AZARADO OU AZARENTO?

            O nome dele é Alvaro Alvim. Não é muito alto, mas também não é tão baixo. O suficiente, entre alto e baixo, para que desde criança o chamássemos de “Arvim”. Era bom de bola. Batia muito bem na ponta direita. Ele próprio dizia-se “ponta direita veloz”. Metido como ele só! Usava calção de linho 120. Terminado o curso ginasial, toda a turma teve que ir estudar fora, pois em nossa cidade não tinha colégio secundarista. O Arvim foi para São Paulo. Acabou parando com os estudos e foi ser representante comercial. Na época diziamos “viajante”. Vendia para a Gessy-Lever. Casou-se, teve filhos, vivia bem, mas envolveu-se com estelionatários e foi preso. Cumpriu pena e voltou. Montou um bar em Goiania. Como tinha parentes aqui, vinha vez ou outra vê-los.

           Foi numa dessas vindas, que seu carro sendo o único a transitar pela rua vazia, ao desviar-se de um cachorro, bateu num poste. Ao sair do carro, escorregou na lama e caiu de bunda no chão. No dia seguinte, encontrou-se com sêo Alceu, que sabendo de seus infortúnios contou-lhe os dele. Sêo Alceu havia sofrido um pequeno infarto mas escapou. Ainda convalescente, ao arrumar a antena de televisão caiu do telhado e quebrou o braço. Ja com o braço engessado, ao abrir uma porteira na fazenda, recebeu a carga elétrica de um raio que caiu na cerca e correu pelo arame. Solidariamente Arvim brincou: -- Cuidado hem! Deus ta avisando. Na outra semana, sêo Alceu morreu ao fazer um cateterismo. Em uma semana, em dias distintos, haviam ocorrido três óbitos. Aqui, os funerais são noticiados por carros de som nas ruas. Coincidentemente, os três falecidos eram torcedores do Botafogo. Arvim encontrou-se com Adelino, botafoguense que ele não via ha muito tempo e brincou: -- Não é por nada não, mas ponha as barbas de molho, os botafoguenses estão morrendo. Como o Adelino tinha uma saúde de ferro, apenas sorriu da brincadeira. No sábado Adelino foi pescar no Paranaíba. A canôa virou e ele morreu afogado.

           Fiquei alguns anos sem ver o Arvim. Há pouco tempo, tive notícias de que ele havia se mudado para Uberlândia, onde montou um bar e restaurante. Estando em visita à minha filha, que mora lá, resolvi ir ve-lo. Batemos um papão. Durante a conversa ele perguntou-me: Como está todo mundo lá? Como está o Mario Lemes? -- O Mário Lemes sofreu infarto. Morreu de repente, respondi. -- E o Jeovah? -- Também morreu, câncer na próstata. -- Virgem! E o Otávio? -- O Otávio sofreu um acidente de moto e ficou paraplégico. Aí, ele parou com as perguntas e mudamos de assunto. Falamos de futebol, de política e recordamos os velhos tempos. Na hora de vir embora, chamei Arvim de lado e disse-lhe: -- Ó! Se por acaso, aparecer alguém de Tupaciguara aqui, você não pergunte sobre mim não, viu?

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