LILIAN MILENA
Da Redação - ADV
Nas próximas duas décadas o Brasil necessitará investir US$ 2 bilhões ao ano para recuperar áreas que sofreram desertificação no Nordeste, a fim de evitar a migração em massa. O levantamento foi feito pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), para o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PAN).
Entre 1991 e 2000 cerca de 1 milhão de pessoas deixaram as regiões rurais em áreas suscetíveis a desertificação no país. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), aponta que se nada for feito, em 40 anos mais de 500 mil nordestinos terão abandonado suas terras em direção a Amazônia e Centro-Oeste.
O responsável pela Coordenação de Combate à Desertificação do MMA, José Roberto de Lima, explica que o fluxo de recursos para mitigar os impactos ambientais será melhor estabelecido a partir da conclusão do Plano de Ação Estadual (PAE) que deverá ser elaborado pelos 11 estados com áreas de risco no país: todos da região Nordeste, além de Minas Gerais e Espírito Santo.
Cenário
Atualmente mais de 1.400 municípios brasileiros sofrem com o fenômeno, englobando uma área de 66 milhões de hectares de terras. A desertificação é desencadeada, principalmente, por ações humanas como mineração, tecnologias inadequadas de manejo de solo, queimadas e desmatamentos, sendo que as regiões onde é menor a ocorrência de chuvas e com alta incidência de calor, como o semi-árido, são mais suscetíveis ao processo geológico.
Dados do MMA apontam, ainda, que os espaços mais prejudicados com a desertificação estão nos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e de Minas Gerais – juntos abrangem a área de 1.338.076 quilômetros quadrados (15,72% do território nacional) com 32 milhões de habitantes (35,15% da população do país).
A partir do PAE os estados regularão porcentagens a serem investidas anualmente para a aplicação de técnicas agrárias sustentáveis e recuperação dos solos. Os recursos também deverão ser supridos por entidades financeiras internacionais. Em janeiro de 1998, após um encontro sobre desertificação em Buenos Aires, Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Equador e Peru pediram assistência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para recuperar áreas degradadas.
A previsão do ministério é que todos os estados concluam o PAE até agosto de 2010 – Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte são os que mais avançaram nos projetos.
Produção sustentável
O pesquisador e especialista em desertificação da Embrapa Semi-Árido, Iedo Sá, diz que os problemas relacionados ao fenômeno geológico podem ser solucionados com a aplicação de tecnologias de manejo sustentáveis. Sá acompanhou a formulação do plano do estado pernambucano de perto e destacou algumas medidas para recuperar espaços improdutivos.
Cerca de 80% do território de Pernambuco é de clima semi-árido. O material orgânico que recobre o solo da região é pobre e as queimadas feitas pelos pequenos agricultores acaba sendo uma ferramenta barata para limpar o local do plantio. Além disso, a expansão acelerada da agricultura mecanizada no Vale do São Francisco também compromete a qualidade do solo – nessas localidades são registrados descumprimentos da lei ambiental que exige a manutenção de 20% da floresta nativa em cada propriedade.
As faixas de proteção da biodiversidade são importantes, pois garantem a sobrevivência de espécies polinizadoras, e com a expansão da área irrigada, esses animais tendem a desaparecer prejudicando a recomposição do solo. “Juntando a questão do clima semi-árido e a baixa ocorrência de chuvas, você dá início ao processo de desertificação”, completa Sá.
Ações sugeridas
Dentre as técnicas que devem ser aplicadas para frear a degradação do solo está a diminuição da quantidade de água utilizada nas plantações trocando modelos de irrigações centrais por sistemas de irrigações localizadas por gotejo.
A segunda proposta é ampliar o manejo florestal sustentável feito com base na relação entre o tempo que a vegetação nativa necessita para se recuperar e o tamanho da propriedade. “Digamos que você precise de 15 anos para que a vegetação cresça novamente chegando a um nível muito próximo do que foi encontrado antes da exploração. Então, dividimos a propriedade em 15 áreas que serão trabalhadas uma de cada vez – a primeira área no primeiro ano, a segunda área, no segundo ano, e assim por diante”, explica Sá.
Quando o sistema estiver no 15º ano, a primeira área já estará recuperada. E em caso de propriedades pequenas o modelo de rotação poderá ser aplicado por grupos de agricultores formando associações.
O segundo maior problema que o estado de Pernambuco precisa superar para barrar a formação de desertos está na região do Araripe, onde se localizam 15 municípios. No local é extraída a gipsita, minério utilizado para a produção de gesso e que atende a 95% do consumo do país. Além disso, as olarias (fornos utilizados para essa indústria) são alimentadas com lenha extraída da mata nativa.
Nesse caso a Embrapa recomenda a produção de florestas energéticas – áreas de plantio criadas apenas para alimentar as indústrias e o consumo domiciliar, pois na região é comum o uso do fogão a lenha.
Refugiados ambientais
A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que as perdas econômicas no Brasil podem chegar a US$ 5,6 bilhões ao ano. Os impactos da seca e arenização do solo já foram sentidos ao longo da história do nordeste, um exemplo é a criação de gado que migrou para o sul e norte. A pesquisa realizada pela universidade mineira e Fiocruz aponta ainda que até 2050 o Produto Interno Bruto (PIB) da região será decrescido em 11,5%, isso porque as terras cultiváveis encolherão drasticamente – a desertificação pelo mau uso da terra será potencializada pelo aumento da temperatura que castigará as regiões mais próximas do equador.
Segundo a ONU a desertificação atinge 33% da superfície do planeta – as áreas afetadas pelo fenômeno abrigam mais de 2,6 bilhões de pessoas, ou 42% da população mundial, lembrando que 22% da produção de alimentos no mundo são oriundas de locais suscetíveis à desertificação. A organização também estima que até 2020 mais de 60 milhões de pessoas serão obrigadas a emigrar da África subsaariana para a África setentrional e a Europa a procura de terras produtivas.
Para acessar o estudo da UFMG e Fiocruz, clique aqui.
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