Café da manhã com notícias radioativas e baleias

Café da manhã com notícias radioativas e baleias

Hoje, preparando o café de manhã e ouvindo a rádio CBN São Paulo pensava, em meio aos afazeres matinais, que realizava, em princípio, a mesma operação fenomenal antiguíssima de aquecer a água no fogo que no ponto de ebulição a minha chaleira gasta apita (medida de alerta e segurança) e produz o vapor... Que gira turbinas e motores e locomotivas e gera energia em usinas termonucleares.

Em seguida, aproveitei a água fervente que restou na chaleira e, com um íntimo sadismo e prazer, despejei-a fumegante numa procissão de formigas ordeiras pela pia... Depois do auto-de-fé nessas formigas-operárias de morte instantânea, escorri água fria corrente para resfriar mais depressa os ovos cozidos e, ao mesmo tempo, a água escorria pelo ralo infecto levando no redemoinho as formigas queimadas.

As ondas moduladas CBN, irradiavam a via-crúcis da catástrofe nuclear no Japão com pitacos na nossa banal corrupção e má gestão política da coisa pública; pitacos de serviços de utilidade pública e pró-consumo e no mais, as chuvas e enchentes na cidade, noticiadas como se fossem eventos anuais e comemorativos do calendário católico. Nenhuma novidade..

Sei lá, em princípio, eu realizava no meu trivial café da manhã a mesma operação de aquecer água e produzir vapor que gira turbinas... Como fazem lá na usina de energia de Fukushima há trinta e tantos anos nos finalmente do aparato tecnológico-cientifíco de uma sofisticada e cara engenharia nuclear. Uso gás de cozinha que se vazar tem o perigo de explosão e fogo na minha casa e na vizinhança, todas, de paredes de tijolos; ao passo que, na usina japonesa usam, como é próprio, o combustível urânio radioativo de alta energia que se explodir e se vazar, libera para o meio ambiente letal irradiação geracional nos seres vivos, na natureza e causam uma terra desolada chernobyl e é por isso que são instalações blindadas com paredes e mais paredes grossas de aço e cimento de altíssima proteção e segurança contra desastres naturais, guerras e ações terroristas.

O calcanhar de Aquiles disso tudo foi que no antípoda Japão houve o desencadeamento de eventos naturais de grande magnitude destrutiva de difícil previsão, controle e medida das implicações em cadeia... Mesmo para o avançado país preparado e previdente que, no entanto, o cataclismo revelou à tona ações e atos previsíveis, banais, óbvios da tragicômica condição humana capitalista: a ganância corporativo-financeira que fraudou relatórios essenciais de controle, inspeção e segurança da indústria de energia nuclear, apesar de não termos notícias ainda de haraquiri de lesa humanidade de ceos, diretores, burocratas estatais, políticos, banqueiros...

Sabe-se também que abnegados heróis: trabalhadores, bombeiros, voluntários civis se apresentam e marcham para o sacrifício como que kamikazes a enfrentar o perigo em meio à fala do imperador na TV e o alto risco da contaminação radioativa e câncer na tentativa de controlar a operação dos reatores explodidos; resfriar a usina do fogo nuclear e salvar vidas, cidades japonesas, gerações futuras do planeta. (Borges, numa passagem disse: “qualquer destino, por longo e complicado que seja, consta na realidade de um único momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem é”.).

Na cozinha, depois do café com notícias radioativas, fiz uma varredura rigorosa na pia e adjacências e me certifiquei com satisfação triunfante que não sobrou nenhuma formiga viva para contar o fim da história. Então, fui dar carinho e atenção para minhas gatas. E pensei um pouco mais: que não se fala no noticiário da catástrofe do Japão de gatos e cães e aves e animais domésticos abandonados à própria sorte... Nem se fala mais da matança de baleias caçadas brutalmente, cinicamente, ilegalmente pela indústria da pesca japonesa que até invade seus santuários glaciais e tudo, para alimentar a ganância do mercado gastronômico dissimulado no marketing das boas intenções de arraigados costumes do povo japonês e de uma pretensa mistificação da caça assassina de baleias em nome da pesquisa científica.

Bem, vou resfriar minha cabeça nuclear, vou caminhar no parque nesse dia de sol ameno de dia agradável de caminhar. Pensar na vida do pintor Cézanne, cuja biografia estou lendo e que junto com van Gogh e Gauguin, todos, embebidos de traços da exotique gravura japonesa inventaram e inauguraram, a frente do seu tempo, a pintura moderna e, no entanto, viveram vidas de artistas-párias, zombados, atormentados, sem o reconhecimento artístico pelo establishment político-burguês contemporâneo. Pensar na maciça montanha sagrada de Sainte-Victoire, tão reverenciada na arte de Cézanne, a se destacar como fortaleza inexpugnável que domina a paisagem ensolarada e árida da mediterrânea Provença.

Droga! Formigas sei-lá-de-onde retomam a marcha enfileirada pela pia... Oh! Deus, oh céus... Que fazer? Se, então, minhas gatas queridas e chatinhas se alimentassem como os tamanduás... Ah! A natureza objetiva indiferente as nossas ações projetivas e ideológicas das boas intenções político-religiosas.

jc.pompeu, mar 2011

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