Parafraseando Lampedusa, a gente se surpreende descobrindo que a vaidade do brasileiro ainda é maior que a sua miséria... (se bem que Lampedusa se referia ao siciliano e nem no auge de uma epifania teria expressão adequada a este torrão da América latina) Brasileiro acha o fino debochar do pobre e escancara a própria pobreza na mesa e nos favores alheios...acha chic o comportamento de dono de senzala e diminuir o preto, ainda que tenha a pele escura e o cabelo duro... se diminui e ridiculariza desconhecendo a própria história...

Come de boca aberta à mesa, abusa da hospitalidade, fala errado, escreve errado e pensa errado mas acha elegante imitar e criticar a fala errada de quem não teve oportunidades e comete  o erro crasso de ser medíocre acerca dos erros ditados pela ignorância de quem como ele não teve a possibilidade de fazer da imbecilidade uma opção continuada.

A gente se surpreende com o brasileiro gay que sorri com superioridade ao falar do veado puto que se prostitui e apanha na esquina, da mulher que diminui as feministas e as reduz a lésbicas de sovacos cabeludos ao contrário de suas destacadas beleza e recato que nada mais são que dependência econômica, prostituição de luxo e  auto negação.

A gente se surpreende descobrindo que o Brasil se redescobre branco, rico, e letrado, contra os números, contra as evidências, contra a própria imagem refletida no outro.

O brasileiro reconta a própria história todo dia e se coloca à margem dos fatos...

Os anos passam e o Brasil colônia de senhoras elegantes que piolhentas e desdentadas sufocavam em vestidos de veludo europeu em meio à tropicalidade se renova em elegantes damas cujo desprestigiado cérebro é adornado por cabeleiras alisadas e rostos esticados; cobertas de grifes, desfilam bocas esgarçadas e sorrisos néscios.

O Brasil surpreende  cobrando Justiça, Ética e moralidade quando acha  up to date rebaixar o outro, ser rico, dono de senzala e  tendo como bem sucedido  o cara que paga a conta dos fracassados que irão lhe virar a cara no dia em que não puder mais. Bem sucedido é o empresário que sonega, descumpre a lei, remete dinheiro para o exterior e com uma Bíblia na mão e uma bandeira às costas defende a moralização do país- uma limpeza ética ou devo dizer étnica...Um novo Brasil lindo, louro, europeu e encaixado.

Porque classe mesmo é pagar para aparecer, pagar para ser notícia, pagar para ter amigos, pagar...E se você não tiver dinheiro...ahhh meu amigo...você não é brasileiro, não tem licença para frequentar a casa grande....E se você tiver a pretensão da memória e do pensamento e porventura lhe ocorrer sentar entre os senhores e cometer a gafe de evitar a frivolidade maliciosa ...ahhh meu amigo...a chibata  da língua afiada lhe espera.

O brasileiro surpreende pela joie de vivre, pelo savoir faire e pelo fair play de não se julgar brasileiro. É aristocrático na merda e admiravelmente otimista quanto à própria certidão de nascimento....o brasileiro surpreende até na previsibilidade do autoflagelo.

 

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Comentário de Mauro em 11 março 2019 às 0:30

Seu texto de retorno reaviva o prazer de ler suas impressões sobre a vida. Excelente o passeio por nossa formação como povo brasileiro. 

Comentário de Mirele Alves Braz em 11 março 2019 às 12:51

Caro Mauro, sempre é reconfortante receber teu carinho por aqui! Um grande abraço e excelente semana

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