Cadeia energética III: tecnologia e instituições

"entre as necessidades e os recursos energéticos, temos um conjunto de tecnologias – de produção, transporte e armazenamento, transformação e utilização – que estrutura as cadeias energéticas ao longo do tempo, definindo um conjunto de possibilidades, cujo aproveitamento, tanto em termos de timing quanto de intensidade, é definido a partir das instituições"

Como vimos nas duas postagens anteriores (*), existe uma longa cadeia de operações e processos entre a satisfação das nossas necessidades energéticas e os recursos naturais à nossa disposição.

A relação entre essas necessidades e esses recursos não é estática no tempo e homogênea no espaço; na verdade, ela varia com o tempo e ao longo do espaço socioeconômico. Em outras palavras, essa relação é dinâmica no tempo e heterogênea no espaço.

Esse dinamismo e heterogeneidade é fruto, em primeiro lugar, do próprio conjunto de necessidades e recursos, que varia de lugar para lugar e de tempos em tempos.

À primeira vista, não é de se estranhar que uma sociedade que detenha uma vasta base de recursos naturais se relacione com eles de uma forma muito mais perdulária, em termos energéticos, do que uma outra caracterizada justamente pela escassez desses recursos.

Por outro lado, espera-se que uma sociedade acostumada a padrões elevados de conforto e desenvolvimento econômico intensivo em energia incorpore necessidades energéticas muito maiores do que aquela habituada a padrões frugais de conforto e desenvolvimento econômico menos intensivo.

Os Estados Unidos poderiam servir de exemplo de uma sociedade que a partir de uma base de recursos naturais generosa construiu um amplo conjunto de necessidades energéticas associadas a um desenvolvimento econômico intensivo em energia e a um elevado padrão de conforto.

Por outro lado, a Europa, com sua estreita base de recursos e suas necessidades relativamente frugais, surgiria como um contraponto à perdulária relação americana com os seus (e dos outros) recursos energéticos.

Contudo, essa seria uma visão um tanto impressionista, pode-se até dizer simplista, das especificidades locais e temporais da relação entre recursos e necessidades energéticas.

Para entender melhor a construção dessas especificidades é preciso lembrar que entre as necessidades e os recursos energéticos, temos um conjunto de tecnologias – de produção, transporte e armazenamento, transformação e utilização – que estrutura as cadeias energéticas ao longo do tempo, definindo um conjunto de possibilidades, cujo aproveitamento, tanto em termos de timing quanto de intensidade, é definido a partir das instituições.

É justamente nessa combinação entre tecnologia e instituições que podem ser encontradas as explicações para o dinamismo temporal e para a heterogeneidade espacial da relação entre recursos e necessidades energéticas.

Novas tecnologias não só criam novas necessidades, como também viabilizam novos recursos. O início do século XX foi marcado pela introdução de uma ampla gama de aparelhos eletrodomésticos que estabeleceu um padrão de conforto nos lares que ampliou as necessidades energéticas. Assim como, a introdução do motor a combustão interna, na segunda revolução industrial, viabilizou os automóveis e introduziu um conjunto de necessidades energéticas associadas ao transporte individual.

Assim, se em uma ponta temos as tecnologias de uso – lâmpada, geladeira, ar condicionado, forno elétrico, enceradeira, etc. –, do outro, temos toda uma cadeia elétrica que vai, ao final, intensificar o uso dos recursos naturais para se gerar a eletricidade que vai ser consumida nesses aparelhos.

O mesmo vale para o motor a combustão interna que, por um lado, viabiliza o carro e, por outro, amarra toda uma cadeia energética - que passa pela refinaria e chega à produção do petróleo - necessária a se obter a gasolina para se colocar nesse carro.

Se contemplarmos os tempos mais recentes, vamos constatar que quando, em uma ponta da cadeia, se introduz um motor que não utiliza gasolina, mas usa álcool, introduz-se, na outra ponta da cadeia, um novo recurso energético, a cana. Portanto, o novo motor corresponde a uma nova fonte (o álcool), a um novo centro de transformação (a destilaria) e a um novo recurso (a cana), por conseguinte, a uma nova cadeia energética. Uma cadeia distinta daquela da gasolina, que vai atender a mesma necessidade (transporte individual), porém com outro conjunto de elos.

Desse modo, a evolução tecnológica associada a cada elo da cadeia energética não se restringe a esse elo, mas interage fortemente com a evolução do conjunto de tecnologias dessa cadeia. Isto significa que se, por um lado, as tecnologias de uso viabilizam a satisfação de determinadas necessidades e, até mesmo, criam novas, por outro, elas também condicionam a evolução das tecnologias de transformação, na medida em que definem as características físicas das fontes de energia a serem utilizadas por essas tecnologias de uso. Essa definição não se restringe às tecnologias de transformação e alcançam as tecnologias de produção.

Assim, um motor a combustão interna que utiliza apenas gasolina, amarra toda a cadeia energética, criando uma demanda por uma determinada transformação (refinaria) e por uma produção definida (petróleo). Se o mesmo motor puder usar também álcool, o atendimento dessa necessidade pode ser feito também por uma outra cadeia que inclui uma transformação distinta (destilaria) e uma produção diferente (cana).

Desse modo, a tecnologia de uso flexível, em relação ao combustível que ela usa, permite a flexibilidade da toda a cadeia energética.

Quanto mais flexível a tecnologia de uso mais flexível a cadeia de suprimento da fonte utilizada por essa tecnologia. E isto pode ocorrer em um motor de carro, em uma caldeira, em um forno industrial. Isto significa que podemos ter caldeiras que podem utilizar gás natural, óleo combustível, eletricidade e resíduos vegetais. Cada uso desses corresponde a uma cadeia: gás, petróleo, energia elétrica, biomassa.

Contudo, não é apenas o aumento da flexibilidade que caracteriza as trajetórias tecnológicas da energia, a melhora constante da eficiência energética dos equipamentos e processos também é uma marca dessas trajetórias.

Desde a Revolução Industrial, há um aumento constante dos rendimentos das tecnologias de uso, de transformação, de transporte e de produção de energia. Isto implica na redução continuada das perdas ao longo da cadeia e, portanto, na satisfação das crescentes necessidades sem o aumento proporcional do consumo dos recursos. Isto sem considerar, o próprio incremento da nossa capacidade de identificar e mapear esses recursos.

Desse modo, a relação entre necessidades e recursos energéticos é extremamente dinâmica; principalmente, graças à tecnologia. Nesse sentido, fazer previsões sobre a evolução futura dessa relação é um desafio dos mais complexos. Grande parte dessa complexidade vem justamente da complexidade embutida nas previsões tecnológicas.

Porém, os problemas das prospecções envolvendo recursos e necessidades energéticas não se resumem à tecnologia.

Essa última é capaz de colocar à nossa disposição uma lâmpada compacta que é muito mais eficiente do que uma lâmpada incandescente tradicional. Porém, a difusão da nova e mais eficiente tecnologia de iluminação pode ser tremendamente acelerada a partir de uma política governamental que incentive o seu uso e penalize a tecnologia tradicional. É isto exatamente o que está acontecendo na Comunidade Econômica Européia neste momento.

O mesmo pode acontecer com as tecnologias de geração de eletricidade, a partir dos incentivos dados a uma delas - por exemplo, geração eólica -, em contraposição às penalidades dadas a outras - por exemplo, as que utilizam combustíveis fósseis.

As instituições também podem atuar sobre as necessidades, incentivando umas - por exemplo, o transporte coletivo -, e penalizando outras – por exemplo, o transporte individual.

As instituições podem também, por um lado, incentivar o uso de determinados recursos - por exemplo, eólica, solar, resíduos de biomassa - e, por outro, até mesmo, interditar o emprego de outros - por exemplo, o petróleo do Alasca, a hidroeletricidade da Amazônia, o urânio/nuclear.

Além das incertezas relativas à atuação institucional, que dificulta as previsões sobre a evolução da relação necessidades versus recursos energéticos, cabe lembrar que essa atuação tem um forte caráter local. Esse “localismo” das instituições acaba sendo decisivo para o surgimento das heterogeneidades características dessa relação. O que dificulta ainda mais a sua modelagem e a confecção de diagnósticos e prognósticos sobre o tema energético.

Por isso tudo, meus amigos, falar sobre como vão evoluir as nossas necessidades energéticas e os recursos colocados ao nosso dispor é um dos temas mais difíceis de serem analisados.

Na verdade, o que nós temos é um quebra-cabeça que pode ser montado de várias maneiras, a partir de um conjunto de peças que varia ao longo do tempo e de lugar para lugar.

Nesse sentido, há uma ampla gama de necessidades, de recursos, de tecnologias e de instituições, que podem ser reunidos de várias maneiras distintas. Não há uma maneira única e ótima de reuni-los. O que existe é uma configuração, no máximo, satisfatória, construída para atender um dado conjunto de necessidades consideradas razoáveis, a partir dos recursos naturais disponíveis e com as tecnologias existentes, e que é sancionada pelas instituições vigentes em um dado momento e em um certo lugar.

(*) Postagens relacionadas:

Cadeia energética II: a produção e a transformação da energia.

Cadeia energética I: a utilização da energia.

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