Brasil cai em ranking global de inovação

LILIAN MILENA
Da Redação - ADV


Inovar significa aplicar conhecimento em processos de produção e serviços aperfeiçoando o que já existe, ou ainda, criar novas ferramentas capazes de melhorar a competitividade no mercado.

Atualmente o Brasil é responsável por 2% das publicações científicas no mundo, e por 0,2% das patentes – isso significa que a inovação no país é 10 vezes menor que a produção científica. E, sendo um país que inova menos, tende a ter mais dificuldades para competir no mercado.

Em abril, o jornal britânico The Economist divulgou o Índice Global de Inovação (2004-2008) onde o Brasil é o 49º colocado entre um grupo de 82 países – o Estado caiu uma posição desde o último levantamento feito para o período de 2002-2006 ficando atrás de países emergentes como Argentina (42ª) e México (48ª).

De acordo com o relatório, a China subiu da 59ª para 54ª posição e a Índia saltou da 58ª para a 56ª. Para o próximo período (2009-2013) a previsão é que a China alcance o 46º lugar, a Índia o 54ª e o Brasil mantenha sua posição.

O ranking produzido pela Economist Intelligence Unit, mede o desempenho dos países considerando o número de patentes registradas nos Estados Unidos, Europa e Japão, além de fatores como pesquisa e desenvolvimento, e nível técnico da força de trabalho.

Patentes

O presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), João Fernando Gomes de Oliveira, é otimista quanto ao desempenho nacional, ao contrário da pesquisa britânica. Isso porque as patentes inscritas por pesquisadores brasileiros dentro do país é maior do que as inscritas nas regiões escolhidas pelo estudo.

“O Brasil vem aumentando as patentes no INPI [Instituto Nacional de Propriedade Industrial], gerando conhecimento de forma crescente. O grande gargalo hoje é o posicionamento das empresas no sentido de voltar suas estratégias para priorizar a inovação. No entanto, mesmo que isso não ocorra no médio prazo, o desenvolvimento do país acontecerá no longo prazo, incentivado pelas novas empresas e núcleos produtivos [parques tecnológicos]”, explica.

Dados do INPI apontam que no ano de 1997 foram inscritas no país 1.847 patentes. Em 2000, a instituição chegou a aprovar mais de 6.400 inovações. Já em 2007 (últimos dados disponibilizados), foram inscritas 1.855 patentes.

Quanto ao volume de pedidos brasileiros feitos no exterior, via Tratado Internacional de Cooperação de Patentes (PCT, na sigla em inglês), foram realizadas 264 solicitações no ano de 2005 e 313, em 2006 – último ano disponibilizado pelo INPI.

Oliveira ressalta que o fato do Brasil ter decaído um ponto no ranking global da inovação não significa que tenha ficado estagnado ou retrocedido tecnologicamente. Em comparação aos demais países, o Brasil apenas cresceu menos.

“É mais fácil e rápido para o pesquisador inscrever sua inovação dentro do país do que internacionalmente. Assim, como o relatório da The Economist leva em consideração o número de patentes inscritas nos Estados Unidos, Europa e Japão, é natural que os países dessas três regiões tenham maior número de inovações pela proximidade que têm das instituições deles”, argumenta. Os cinco primeiros países do índice da The Economist são: Japão, Suíça, Finlândia, Alemanha e Estados Unidos, respectivamente.

O presidente do IPT acrescenta que o Brasil vem aumentando sua produção científica acima da média mundial. Dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), publicados em 2008, mostram que em dez anos a produção científica brasileira cresceu 133%, perdendo apenas para a China, entre os países emergentes – as publicações chinesas quintuplicaram no mesmo período.

Incentivadores

Publicações científicas não significam aplicação direta de tecnologia no processo produtivo (inovação), mas no médio e longo prazo esses trabalhos terão impacto no crescimento do país.

Para o diretor executivo da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), Olívio Ávila, o Brasil precisa acelerar a aplicação de conhecimento nas indústrias, se quiser alcançar as nações que dominam o mercado global. Atualmente, o Brasil responde por apenas 1,25% do comércio mundial.

“O principal fator que leva uma empresa a inovar, sem dúvida, é a pressão do mercado. No entanto, historicamente, o país sempre teve um regime de comércio voltado para o mercado interno, de menor pressão, sem uma grande preocupação em sedimentar tecnologias desenvolvidas para competir no mercado externo”, explica.

O Brasil possui um grupo importante de empresas de grande porte que são ícones na inovação, como Petrobras, Embraer, Braskem e Vale do Rio Doce, mas são poucas em relação ao total de companhias no país. Dessa forma, Ávila aposta em incentivos do governo, do trabalho de universidades e institutos de pesquisa. Portanto, uma troca ampla de conhecimento entre a academia e os setores produtivos, mas sempre ressaltando que o principal agente impulsionador de inovação, em todo o mundo, é o mercado.

“A crise econômica mundial poderá afetar os investimentos em inovação nas empresas. Por outro lado, os países já perceberam que para continuar competindo não podem parar de criar novas tecnologias. Por isso investir maciçamente em inovação está sendo uma estratégia chave para que as empresas se recuperem da crise”, completa.

O relatório do jornal britânico explica que haverá diminuição dos investimentos em inovação nos próximos anos por conta da crise financeira global. Em 2007 o Economist previa um aumento médio de 6% na performance global entre 2007 e 2011, agora a expectativa é de crescimento médio de 2% para o período 2009-2013.

Apoio público

Segundo o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Luís Fernando Tironi, a inovação deve partir da iniciativa privada e contar com o suporte de políticas governamentais.

Tironi entende que, como a produção de conhecimento no Brasil ocorre em sua maioria dentro das universidades, é preciso maior sinergia para que a inovação aconteça nas empresas e, ao mesmo tempo, disposição dos setores produtivos em criar tecnologias mais inovadoras, menos incrementais.

“Não se deve minimizar a importância das empresas nos índices de inovação – dados da Pintec [Pesquisa de Inovação Tecnológica do IBGE] mostram que 20% das novas tecnologias são produzidas dentro das empresas –, mas são poucas as inovações feitas no Brasil que, ao mesmo tempo, são novidades para o mundo”, argumenta.

O pesquisador reconhece que nos últimos anos o Brasil avançou merecendo destaque nos setores de energia, agronegócio e indústria aeronáutica, graças à formação de institutos como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), por exemplo. Mas alerta: “embora o país tenha avançado, precisamos acelerar o passo porque parece que nossos parceiros estão em velocidade maior”.

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