O sobrado onde moravam, em Piracuruca, tinha um corredor lateral, que dava acesso ao quintal. Era o espaço onde os dois batiam bola. De repente, o de dez anos reteve a pelota sob o pé e ficou a assuntar. O outro, de nove anos, protestou: "Vamos lá, cara!". Ao que o de dez berrou: "Não está ouvindo?! O rádio está dando que assassinaram o presidente Kennedy!" (Conhecia Kennedy em razão de ler "O Cruzeiro", de que o pai era leitor, e de um filme que uma equipe, ao que parece da Aliança Para o Progresso, itinerante, exibira numa das muitas praças de Piracuruca - documentário em que se defendia com unhas, dentes e garras a participação dos EUA na guerra do Vietnã).

Mas o que ressaltava, para ele, da figura de Kennedy era a defesa dos direitos civis. A discriminação imperava notadamente nos estados do sul dos EUA, onde pululavam os campos de batalha: a maioria branca fincava o pé, afrontando as leis federais que, por exemplo, determinavam o livre acesso dos negros às escolas públicas. E Kennedy firme, resoluto em busca de direitos iguais. E agora?

Pensou: será que um dia essa situação mudará? Será que um dia esse lance de sexo, crença, cor da pele será irrelevante? Será que um dia um negro concorrerá, com reais possibilidades, à presidência dos EUA? Será?

"Peraí, cara, você vai ficar aí parado o dia todo?!! Vamos jogar!"

E retomaram, então, as lides futebolísticas.

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