que estão aparecendo são humanos, ou seja, essencialmente sociais e políticos. Eles se expressam financeiramente porque as Finanças existem para expressar forças da sociedade. É preciso recorrer à sociologia e à ciência política, que explicam essas forças. Não só: também à economia comportamental e à psicologia." (Valor Econômico, 18-05-12, Blog do Fernando Nogueira da Costa: Crowdfunding: Democratizar as Finanças).


O que devemos fazer então?

O caminho e a "salvação da lavoura" é pela cultura, a universidade e a ciência não vão nos salvar. A cultura é a nossa maior riqueza. 


“Só com ciência não serão resolvidos os desafios da Rio+20 e os grandes desafios da agenda mais ampla da relação entre ambiente e desenvolvimento. Porém, sem a ciência não há condições de desatar os nós que emperram o encaminhamento sustentável no mundo do século XXI”, Celso Lafer, FAPESP Rio+20, 6 e 7 março, 2012.


Adicionaria que, não serão resolvidos os desafios da Rio+20 e nem os do Brasil, que são seculares, de uma elite víl,. Nos ensinou Raymundo Faoro em "Os Donos do Poder" (1958), um estamento da república da pedantocracia, que ocupou e se locupletaram do espaço do estamento da aristocracia do império.

Como essa elite e essa intelectualidade vão produzir algo melhor que ela mesma?

Como diz Fiori e Milton Santos, ao se olhar na memória de nossa história, a realidade nua e crua, "o rei está nu":

José Luis Fiori:

(...) “Não é casual o fato de que a intelectualidade brasileira esteja há 150 anos se debatendo, sem sucesso, na tentativa de formular um conceito e um projeto de nação que pudesse dar conta dessa aparente “desconjunção” brasileira, enquanto o “país real” dos donos do poder e da riqueza expandia-se, de forma cíclica mas continuada, através das portas abertas pelo liberalismo internacionalizante e de costas para o povo. Na verdade, este “país real” nunca precisou da ideia de nação e sua vontade política dirigente nunca apontou efetivamente para a “construção de um sistema de decisões e produção capaz de definir e hierarquizar por si mesmo objetivos coletivos ou nacionais.” [FIORI, p. 54, Celso Furtado e o Brasil, Maria da Conceição Tavares (org.), 2000].


Milton Santos:

(...) “Porque o Brasil jamais teve cidadãos. Nós, a classe média, não queremos direito, queremos privilégios, e os pobres, não têm direitos. Não há pois, cidadania neste país, nunca houve.” (SANTOS, Milton: O mundo global visto do lado de cá.  Documentário do cineasta Silvio). 


O dito popular, derivada de um pensamento de Joaquim Nabuco, continua a nortear, sabesse lá Deus como, os rumos e os destinos por um melhor lugar ao sol, a esperança do povo, que vem do verbo esperançar (e não esperar): "O povo é melhor que suas elites".


Para atrair os cérebros da 'casa" (formar) e de fora, para ficar "Perto do Coração Selvagem", é necessário, mas não suficiente, porém fundamental, ler quem vem lendo o Brasil de longa data, "Os Interpretes do Brasil", como o "Mestre da periferia", Machado de Assis, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado, Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, João Guimarães Rosa, Florestan Ferandes, Raymundo Faoro, Antonio Candido (capa do livro acima), Alfredo Bosi, Roberto Schwartz, Milton santos e muitos outros. Uma lista do Itamaraty, como referência (52 títulos), "Livros para Conhecer o Brasil": Livros%20para%20Conhecer%20o%20Brasil.pdf


Texto de apresentação sobre os livros:

"Capistrano de Abreu dizia que para se ter uma inteligente visão geral do Brasil era necessário primeiro ler uma série de “monografias conscenciosas”. O notável historiador indicava, assim, que para o entendimento do processo político, social e econômico brasileiro não havia uma única obra completa ou autor totalmente abrangente. Seria necessário a leitura de um conjunto de obras, algumas já consideradas clássicas, que fornecem lúcidos enfoques setoriais, e contribuem para que cada um selecione dados, valorize perspectivas, e vá, dessa forma, construindo sua interpretação do Brasil.

Dessa forma, a Fundação Alexandre de Gusmão apresenta publicação de volume intitulado “Livros para Conhecer o Brasil”. Trata-se de primeiro título sobre o assunto e apresenta listagem de obras relevantes para o conhecimento aprofundado do Brasil. Obviamente, a presente relação incompleta, razão pela qual haverá publicação de outras listas em futuro breve."


Foto dos livros acima:

1-Os Donos do Poder, Raymundo Faoro, 1958:

Ensaio fundamental, acadêmico, para a compreensão da formação social e política brasileira. Partindo das origens portuguesas de nosso patronato político, o autor demonstra como o Brasil foi governado, desde a colônia, por uma comunidade burocrática que acabou por frustrar o desenvolvimento de uma nação independente. Sua análise abarca o longo período que vai da Revolução Portuguesa do século XIV até a Revolução de 1930 no Brasil. Esta edição foi revista e acrescida de um índice remissivo.


CRÍTICAS

“A filosofia política que se coloca como substrato da obra de Faoro é prenhe de um liberalismo que não se limita ao âmbito formal e muito menos ao chamado ‘liberalismo’ econômico, que empobrece o liberalismo, fazendo-o coincidir com a mera liberdade de mercado. Liberalismo, em seu sentido profundo, no sentido que Faoro expressa, é muito mais que isso – é um comprometimento ético-filosófico com a idéia de liberdade, ou seja, de dignidade e de capacidade intrínseca de todo ser humano. A política deveria estar a serviço dessa idéia, desse comprometimento – eis a grande mensagem da interpretação de Faoro sobre o Brasil.” 
Rubens Goyatá Campante, Estado de Minas, 14 jul. 2007, Caderno Pensar


 2- Antonio Candido, apresentação sobre sua obra:

 Parceiros%20Rio%20Bonito_apresenta%C3%A7%C3%A3o.pdf

Os parceiros do Rio Bonito surgiu do desejo de analisar as relações entre literatura e sociedade, tendo partido de pesquisa sobre a poesia popular do Cururu – dança cantada do caipira paulista – cuja base é um desafio sobre os mais vários temas, em versos de rima constante, a carreira, que muda depois de cada rodada.

As investigações começaram em 1947 mas, por causa dos encargos de ensino que tomavam a maior parte das férias do autor, acabaram se dando com irregularidade. Nesse ritmo se fez a colheita do material em algumas áreas caracteristicamente caipiras do estado, durante os anos de 1947, 48, 49, 52, 53, 54. Antonio Candido trabalhou, em períodos curtos em Piracicaba (7 visitas), Tietê (2 visitas), Porto Feliz (1 visita), Conchas (2 visitas), Anhembi (1 visita), Botucatu (3 visitas) e sobretudo Bofete. Aí morou num agrupamento rural cerca de vinte dias, de fevereiro a março de 1948 e, de novo, quarenta dias, de janeiro a fevereiro de 1954, quando a redação, iniciada em agosto de 1953, tornou necessária a volta ao campo de estudo para reforçar o material e verificar hipóteses à luz da passagem do tempo.

Terminado em setembro de 1954, este trabalho foi apresentado como tese de doutoramento em Ciências Sociais à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo onde Antonio Candido foi, durante dezesseis anos, Assistente de Sociologia II. Depois da defesa e da aprovação da tese, seu texto foi deixado de lado por alguns anos pelo autor que tinha a esperança de poder melhorá-lo. Isso acabou não acontecendo e o livro reproduziu a tese tal como foi apresentada, salvo correções que não alteraram o sentido geral. 

Os dados numéricos envelheceram, a própria situação estudada se alterou com tendência para reconstituição do latifúndio como realidade econômica e social, à custa da pequena propriedade e do sistema de parceria analisado em Os parceiros do Rio Bonito. Mas o livro não encerra uma tese de Economia nem pretende fornecer dados recentes. Visa descrever um processo e uma realidade humana, característicos do fenômeno geral de urbanização no estado de São Paulo.


3- Dialética da Colonização – Alfredo Bosi

Dialética da Colonização – Alfredo Bosi

Colonização, culto, cultura. Três palavras que se aparentam pela raiz verbal comum. Colonização diz o processo pelo qual o conquistador ocupa e explora novas terras e domina os seus naturais. Culto remete à memória dos deuses e dos antepassados que vencedores e vencidos celebram. Cultura é não só a herança de valores mas também o projeto de um convívio mais humano. A cada conceito responde uma dimensão temporal: o presente, o passado e o futuro.
Em capítulos que vão de Anchieta à indústria cultural, Alfredo Bosi persegue com sensibilidade as formas históricas que enlaçaram colonização, culto e cultura: Dialética da colonização é o resultado deste percurso sui generis na história do pensamento brasileiro


Sds,


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Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 26 maio 2012 às 3:13

CartaCapital Sociedade

Thomaz Wood Jr.

Ciência

25.05.2012 11:47

Slow science


O frenesi da globalização e seus descontentes. Consta que tudo começou com o cozinheiro Carlo Petrini. Na década 1980, este italiano participou de uma campanha contra a abertura de uma loja McDonald’s em Roma. Nasceu pouco depois o movimento Slow Food, voltado para a preservação da cozinha regional e tradicional, contra a mesmice e a pressa do onipresentefast-food. O sucesso cruzou fronteiras e atraiu seguidores em mais de 150 países. Na esteira, vieram o slow living, o slow travel e o slow cities. Como guarda-chuva, cunhou-se o termo slow movement.

Um filósofo norueguês – Guttorm Floistad – conferiu ao movimento poesia e princípios: “A única coisa que podemos tomar como certeza é que tudo muda. A taxa de mudança aumenta. Se você quer acompanhar, melhor se apressar. Esta é a mensagem dos dias atuais. Porém, é útil lembrar a todos que nossas necessidades básicas não mudam. A necessidade de ser considerado e querido! A necessidade de pertencer. A necessidade de estar próximo e de ser cuidado, e de um pouco de amor! E isso é conseguido apenas pela desaceleração das relações humanas. Para ganharmos controle das mudanças, devemos recuperar a lentidão, a reflexão e a capacidade de estarmos juntos. Então encontraremos a verdadeira renovação”.

Leia também:
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Agora, da terra do resistente Asterix, nos chega uma nova onda do slow movement: a slow science. Seus arautos condenam a cultura da pressa e do imediatismo que invadiu, nos últimos anos, as universidades e outras instituições de pesquisa. A fast science, segundo os rebeldes franceses, busca a quantidade acima da qualidade. Aprisionados pela lógica do “produtivismo” acadêmico, os pesquisadores tornam-se operários de uma linha insana de montagem. E quem não se mostrar agitado e sobrecarregado, imerso em inúmeros projetos e atividades, será prontamente cunhado de improdutivo, apático ou preguiçoso.

Os cientistas signatários da slow science entendem que o mundo da ciência sofre de uma doença grave, vítima da ideologia da competição selvagem e da produtividade a todo preço. A praga cruza os campos científicos e as fronteiras nacionais. O resultado é o distanciamento crescente dos valores fundamentais da ciência: o rigor, a honestidade, a humildade diante do conhecimento, a busca paciente da verdade.

A “mcdonaldização” da ciência produz cada vez mais artigos científicos, atingindo volumes muito além da capacidade de leitura e assimilação dos mais dedicados especialistas. Muitos trabalhos são publicados, engrossam as estatísticas oficiais e os currículos de seus autores, porém poucos são lidos e raros são, de fato, utilizados na construção da ciência.

Os defensores da slow science acreditam que é possível resistir à fast science. Sonham com a possibilidade de reservar ao menos metade de seu tempo para a atividade de pesquisa; de livrarem-se, vez por outra, das demandantes atividades de ensino e das tenebrosas atividades administrativas; de privilegiar a qualidade em detrimento da quantidade de publicações; e de preservar algum tempo para os amigos, a família, o lazer e o ócio.

A eventual chegada da onda da slow science aos trópicos deve ser observada com atenção. Por aqui, cruzará com a tentativa de fomentar a fast science. Entre nós, o objetivo de aumentar a produção de conhecimento levou à criação de uma slow bureau-cracy, que avalia e controla o aparato científico. A implantação gradativa da lógica fast, com seus indicadores e suas métricas, pretende definir rumos, estabelecer metas, ativar as competências criativas da comunidade científica local e contribuir para a construção do futuro da augusta nação. Boas intenções!

Os efeitos colaterais, entretanto, são consideráveis. A lógica fast está condicionando os cientistas operários a comportamentos peculiares. Sob as ordens de seus capatazes acadêmicos ou por iniciativa própria, eles estão reciclando conteúdos para aumentar suas publicações; incluindo, em seus trabalhos, como autores, colegas que pouco ou nada contribuíram; e assinando, sem inibição, artigos de seus alunos, aos quais eles pouco acrescentaram. Tudo em prol da melhoria de seus indicadores de produção.

Enquanto as antigas gerações vão se adaptando, aos trancos e barrancos, ao modo fast, as novas gerações de pesquisadores já são formadas sob os princípios da nova doutrina. Aqui, como ao norte, vão adotando o lema da fast sciencepublish or perish (publique ou desapareça). E, se o objetivo é publicar, vale tudo, ou quase tudo. Para onde vão os cientistas e a ciência? O destino não é conhecido, mas eles estão indo cada vez mais rápido.

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