Nos 100 anos da morte de Euclides da Cunha, autor de Os sertões, sociedade brasileira ainda vive o drama da injustiça social, o que torna o clássico uma obra ainda necessária
João Paulo (do Jornal Estado de Minas)


“Canudos não se rendeu.”A afirmação de Euclides da Cunha em Os sertões era sinal de força de um grupo de homens e mulheres que pelejaram até a morte contra as forças militares da República. Canudos lutou até o fim. O escritor, com seu grito, percebeu que algo de novo brotava na nacionalidade. Naquela região, cercada de miséria e fanatismo, se deu a manifestação do povo brasileiro. Não a massa de tabaréus e jagunços, mas de seres capazes de heroísmo, em uma chave que não passava pelos valores tidos como universais da República e de sua política excludente e elitista. Muito se falou sobre os preconceitos racistas de Euclides, fruto da má ciência de seu tempo. No entanto, a descoberta do povo brasileiro supera, por meio da intuição genial e da arte literária sublime, seus vícios de origem. É o que torna Os sertões um livro clássico, possivelmente o mais importante da cultura brasileira em termos de realização literária, sentido social e abrangência filosófica. No entanto, pode-se ler aquela mesma frase com outro sinal, o do triste reconhecimento que, passados mais de 100 anos, o crime cometido no sertão da Bahia contra brasileiros ainda se mantém, expresso na divisão social iníqua, no preconceito, na miséria de muitos que convivem com a opulência da minoria, na concentração da posse de terras, no corte que separa as regiões como se se tratasse de dois brasis. Canudos, infelizmente, ainda vive.


Euclides da Cunha (1866-1909) morreu há 100 anos, em 15 de agosto, um domingo, assassinado a tiros pelo amante da mulher. A tragédia pessoal, que culminaria sete anos depois com a morte do filho Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, também à bala e pelo mesmo homem, se tornou um dos dramas mais conhecidos do país. Juntar as duas pontas, a da obra e a da vida, tem sido um desafio que há um século cobra estudos da inteligência brasileira. Há uma biblioteca imensa em torno de Euclides da Cunha, com linhas divergentes de interpretação e análise. Conhecer a obra é ter acesso ao período decisivo de formação do país. Entender a vida é caminho para compreensão do cenário intelectual e político que dá sustentação à obra.

Os sertões não é livro fácil. É difícil e exigente: linguagem erudita, estilo sofisticado e torneado, excesso e variedade de intervenção científica, retórica barroca, irritante visão de raça superior. Mas é obra que carrega riqueza de expressão; curiosidade em conhecer um Brasil escanteado, com armas da inteligência e de todas as formas de saber disponíveis em seu tempo; busca determinada pela justiça; esforço diligente em recuperar os erros da história; paixão pelo homem brasileiro como manifestação única. Ciência temperada com arte e intuição, é livro que foi sucesso desde o primeiro dia, dizendo-se de Euclides, às vésperas do lançamento, em dezembro de 1902, que dormiu obscuro e acordou célebre. Amado e detestado, com certeza, não muito lido hoje. Nem por isso deixou de se tornar uma fonte para outras criações, do cinema ao teatro, passando por quase todas as formas de expressão, não apenas no Brasil.

O centenário de morte de seu autor recoloca em evidência uma obra que questiona a consciência nacional e a pobreza intelectual de um tempo que se dá ao escândalo de não ler com atenção um de seus maiores escritores. Euclides da Cunha é criador de um livro que mostra o que fizemos com os brasileiros no passado. E ainda fazemos. Os sertões é obra que obriga a admitir duas realidades contudentes: a de que o país está em construção e que seu potencial civilizador está na capacidade de resistência do povo.

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