Avançar no século XXI com a energia do século XIX? As novas perspectivas mundiais do carvão.

“Aos olhos da maioria dos europeus, o carvão mineral não é mais uma fonte de energia que deve ser levada em conta. Erro! Seu consumo cresceu tão rapidamente e suas reservas são tão abundantes que ele poderá ultrapassar um dia o petróleo. O clima planetário não ganhará nada, a não ser que as tecnologias de “carvão limpo” dêem um salto.”

“Quais são os motores desse crescimento carbonífero? As armadilhas reencontradas pela nuclear e a alta dos preços do gás natural o favorecem, porém não se deve esquecer a metamorfose da indústria de carvão no mundo.”

“Da China, líder mundial incontestável, aos Estados Unidos, passando pela Índia, Rússia e grandes países exportadores (Austrália, Indonésia, África do Sul, Colômbia), um novo mapa se desenha. Em todos esses países, as empresas carboníferas se concentram, se internacionalizam, abrem novas minas a céu aberto e traçam novas rotas comerciais.”

“A compreensão dessa metamorfose torna-se uma das chaves da prospectiva energética e da geopolítica do século XXI”


Esta é a apresentação de um livro imperdível que acaba de ser lançado por um dos mais respeitáveis economistas da energia: Jean Marie Martin Amouroux. O livro se chama Charbon, les métamorphoses d’une industrie. La nouvelle géopolitique du XXI siècle, Editions Technip, París, 2008, 432 pp.

Jean-Marie, que durante muitos anos assinou suas publicações simplesmente como Jean-Marie Martin, é amplamente conhecido pelos seus trabalhos no campo da Economia da Energia e por ter mantido de maneira permanente um interesse particular pela América Latina, onde desenvolveu numerosas atividades de intercâmbio e cooperação científica.

A revista Economía Informa*, publicada pela Faculdade de Economia da Universidade Nacional Autônoma do México, traz uma entrevista com Jean-Marie Martin-Amouroux sobre o seu livro, com o seguinte título: ¿Avanzar en el siglo XXI con la energía del XIX? Las nuevas perspectivas mundiales del carbón.

A entrevista foi realizada pelo professor Angel de la Vega Navarro** e apresentada originalmente em espanhol.

A transcrição em português é apresentada a seguir.

Angel de la Vega Navarro (AVN): o lugar para o carvão cresce novamente no fornecimento global de energia e você mostra em seu livro que esta fonte de energia, que para muitos pertence ao passado, se manterá de forma significativa, especialmente para a produção de eletricidade em países como os Estados Unidos e a China. Por quê? Poderia superar o petróleo daqui até 2050, ou seja, passar para o primeiro lugar no balanço energético global?

Jean-Marie Martin-Amouroux (JMMA): Depois de uma taxa média anual de crescimento de 4% durante todo o século XIX, o carvão chegou a representar 56% do consumo mundial de energia (incluída a biomassa) em 1913. Desde então, ainda que o seu consumo tenha continuado a aumentar, a sua contribuição não deixou de cair, passando para menos de 25% durante a década de 1970, em benefício principalmente do petróleo. Alguns haviam predito, prolongando essa tendência, o seu desaparecimento total, na primeira metade do século XXI, o que foi desmentido pelos fatos. Em 2007, o carvão representa 27% do balanço energético mundial, ainda atrás do petróleo (32%), porém à frente do gás (21%) e, claramente, de todas as fontes de energia não fósseis.

As experiências passadas nos ensinam sobre os perigos de toda extrapolação, mas não proíbem a exploração de futuros com base em hipóteses explícitas. Os cenários Business as usual da Agência Internacional de Energia (BASELINE) e da União Européia (WETO-H2), ainda que apresentem divergências sobre as conseqüências de um pico de petróleo e de um pico de gás, assim como sobre o relançamento de programas nucleares em todo o mundo, convergem sobre o retorno do carvão à liderança do aprovisionamento energético global em um nível de 32-34% em 2050, à frente do petróleo (23-27%) e do gás natural (19-24%). Por trás dessas perspectivas estão presentes duas linhas básicas: um crescimento do consumo mundial de energia, especialmente eletricidade, cada vez mais impulsionado pela Ásia, pobre em hidrocarbonetos, mas rica em carvão; e as tensões crescentes no mercado mundial de petróleo, que incitam à busca de alternativas, entre as quais o coal-to-liquids (obtenção de combustíveis líquidos a partir do carvão). Os obstáculos não virão, nesse caminho, das reservas estimadas em 900 Gt e muito menos dos recursos que acabam de ser situados em 20.000 Gt pela Bundestanstalt o Geowissenschaften und für Rohstoffe (BGR). Provavelmente, eles poderiam surgir de uma oposição ao crescimento das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), sob a forma, em particular, da internalização obrigatória de um preço elevado do carbono nos preços da eletricidade proveniente da geração baseada em carvão. Esta eventualidade somente se tornaria realidade no caso da China, da Índia e de todas as economias emergentes se associarem a essas iniciativas que, atualmente, são promovidas apenas pela União Européia, Canadá e diversos estados americanos.

AVN: De onde provém a duplicação da taxa de crescimento do consumo e da produção carbonífera no mundo desde 1980?

JMMA: A coincidência entre o início da duplicação da taxa de crescimento do consumo mundial de carvão e os choques petrolíferos dos anos setenta levou a algumas interpretações precipitadas. O novo auge carbonífero seria apenas uma resposta ao aumento dos preços relativos do óleo em relação ao carvão. Esta leitura é reforçada pelo declínio da taxa de crescimento após o contrachoque petroleiro dos finais dos anos oitenta. O impulso teria vindo, então, de uma demanda adicional de combustíveis sólidos comandada por uma variação dos preços relativos. Essa interpretação contém evidentemente uma parte de verdade, porém basta simplesmente analisar os fatos para se dar conta que é muito insuficiente em vários aspectos.

Ao longo das três décadas que transcorreram desde então, o forte crescimento da demanda de carvão não se manifestou nos países importadores de petróleo, sobretudo da Europa Ocidental, mas em países como a China e a Índia, que optaram por desenvolvimentos energéticos autônomos, com base em seus recursos nacionais. Nestes países não são os choques do petróleo, mas as novas orientações econômicas escolhidas por Indhira Gandhi e Deng Xiaoping, respectivamente, as que impulsionaram indústrias de carvão, até então, incapazes de satisfazer à demanda de energia. Posteriormente, o enfraquecimento do crescimento global carbonífero da década de noventa resultou menos de um aumento da competitividade de produtos petrolíferos do que da queda do carvão soviético antes da sua privatização em 1998. Na América do Norte e Europa Ocidental os choques petrolíferos tiveram efetivamente um efeito sobre a demanda de carvão, mas não mais do que a interrupção do programa nuclear, no início do período, e que o receio de falta de gás natural, no final do período. Além disso, a competitividade crescente na produção termoelétrica clássica resultou tanto da queda dos preços CIF dos combustíveis sólidos quanto da alta dos preços dos hidrocarbonetos. Portanto, não havia que se desinteressar das razões para tais preços baixos, mas procurá-las pelo lado da oferta.

AVN: Como se pode explicar essa baixa de preços de maneira precisa?

JMMA: Tem, evidentemente, causas muito variáveis, em cada um dos grandes países produtores de carvão que recorrem pouco aos intercâmbios internacionais (China, Estados Unidos, Índia, Rússia) e nos mercados internacionais (carvão coqueificável, carvão térmico do Pacífico e carvão térmico do Atlântico) que aprovisionam os grandes países exportadores (Austrália, Indonésia, África do Sul, Colômbia). Nos Estados Unidos, que está longe de ser um país de preços baixos (até 2007, os produtores desse país se recusavam a vender nos mercados internacionais por considerá-los muito baratos), o preço de uma tonelada de carvão na boca da mina caiu, em dólares constantes (2000), de 50,92 em 1975 para 20,49 em 2006.

As evoluções subjacentes a essa baixa de preços são de diferentes tipos. As mais evidentes são de natureza técnico-económica. Na maioria dos países, a produtividade das explorações foi multiplicada por três ou quatro, como conseqüência do deslocamento do centro de gravidade da extração, dos Appalaches para as Rochosas, nos Estados Unidos, do Donetsk para o Kuznetsk na Rússia, do New South Wales para o Queensland, na Austrália. A subtração subterrânea cedeu cada vez mais lugar para as minas a céu aberto e para equipamentos gigantescos (pás mecânicas). Não sem dificuldade, por vezes, chegaram em seguida os meios para o escoamento do carvão por units trains e terminais portuários carboníferos.

Tais alterações técnicas teriam sido impensáveis sem reorganizações das indústrias provocadas pelas entradas massivas de capitais em várias ondas, seja de origem pública na China e na Índia, ou bem de origem privada, em outros lados. Entre estes últimos, os investimentos diretos ou as compras de ativos vieram das siderúrgicas japonesas e dos petroleiros estadunidenses ao longo dos anos sessenta; das companhias de petróleo e carvão européias, das indústrias elétricas e certos bancos no final de década de setenta; das grandes empresas mineradoras, no início dos anos noventa; e mais recentemente, das siderúrgicas russas e indianas.

Mais além das perspectivas de ganhos deduzidas de uma antecipação por um interesse maior pelos combustíveis sólidos, essas entradas de capitais estiveram, em todos os casos, fortemente influenciadas por mudanças institucionais ou por macro-decisões políticas. A chegada de capitais japoneses no Queensland australiano resulta diretamente da vontade política japonesa de produzir aço para garantir a competitividade dos preços da indústria da construção naval. A ascensão da indústria chinesa foi organizada em dois tempos pelos poderes públicos: a liberalização que provocou a multiplicação de pequenas minas locais e a reestruturação dos grandes grupos estatais em torno de uma dúzia de pólos carboníferos. Foi a nacionalização de 1971-73 que esteve na origem da reorganização da indústria indiana de carvão, e foi a privatização de 1998 que salvou o carvão russo. A afluência de capitais, que criaram em fins de 1980, peça por peça, uma indústria Indonésia extraordinariamente dinâmica respondeu aos convites e propostas governamentais. Esses exemplos, que poderiam multiplicar-se, não facilitam uma interpretação simples das condições da renovação da indústria mundial de carvão, porém dão razão a François Perroux, que reprovava amavelmente a Joseph Schumpeter pelo fato de não haver mencionado os feitos do Príncipe por detrás do empresário inovador.

AVN: Após todas essas mudanças como se apresenta a indústria do carvão no mundo? Por que você pode falar de uma metamorfose, palavra que está no título do seu livro? Quais seriam as manifestações de uma transformação tão profunda?

JMMA: A questão é muito relevante, uma vez que "Metamorfose" não é um termo anódino. Exprime a idéia de uma mudança de forma, natureza ou estrutura tão considerável que o ser ou coisa da qual ela é objeto já não é mais identificável. No entanto, o termo não parece excessivo, quando se tem em vista as mudanças por que passou a indústria do carvão.

Essas mudanças dizem respeito em primeiro lugar às estruturas da indústria em escala mundial. A justaposição de empresas nacionais de tamanho mediano, de estatuto privado, ou de maior tamanho, porém de estatuto público é uma coisa do passado. Excetuando-se a Coal India Ltd (CIL), que ainda é um quase-monopólio, todas as empresas carboníferas são na atualidade privadas ou próximas a sê-lo (Polônia) e submetidas a um processo até então desconhecido de concentração nessa indústria. À frente encontram-se as multinacionais (BHP-Billiton, Rio Tinto, Anglo Coal, Xstrata) que controlam mais de 30% do comércio internacional e até 85% das exportações de alguns países (Colômbia). Em seguida encontram-se as grandes empresas nacionais, algumas das quais se encontram em processo de internacionalização: Peabody nos Estados Unidos, Shenhua ou China coal na China, Suek na Russia ou Bumi na Indonésia. Porém - e esta é uma segunda característica da indústria do carvão -, essa concentração não elimina os recém-chegados, compostos por dezenas de pequenas empresas que se formam cada ano com o objetivo de entrar em uma indústria em que as barreiras à entrada são relativamente baixas, tanto nos grandes países carboníferos (Austrália, África do Sul e Indonésia) como nos países da nova fronteira, como Mongólia e Moçambique.

Esta transformação estrutural é ao mesmo tempo causa e conseqüência do reforço da dinâmica competitiva que já não é limitada às empresas envolvidas no comércio internacional. Tradicionalmente muito forte nos Estados Unidos, essa dinâmica chegou à Rússia, um país em que as empresas privadas descobrem as regras da concorrência e à China, onde as grandes empresas públicas que restaram se vêem incentivadas a adotar comportamentos de empresas em concorrência. Esta dinâmica desempenhou um papel crucial no crescimento da produtividade acima descrito, e, portanto, na boa competitividade do carvão em relação aos hidrocarbonetos, que é ainda atual, em 2008, apesar da subida dos preços nominais. O seu futuro dependerá da consolidação ou não das forças competitivas ameaçadas por uma concentração excessiva (BHP-Billiton absorvendo a Rio Tinto ou a Vale tendo como objetivo a Xstrata, por exemplo).

AVN: Entre as mudanças que você estuda em seu livro estão as mudanças nas estruturas, técnicas e formas de organização da indústria de carvão, mas também na sua geografia. Como tem evoluído o mapa mundial do carvão? Para onde tem se dirigido esta indústria?

JMMA: Especialmente para os europeus, acostumados a uma cartografia tradicional, a mudança das últimas três décadas foi radical. Enquanto a parte da América do Norte no consumo global de carvão aumentou ligeiramente (de 18,4 para 19,3%), a da Europa desabou (de 32,7 para 12,9%) especialmente se acrescenta a da antiga URSS (22,5 para 6,4%). O mapa do consumo do carvão rapidamente se deslocou em direção à Ásia e o Pacífico (de 23,7 para 56,6%). Tudo indica que esse movimento vai continuar durante as próximas décadas, mas a um ritmo que pode ser abrandado por uma recuperação do crescimento do consumo na Rússia (para reservar mais gás natural para exportação), na Europa Ocidental (com receio de uma insuficiência de gás natural, salvo um forte aumento do preço do carbono), ou na América Latina e África, onde se manifestam os sinais de retorno à produção de eletricidade com base em carvão.

O deslocamento geográfico da produção de carvão tem sido ainda mais acentuado do que o do consumo, já que a Europa Ocidental importa um terço do seu consumo de carvão da África do Sul, Colômbia e cada vez mais da Rússia. A China encontra-se amplamente à frente dos países produtores com 2.493 Mt extraídas em 2007, vêm em seguida Estados Unidos com 1.050, Índia com 495, Austrália (principal exportador tomando-se em conta todos os tipos de carvão), Rússia, África do Sul, Alemanha (graças aos seus linhitos) e Indonésia (primeiro importador de carvão térmico). Os primeiros lugares dessa hierarquia não deveriam mudar de aqui até 2050, mas, salvo no caso de uma reforma profunda da sua indústria, a Índia terá cada vez mais dificuldades para manter seu crescimento; a Rússia continuará seu ascenso se conseguir escoar em boas condições a sua produção da Sibéria para o leste e para o oeste; Africa do Sul deverá estender o seu campo de exploração até Botsuana e outros países da África do Leste que já excitam o apetite das empresas indianas, australianas e brasileiras.

AVN: O que se passa com os Estados Unidos nesse mapa mundial? Em seu livro você coloca uma questão central: "Será que o carvão será a pedra angular da política energética americana durante as próximas décadas?”

JMMA: Ao superar em 2004 a barreira de 1.000 milhões de toneladas (carvão e linhito), a indústria do carvão nos Estados Unidos mostrou uma vitalidade que, aos olhos de alguns, é a melhor garantia de um aprovisionamento futuro energético, menos vulnerável do que o atual. Este último o é, com efeito, em relação às necessidades em carburantes (aviação militar, entre outras), cada vez mais satisfeitas com o petróleo dos países exportadores, alguns dos quais provocam inquietações. Também o é em relação à evolução do parque de centrais elétricas uma parte das quais deverá ser renovada, em um momento em que o retorno à energia nuclear ainda não está definido, enquanto as disponibilidades de gás não parecem ilimitadas. Para a indústria da eletricidade a questão central é, portanto, «IF Not Coal, Then What?».

O carvão é um recurso nacional seguro? Em termos de “estoques em terra”, parece que sim, mesmo quando o assunto é controverso, pois uma avaliação em tec (tonelada equivalente de carvão) reduz as toneladas tradicionais anunciadas, por causa da parte que representa os sub-betuminosos com um poder calorífero baixo. No entanto, as estimativas mais recentes da BGR são inequívocas: em hulha (hard coal), com 231,92 Gt de reservas (32,6% do mundo) e 6.487,76 Gt de recursos (43,8%) os Estados Unidos estão na frente, longe de outros países produtores de carvão. Esta surpreendente ultrapassagem americana dos recursos russos é explicada pela estimativa recente de pelo menos 3.000 Gt no subsolo do Alasca.

O verdadeiro obstáculo a vencer, portanto, é de outro tipo. O endurecimento passado da legislação ambiental (recondicionamento de minas a céu aberto, limitação das emissões de SO2 e de outros poluentes associados à combustão do carvão) poderá em breve deixar de ser suficiente. Além da preparação de novas normas mais severas (em particular anti-mercúrio), o crescimento das emissões de CO2 por centrais térmicas com base em carvão não deixa ninguém indiferente. Sob pressão de poderosos grupos ambientalistas como o Sierra Club, vários governadores de estados já anularam projetos com base em carvão. Avanços significativos das tecnologias limpas do carvão clarificariam o horizonte da indústria eletricidade e do carvão? Os compromissos sobre a questão, de todos os candidatos para a Casa Branca, indicam que o carvão continuará a ser efetivamente a pedra angular da política energética dos Estados Unidos.

AVN: o subtítulo do seu livro é A Nova Geopolítica do século XXI. Quais são as novas relações entre as indústrias energéticas e as implicações geopolíticas? O que poderia ser antecipado, a este respeito? Que zonas serão mais afetadas?

JMMA: Qualquer que seja a evolução, a indústria do carvão nunca será igual à indústria do petróleo, porque as características geológicas e geográficas dos recursos não permitem obter rendas do tamanho das que têm estado na base do poder das grandes empresas e de alguns estados petroleiros. O retorno do carvão à frente do aprovisionamento energético mundial poderia ser, no entanto, acompanhado por mudanças que valem a pena antecipar.

Os aumentos da capacidade de extração e de escoamento tanto ferroviário como portuário observados desde 2007 permitem pensar que a alta atual dos preços (170 $ / ton de vapor térmico em Roterdã, 300 $ / Ton FOB de carvão coqueificável) não se manterá. Em contrapartida, a interrupção do crescimento das produtividades nos Estados Unidos, na Austrália ou na África do Sul desde 2000, anuncia uma tendência de crescimento dos custos implícita no distanciamento cada vez maior das minas, no empobrecimento dos efeitos do tamanho (escala) ou na deterioração da qualidade da hulha. Para proteger-se, os grandes consumidores buscam controlar os recursos considerados mais interessantes. Na frente estão as siderúrgicas russas, chinesas e indianas (Mittal), algumas das quais mostram um desejo de integração vertical que garanta um aprovisionamento autônomo. Atrás delas, as empresas de eletricidade, também majoritariamente chinesas e indianas: a recente compra de 30% da indonésia Bumi pela Tata Power não passou despercebida! Estes industriais não atuam sem o apoio de seus governos, que atuam ativamente junto aos países com recursos objetos de ambições. Esses governos atuam, em particular, através do financiamento de infra-estruturas ferroviárias, sem o que o carvão não poderia ser escoado. Os indianos, tradicionalmente bem estabelecidos na África Oriental, estão já em contacto com a brasileira Vale que decidiu explorar o carvão de Moatize em Moçambique, enquanto os chineses gostariam de reativar a mina de Enugu na Nigéria e, talvez, abrir uma nova em Níger. Através desses exemplos, a indústria de carvão parece ser efetivamente uma das que estão remodelando as relações geopolíticas em novas regiões do mundo. Sua influência seria ainda maior no caso em que tenham êxito as tecnologias de coal-to-liquids, sobretudo se atrair de novo as companhias petrolíferas, seguindo o exemplo da Shell.

Terá a industria de carvão ocorrências comparáveis nas Américas? Por agora, nada permite pensar isso. No norte, o Canadá tentará tirar maior partido das suas reservas de carvão de coque de Alberta e da Columbia Britânica, porém, dirigindo-se, sobretudo, ao Pacífico. No Sul, a Colômbia equipa os seus portos no Caribe para aumentar as suas vendas de carvão térmico no Atlântico, que está mais aberto, no nível de preços correntes, do lado da Europa do que do lado dos Estados Unidos. Contudo, mudanças eventuais não devem ser excluídas, em países que não têm sido, até agora, grandes produtores: Venezuela dispõe de recursos suficientes para se tornar um importante produtor; México considera desenvolver a sua produção em Coahuila, para alimentar um parque termelétrico em forte expansão, de maneira conjunta com combustíveis importados; Chile substitui parcialmente gás argentino com carvão térmico, uma parte do qual poderia vir da reativação da mina de Magallanes; Brasil, por fim, onde a novidade virá provavelmente menos da extensão das minas de Santa Catarina, do que do papel que pretende desempenhar a Vale (antiga Companhia Vale do Rio Doce), no mercado internacional de carvão, aspirante a entrar no clube das 4 grandes multinacionais, eventualmente, absorvendo uma delas (Xstrata).

Comentário: Quem quiser dar uma olhada mais detalhada neste tema, sugiro a monografia de bacharelado em Economia de Felipe Rossetti Heck, desenvolvida no Grupo de Economia da Energia IE-UFRJ, intitulada: As mudanças estruturais da indústria mundial de carvão: 1990 - 2007.

*Economia Informa No. 354 (Septiembre-Octubre 2008)

**Professor da Divisão de Estudos de Pós-graduação da Faculdade de Economia e Titular da Cátedra Extraordinária “Maestro José María Luis Mora” em Economia Internacional, da Faculdade de Economia da UNAM

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Comentário de Sérgio Troncoso em 15 fevereiro 2009 às 14:17
Caro Ronaldo,volto ao espaço para ratificar que sigo lendo suas postagens sempre elucidativas. Um abraço,Sérgio.
Comentário de Ronaldo Bicalho em 15 fevereiro 2009 às 17:01
Valeu, Sergio. Seja sempre bem vindo.
Um abraço,
Comentário de RatusNatus em 20 fevereiro 2009 às 19:54
Que tema pesado heim.

Ainda bem que não temos reservas relevantes deste mineral. Mas temos o Eike importando. :) Sempre ele.

Carvão limpo? Deve ser da mesma laia do amianto sic* não cancerígeno.

Bom carnaval Ronaldo.

Athos

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