| Por: Raquel Crusoé Loures de Macedo Meira

Ontem, brincando com lembranças, imagens de um Liszt espirituoso acabou por tomar todos os meus pensamentos e, como consequência, em um impulso, foram aqui registradas.

Neste bailado de memórias, entrei na máquina do tempo e, de repente me senti com os meus dezesseis ou dezessete anos, época em que, orgulhosamente, a minha mãe oferecia a todos os visitantes, como brinde e oferta da casa, a minha execução ao piano da famosa Rapsódia Húngara nº 02 de Liszt.

Que tempo lindo! Tínhamos aulas de piano com um anjo chamado Maria Ignês Maciello de Paula que, generosamente encaminhava os seus alunos para um outro anjo chamado Marina Lorenzo Fernandez, que também por sua vez, nos fazia viajar de trem de ferro ou de ônibus para Belo Horizonte, em uma estrada ainda não totalmente asfaltada, para aperfeiçoarmos a nossa técnica pianística com o Professor Pedro de Castro, então mui digno Diretor do Conservatório em Belo Horizonte.

Leveza de ser, de pensar, de agir. Era mesmo uma confraria. Todos por um e um por todos. Éramos uma família harmônica tradicional em todos os sentidos. Nenhuma dissonância hoje perfeitamente aceitável e natural, marcava presença naquele clã deliciosamente aconchegante.

Esta atitude da minha mãe, na verdade era fruto da uma orientação dos mestres do piano e que ela levava muito a sério. Precisávamos sempre de uma platéia para aprendermos a lidar com a emoção diante do público.

Ah... a minha mãe ! A Dona Nenzinha se encantava com a Rapsódia nº 02 e, como um pavão, assistia a sua filhotinha fazer malabarismos sobre o teclado para o encantamento de todos, pois esta peça é a segunda e mais famosa obra de um conjunto de 19 rapsódias compostas por Liszt e que atingiu grande popularidade, por permitir ao pianista revelar e explorar todo o virtuosismo característico da escola romântica.

Consiste esta técnica, na repetição de uma nota seguida de sua oitava superior e, posteriormente, numa nova repetição da mesma nota. A rapsódia que começa com um “Lento a capriccio”, segue com um “Andante maestoso” no "Lassan",para depois na “Friska”, em um "Vivace" não menos virtuosístico, com os seus saltos tanto na mão esquerda como na direita, exigir grande reflexo do instrumentista, com a célula rítmica colcheia pontuada / semicolcheia.

Não apenas em nossa casa, esse colosso pirotécnico, arrebatado e hilariante, era também sempre importante para um “gran finale” nos concertos e recitais.

Insistentemente, a imagem linda da minha mãe, enérgica porém sutil, generosa, mas sempre muito firme, baila em minha mente, ao som cigano de todo o talento e vivência húngara de Liszt.

Quantas saudades mamãe...

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