Beethoven, Miles Davis e Elizeth Cardoso

Ludwig van Beethoven, Miles Davis e Elizeth Cardoso

por Luis Fernando Veríssimo
(publicado originalmente nos jornais O Globo e O Estado de São Paulo, em 2007)

 

 

A Sinfonia nº 3 de Ludwig van Beethoven era para se chamar Sinfonia Buonaparte, em homenagem a Napoleão, que então levava os ideais da Revolução Francesa a toda a Europa na ponta de suas baionetas republicanas. Como Goya, outro entusiasta inicial de Napoleão, Beethoven não tardou em se desiludir com o herói auto-ungido imperador e rasgou a página com sua dedicatória da 3ª Sinfonia, que reintitulou Eroica, e que passou a ser uma exaltação do espírito libertário e da grandeza humana. E ficou como exemplo máximo da sinfonia clássica e o parâmetro para julgar tudo que foi composto antes ou depois no gênero, por ele e por outros – uma revolução não na política mas na sensibilidade européia, e na forma de fazer música.
 

 

“Sinfonia nº 3 (em Mi Bemol) Op. 55 - Heróica” -Allegro com brio

 

 

 

 

Anos depois, Beethoven comporia sua Missa Solemnis e assim como sua sinfonia heróica dispensara um herói ideal, substituído pelo ideal do compositor, a Missa era uma obra de devoção em que Deus quase não aparecia – pelo menos não com as deferências que ele dedicara a Bach nas suas paixões e missa – e a de idade mais evidente era o próprio Beethoven, fazendo outra revolução dos sentidos.
 

 

 

“Missa Solemnis (em Dó Maior) Op. 123 – V. Agnus Dei” - Adágio (parte 1)

 

 

 

 

E ele não descansou aí. Seus últimos quartetos para cordas – angulosos, desconcertantes, dificílimos de tocar e, na época, de ouvir – são hoje considerados os precursores, os primeiros acordes, da música moderna. Sua complexidade só foi igualada, anos mais tarde, nos quartetos para cordas do Béla Bartók. O crítico Edward Said escolheu os últimos trabalhos de Beethoven como protótipos do “estilo tardio”, aquelas zonas de criatividade excêntrica e isolamento pessoal (no caso de Beethoven, agravado pela surdez) a que certos artistas ascendem, quase sempre deixando público perplexo e críticos incompreensivos para trás. E que só são redimidas quando o artista não está mais aí para ouvir as desculpas, já que todo estilo tardio é prelúdio de morte. Beethoven também foi o protótipo do artista que não se contenta em ser pioneiro uma vez só.
 

 

 

Como o Miles Davis. Que não chegou a ser um dos que revolucionaram o jazz no fim dos anos 40 e começo dos 50, com o “be-bop”, embora tenha participado de algumas gravações com Charlie Parker e outros pioneiros do novo estilo, mas liderou a revolução seguinte.

Reuniu um grupo de músicos jovens como Lee Konitz, Gerry Mulligan e John Lewis num noneto com tuba e trompas para tocar os arranjos de Mulligan e, principalmente, de Gil Evans, baseados no trabalho inovador deste para a banda de Claude Thornhill.

 

Nascia o jazz “cool”, em que as experiências com tonalidades e variações cromáticas coletivas valiam tanto quanto os solos, e era uma projeção da maneira de tocar do próprio Miles, com seu trompete sem vibrato e sua distribuição reflexiva de espaços numa frase. O “cool” foi a base do que se convencionou chamar de jazz da Costa Oeste, predominantemente branco, mas Miles ficou em Nova York e liderou a antítese do que ele mesmo tinha criado, o “hard bop”, ou um bop ainda mais quente do que o original. Depois de gravar alguns discos históricos (Miles Ahead, Sketches of Spain, Porgy n’Bess) com uma grande orquestra e arranjos luxuriantes de Evans, que lhe valeram tanta popularidade e dinheiro que ele poderia muito bem ter se acomodado por aí, Miles fez outra revolução.

 

Entrou num estúdio com um grupo bem selecionado e apenas alguns esboços tonais sobre os quais improvisar e fez um dos discos definitivos da história do jazz, Kind of Blue – diferente de tudo que tinha feito antes. O estilo tardio de Miles foi a sua fusão do jazz com o rock. Confesso que fui um dos que ficaram para trás quando ele começou a usar tranças e sandálias e a tocar com a garotada. Mas acho que Beethoven o entenderia.

 

[Álbum “Kind of  Blue” lançado em 1959. Embora tenha havido várias contestações, o disco tem sido citado como o álbum de Miles Davis mais vendido, bem como o álbum de jazz mais vendido da história. Acompanham, entre outros, Jimmy Cobb (bateria), John Coltrane (sax tenor) e Bill Evans (piano)].

 

 

 

 

Onde entra a Elizeth Cardoso nesse trio? Ela também foi multipioneira, ou pelo menos pioneira duas vezes. Era uma cantora popular clássica, com grande prestígio, mas não se poderia descrevê-la como inovadora.

 

A chamavam de “Divina”. Tinha um estilo mais antigo do que o de cantoras “cool” que começavam a surgir na época, como a Maysa. Mas foi dela a voz que, junto com o piano, a regência e os arranjos de Antonio Carlos Jobim, as composições de Tom e Vinicius de Moraes e a batida diferente do violão de João Gilberto no LP Canção do Amor Demais, de 1958, inaugurou a bossa nova.
 

E, como o Miles Davis, depois de participar de uma revolução, ela liderou a contra-revolução. Em 1965 o disco Elizeth Sobe o Morro trouxe um reconhecimento inédito a compositores do samba tradicional como Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Nelson Sargento, além de Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho. Elizeth só difere de Ludwig e de Miles porque não teve um estilo tardio. Foi a mesma, divina, até a última nota.

 

 

 

 

Abaixo, na íntegra, os discos: “Elizeth sobe o morro” e "Canção do amor demais"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

por Hermínio Bello de Carvalho

 

 

Eu acrescentaria às ousadias e riscos de Elizeth o fato de estar sempre antenada aos novos compositores. Vamos encontrá-la, nos primórdios da carreira, anunciando a sua modernidade, ao gravar Custódio Mesquita. Que antológica sua gravação do “Noturno em tempo de samba”, com versos de seu então namorado Evaldo Rui. Depois, já próxima dos 70 anos, e debilitada pelo câncer, gravou um disco exemplar ao lado do violão de um menino que descobriu e lançou quando ele tinha 13 anos: Rafhael Rabello.

 

 

Noturno” (Custódio Mesquita/Evaldo Rui) # Elizteh Cardoso. Copacabana, 1957.

 

 

 

 

E como não citar as turnês com Radamés Gnattali e a jovem Camerata Carioca? Ela encantando novas e jovens plateias com um repertório de altíssimo nível, sempre atenta ao novo. Não, não inventou a bossa nova. Esse mérito é de João Gilberto. Apenas forneceu a matriz ao movimento ao gravar o LP já citado pelo Veríssimo, revelando a dupla Antonio Carlos Jobim/Vinicius de Moraes.

 

 

Deu-me o privilégio de dirigi-la naquele memorável concerto de 1968 no Teatro João Caetano, ao lado de Jacob do Bandolim, seu descobridor, e ladeada também pelo Zimbo Trio e o Época de Ouro.

 

[Gravado em 19 de fevereiro de 1968, esse histórico show no Teatro João Caetano do Rio de Janeiro, teve como objetivo levantar fundos para o Museu da Imagem e do Som. Idealizado por Ricardo Cravo Albin e dirigido por Hermínio Bello de Carvalho, o show foi gravado e posteriormente lançado em disco (LP duplo). Logo depois do sucesso do espetáculo, Elizeth realizou excursão pela América Latina com o Zimbo Trio].

 

 

 

 

 

 

 

 

E ei-la dirigida por Bibi Ferreira, Millôr Fernandes, ei-la revelando João Nogueira e todos os compositores do “Rosa de Ouro”, numa hora em que o samba carioca estava um tanto ou quanto sem espaço nos meios de comunicação.

 

E que sublime encontrá-la em duo com Ciro Monteiro! Ou cantando Villa-Lobos e Cláudio Santoro em seus discos, ou terçando vozes com Nelson Cavaquinho, que pela primeira vez registrava em disco sua voz e a célebre batida “galope” ao violão no “Elizeth sobe o morro” (1965).

 

 

Clementina e Cartola, por que não? Ela gravou ao lado dos dois. Não há porque não achar sublime ouvi-la, minimalística, apenas com o violão de Paulinho da Viola (e a caixinha de fósforos de Elton Medeiros) acompanhando-a no “Minhas madrugadas”, de Candeia.

 

Minhas madrugadas” (Paulinho da Viola/Candeia) # Elizeth Cardoso.

 

 

 

 

Villa-Lobos? Ouçam a “Melodia sentimental”, agora com as cordas clássicas de Turíbio Santos, num Concerto para a Juventude da TV Globo, o público berrando, uivando, pedindo bis.

 

 

 

 

E as faixas que gravou com Baden Powell, seu afilhado musical? E os versos de Paulinho Cesar Pinheiro, que ela embelezou em inúmeras faixas nos discos que tive o privilégio de produzir para ela? E os modernos compositores que ela os inclui em seu repertório? Falo de Chico Buarque, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Djavan, Caetano Veloso, Joyce, Paulinho da Viola – e também de alguns então iniciantes na carreira, como o paraense Vital Lima. E, lá atrás, Pixinguinha, Ari Barroso, o já citado Custódio Mesquita, Noel Rosa – todos os chamados monstros sagrados da MPB.

 

 

 

 

Não inventou a roda, mas nos ensinou como fazê-la girar com mais beleza e sinuosidade. Como dizia Chico Buarque, “Elizeth é a nossa cantora mais amada. Voz de mãe, mãe de todas as cantoras do Brasil”.

 

 

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Fonte:

- Hermínio Bello de Carvalho - Oficina de Coisas e Reparos nº 9.

- Site # Radinha

- Site YouTube

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Comentário de Gregório Macedo em 14 março 2013 às 3:17

Percepção e sensibilidade, atributos que conferem a essa dedicada pesquisadora a capacidade de estabelecer paralelos os mais surpreendentes no universo musical (e não só nele, é bom que se frise!). Tive a satisfação de passar horas a ouvir o que o post apresenta, até mesmo o Jazz, por quem, confesso, nunca morri de amor.

O Chico diz que Elizeth é a mãe de todas as cantoras do Brasil. Certíssimo.

Beijos.

Comentário de Laura Macedo em 21 março 2013 às 23:55

Gregório,

Já comentei com você, aqui em casa, que a Oficina de Coisas e Reparos do Hermínio Bello de Carvalho é fantástica em todos os sentidos e, principalmente, pela reciprocidade de informações. Fofinho, adorei seu comentário. Deixo o link da participação dos outros comentaristas lá no blog do LNO (Luis Nassif Online).

Beijos

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