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O HISTÓRICO

Leon Carvalho, o austero diretor do Opéra-Comique (um dos dois teatros líricos mais importantes da França), quase morreu de vergonha ao ver o que aconteceu no seu teatro, quando da encenação daquela “ópera pervertida” em 1875. Na época, havia se deixado levar pelo charme do jovem compositor Georges Bizet(1838-1875), e confiando nos renomados libretistas Meilhac e Halévy, e não analisou criticamente o libreto, nem assistiu aos ensaios. Só sabia que se tratava de uma ópera nova, mas não sabia o quão revolucionária era. De forma que, principalmente quando assistiu ao segundo ato passado, como ele dizia, numa “daquelas casas”, com contrabandistas, ciganos, mulheres livres e “liberais”, bebendo manzanilla e fumando acintosamente, Leon ficou profundamente chocado. Afinal, sua casa de espetáculos era respeitável e seus frequentadores a nata da burguesia francesa – que também reagiu negativamente ao espetáculo. Oito anos depois, em 1883, Leon ainda se recusava terminantemente a reapresentar a ópera Carmen. Dizia enfaticamente: “enquanto eu dirigir o Opéra-Comique, uma cena dessas não será exibida novamente aqui!”

É ainda meio nebuloso o que se divulga sobre o que aconteceu na noite de 3 de março de 1875, quando Carmen estreava no Opéra-Comique. Certamente não teria sido o fracasso clamoroso que, depois, segundo se dizia, iria levar Bizet à morte; a nova ópera lotou o teatro, com espectadores empolgados pelo aceno da novidade e que reagiu favoravelmente durante o primeiro ato, “esfriando”, porém, nos demais.

Há controvérsias sobre a origem das dificuldades encontradas pela ópera em sua trajetória. Primeiro, tratava-se de um trabalho original demais para os aficionados da época, quando, normalmente, as peças tinham um final exemplar, moralista, em que a virtude e o bem sempre venciam o mal e o vício, ainda que às custas do sacrifício de heróis e heroínas; na Carmen, apenas um personagem possuía caráter elogiável, e era um papel secundário (Micaela) que, ainda por cima, perdia a disputa pelo “herói-vilão”.
Depois, a contextura musical mostrava-se muito densa, carregada de “harmonias ousadas”, cujo resultado acarretou ao compositor a pecha de wagneriano (os franceses ainda relutavam em aceitar a obra de Wagner). É, inclusive, bastante significativo que, na estréia, os trechos mais aplaudidos tenham sido exatamente os mais convencionais, como o dueto de José e Micaela, no primeiro ato, a canção de Escamillo, no segundo, e a ária de Micaela no terceiro. Há que se ter em conta, também, que tanto o público como os cantores, na ocasião, estavam viciados por determinados costumes: para os tenores (José), por exemplo, era estranho, na única cena parecida com um dueto de amor, contracenar com uma personagem feminina (Micaela) que não era a principal.
O tema não era apenas novo e perturbador para o público: a própria montagem oferecia dificuldades fora do comum. E se a assistência reagiu contra a apresentação de mulheres fumando, as próprias coristas relutaram bastante em aprender a manusear os cigarros, dizendo-se mesmo que para algumas a experiência acabou sendo nociva.


O desempenho do meio-soprano Celestine Marie Gallie-Marié (1840 –1905), a primeira intérprete de Carmen, também teria contribuído para chocar a burguesia presente ao Opéra-Comique. Segundo os próprios libretistas (Meilhac e Halévy), ela teria dado ao papel central da ópera uma interpretação ”demasiado realista”, mais próxima da imagem da heroína do conto de Prosper Mérimée: uma cigana sensual, destituída de qualidades morais, cuja filosofia de vida é a liberdade ilimitada, sob a única lei de seus instintos. Os libretistas empenharam-se em amenizar essas características, mas a cantora teria reagido a isso, pretendendo uma imagem mais viva.

Seja como for, e apesar dos ataques ao compositor, Camile du Locle (um dos administradores do Opéra-Comique) encomendaria outra ópera a Bizet; mas antes que o compositor pudesse entregar algo, faleceria quase três meses após a criticada estréia de Carmen. Era 3 de junho de 1875 e Alexandre César Léopold Bizet (tratado pelos familiares por Georges) desapareceria antes dos 37 anos.

Há quem atribua sua morte ao fracasso da ópera, mas isso é mera suposição, não é fato comprovado. Entretanto, é bem possível que a fria estréia da Carmen tenha contribuído para lhe afetar a saúde, que não era das melhores. Some-se a isso o fato de que Bizet se desgastou, mental e fisicamente, por ocasião dos ensaios da Carmen. Mas, na verdade, sua “causa mortis” nunca foi precisada. Bizet sofria de angina e havia tido febre reumática quando criança, males que podem ter prejudicado seu coração.

Nas vésperas de sua morte, Bizet havia assinado contrato para a apresentação de Carmen na Ópera de Viena. O espetáculo, entretanto, só se realizaria quase quatro meses depois (23 de outubro). Em Viena começa o triunfo de Carmen; depois viriam Bruxelas, Antuérpia, Budapeste, São Petersburgo e Estocolmo. A primeira apresentação da ópera em Londres dar-se-ia em 1878, passando depois para Nova York.

Finalmente, surge em Paris intensa campanha movida pela imprensa (liderada pel o jornalista Maurice Lefèvre, do jornal Clarion), em protesto à longa ausência da Carmen dos palcos da capital, já que, além de seu êxito no exterior, a ópera vinha sendo aplaudida desde 1878 em cidades do interior da França. Pressionado, Leon Carvalho aceita reprisá-la no Opéra-Comique, já que os próprios libretistas, preocupados com a opinião pública, eram também contrários à participação da “escandalosa” Galli-Marié, apontada como a principal responsável pelo fracasso da obra.

Em 21 de abril de 1883, Carmen retorna à Paris, mas com a comedida Adèle Isaac no papel-título. A produção do espetáculo, entretanto, preocupada com possíveis reações negativas da platéia, empenhou-se em amenizar as partes mais realistas da ópera. Assim, Adèle Isaac teve uma performance bem diferente de sua antecessora, comportando-se com discrição, de acordo com sua reputação de respeitabilidade. A cena da taverna de Lillas, por exemplo, transformou-se num prosaico “café”, frequentado por elegantes fregueses e comedidas dançarinas. Ainda de acordo com esse critério, simplesmente foi eliminada a violenta cena do duelo entre José e Escamillo.

A récita teve enorme sucesso, mas os tormentos de Leon Carvalho em relação à Carmen não terminaram. Carvalho foi intensamente criticado por desfigurar a obra-prima de Bizet. Novamente pressionado, o diretor da Opéra-Comique, acaba por permitir a montagem original do espetáculo. E mais, com a personagem “depravada” inicial! Galli-Marié volta triunfante ao elenco, dessa vez derrubando todas as acusações que lhe fizeram e angariando aplausos entusiásticos da crítica especializada. Finalmente Carmen vencia na França!

A ópera atingiria sua tricentésima apresentação, no Opéra-Comique, em1887, e a milésima ocorreria a 23 de dezembro de 1904. Em 25 de outubro de 1938, por ocasião do centenário do nascimento de Bizet, o Opéra-Comique levava a ópera pela 2271ª vez.

Coisas do destino, Bizet só atingiu seu grande momento nos últimos anos de vida: em março de 1873 começa a trabalhar em Carmen, terminando-a apenas no ano seguinte, tanto por dificuldades com o Opéra-Comique, como por um ataque de angina, que o obriga a refugiar-se em Bougival. E é ali que morre, em 3 de junho de 1875, três meses depois de receber a Légion d’Honneur, no mesmo dia daquela discutida estréia de Carmen.

Mas sua fascinante e voluptuosa cigana vem encantando até hoje as platéias mundiais. Personagem que se poderia classificar como a mulher total, coquete, vaidosa, sensual, comporta-se com o orgulho e a astúcia da pantera, quando acuada por seus caçadores. Carmen é mestra na manipulação do macho, mas, controvertidamente, é fêmea que se deixa arrebatar pelo amor. Seu enfrentamento final aos rogos e ameaças de Don José, a ponto de sacrificar a própria vida não abrindo mão de sua independência, é um misto de firmeza de caráter, orgulho feminino e paixão arrebatada.

Mas, além da figura extremamente humana de Carmen, outras personagens vivem uma vida real nesta obra revolucionária do teatro lírico: José, Zuniga, Micaela, Escamillo, os contrabandistas, as ciganas... Todas, figuras necessárias neste alucinante mostruário de tipos ibéricos, cuja atmosfera sonora foi criada por um francês que nenhum espanhol poderia superar.

A ÓPERA

A peça começa com um prelúdio que se constitui em uma síntese de grandes temas apresentados ao longo da ópera. O pot-pourri orquestral tem seu início com o empolgante tema que representa o desfile dos toureiros, como será ouvido no quarto ato. Segue-se uma passagem menos inflamada inspirada no tema da troca da guarda do primeiro ato (Avec la garde montante). Numa repentina modulação, a música retorna ao tema anterior, a execução da orquestra é vibrante e festiva.
Novamente atenuam-se as sonoridades e emerge, nas cordas, o tema marcial do toureador (que será ouvido no segundo ato). A orquestra repete-o majestosamente e, mais adiante, retorna, sem interrupção, ao tema inicial.
Uma pausa repentina, e toda a alegria se transforma com a brusca apresentação do sinistro tema, em tom menor, leitmotiv que sugere a sedução de Carmen e a fatalidade que ela representa. Este tema - executado por clarinetas, fagotes, pistões e violoncelos, apóia-se sobre um tremolo de violinos e violas – irá repetir-se toda vez que for insinuada a paixão que Carmen sente e provoca; ao atingir seu ponto mais estridente, é interrompido num acorde violento de toda a orquestra.
Estão preparados corações e mentes para o desenrolar da tragédia.

1) PRELÚDIO



A calma do meio-dia, na praça sevilhana, é subitamente sacudida por um distante toque de corneta. Os que ali estão – empregadas da fábrica de cigarros e soldados do quartel vizinho – voltam os olhares para a embocadura da rua.
O corneteiro surge em cena, seguido pelos tocadores de flautim, e estes antecipam o tema que vai ser apresentado, na seqüência, por um coro infantil. Os sopros da orquestra exibem-se nesta espécie de marcha-miniatura, até que um bando de crianças aparece, em alegre e desordenada imitação da nova guarda que virá render a que ali está.

2) AVEC LA GARDE MONTANTE (Com a troca da guarda)



Carmen chega à praça, juntando-se às companheiras de trabalho na fábrica. É cercada imediatamente por seus admiradores, que lhe imploram o amor. Vibrante e maliciosa, ela passa a entoar sua canção de apresentação, que, como de hábito na ópera novecentista, serve para definir o caráter e a posição fundamental que a personagem assumirá no decorrer da trama.
Esta célebre habanera está calcada numa canção intitulada “El Arreglito”, que Bizet pensou ser folclórica, embora hoje se saiba ser do compositor espanhol Sebastián Yradier (1809-1865). Na interpretação, Carmen é acompanhada alegremente por companheiras e rapazes postados ao seu redor.
Nesse instante, a cigana repara que José finge estar desinteressado nela. Isso mexe com seu orgulho. A orquestra, subitamente, prenuncia a tragédia que se aproxima, entoando a melodia do “tema do destino”, dando um ar sombrio à cena que era de pura alegria. Provocativamente, Carmen dele se aproxima, saca do seio uma flor e a atira em cima de um perplexo José.

3) L’AMOUR EST UM OISEAU REBELLE (O amor é um pássaro rebelde)



Por haver agredido uma companheira de trabalho, Carmen é detida e entregue pelo tenente Zuniga à guarda de José, que deverá levá-la manietada à prisão.
A sós com o cabo, a astuciosa jovem assegura-lhe que será solta ali mesmo, pois sabe que ele a ama. A flor que ela lhe arremessou na praça – já teria exercido seu fascínio.
José, aturdido, ordena-lhe que se cale. Mas a jovem responde com uma provocante seguidilha, dançando e cantando com as mãos amarradas atrás.
José, a quem Carmen seduz com seu canto e volteios da dança, tenta mais uma vez aquietá-la. Mas a jovem replica com a desculpa de estar falando para si mesma: não há o que censurar, neste caso.
Afinal, o cabo rende-se à tentação de Carmen. Indaga-lhe se ela também o ama, ao que a jovem assente com astuciosa graça. E volta com nova ênfase à sua canção, interrompida com o repentino aparecimento de Zuniga que traz a ordem de prisão. Carmen então combina com José sua rota de fuga. É o final do primeiro ato, que termina com o tumulto da fuga da cigana e a prisão de José, por tê-la facilitado.

4) PRÈS DES RAMPARTS DE SÉVILLE (Perto das muralhas de Sevilha)



Começa o segundo ato, que tem por cenário a esfumaçada taverna de Lilás Pastia (mencionada por Carmen na seguidilha), nos arredores de Sevilha. Misturam-se ali contrabandistas, ciganos, soldados e tipos diversos de aventureiros, todos fumando, bebendo ou conversando indolentemente.
(Esta é a cena que enrubesceu Monsieur Leon Carvalho, quando da estreia da ópera. Na montagem que mostramos, entretanto, não haveria motivo algum para o sr. Leon Carvalho se envergonhar, é uma encenação comedida, com direito até a dança flamenca.)

5) LES TRINGLES DES SISTRES TINTAIENT (As hastes dos chocalhos tilintavam)



Ainda na teverna de Lilás Pastia, acompanhado por um grupo de admiradores, o toureiro Escamillo ingressa na taverna, sob a aclamação dos presentes. Como é também sua entrada em cena, Bizet destina-lhe uma ária de possante respiração rítmico-melódica, tencionando caracterizá-lo perante o público.
Neste fragmento (que haveria de tornar-se famoso como “Canção do Toureador”), Escamillo exalta com soberba e estudada teatralidade a vida dos toureiros, figurando lances perigosos na arena, a multidão frenética a aplaudir e a esperança de um amor após a refrega.
A segunda parte desta ária faz ouvir o tema já apresentado no Prelúdio do primeiro ato e que é sublinhado pelo coro dos presentes em eloquente estribilho.


6) VOTRE TOAST (Vosso brinde)


Tendo cumprido sua pena, José chega à taverna em busca de Carmen. Todos se retiram , ficando somente ele e a cigana em cena. Carmen tenta convecê-lo a desertar e acompanhá-la com seu bando numa vida de aventuras e perigos. José refuga, não pode abandonar o exército, nem sua mãe. Carmen o chantageia emocionalmente, diz-lhe que ele não a ama. A essa provocação, José mostra-lhe a flor que ela lhe atirara há tempos, murcha, mas ainda guardada junto ao coração. É o dramático momento da mais importante ária destinada a José em toda a ópera. Conhecida como a "ária da flor", ardente, empolgante, mostra o cabo em apaixonada declaração de amor: Carmen, te amo!

7) LA FLEUR QUE TU M’AVAIS JETÉE (A flor que me atiraste)



Se até aqui o autor recheou sua obra com alusões a emoções fortes, ao amor arrebatado, ciumento, prenunciando a tragédia, na abertura do terceiro ato ele alude ao amor romântico, lírico, suave, a um amor não de Carmen ou José, mas a um amor de Michaela - que tem presença marcante neste ato. O Intermezzo do terceiro ato é uma das mais belas peças de toda a obra de Bizet.
O ato se desenrola em cenário soturno nas montanhas, no refúgio dos contrabandistas. Um tema de marcha, acompanha o aparecimento gradativo das personagens em cena; depois, todos entoam uma canção moldada nesse tema, de contornos estranhamente sombrios. Os marginais combinam a forma de introduzir o contrabando no país e os cuidados que deverão tomar. No centro separam-se as vozes de Carmen, Frasquita, Mercedes, Dancaire e Remendado, num esquema harmônico de rica e surpreendente concepção.
Ao final da cena, Carmen (que já está apaixonada pelo toureiro) tem um ríspido diálogo com José, no qual declara que já o ama menos do que antes, pois sente-se sufocada por seus ciúmes, quer ser livre novamente. José lembra de sua velha mãe que ainda o julga honesto. Carmen diz-lhe para correr para os braços da mãe, pois decididamente ele não é homem para ela. Cheio de ódio, José ameaça matá-la se o abandonar.

8) INTERMEZZO - ÉCOUTE, ÉCOUTE, COMPAGNON (Escute, escute, companheiro)



Separadas do resto do bando, Frasquita e Mercedes consultam as cartas, na busca de vestígios de seu futuro. Elas desenvolvem gracioso dueto, prognosticando conquistas amorosas compensadoras: um belo e galante jovem, um velho, mas rico cavalheiro...
Carmen aproxima-se e também consulta seu destino nos naipes: verifica sombriamente que é a morte que a aguarda em breve. Ainda de acordo com as cartas, José deverá segui-la nesse próximo passo.
A música sofre, neste ponto, brusca transformação. Carrega-se de acentos fatalistas, contrapondo-se na sequência, à luminosa cantilena de Mercedes e Frasquita.
É Este o conhecido “trio das cartas”, incluído entre os pontos altos da ópera.


9) MÉLONS, COUPONS! (Embaralhemos, cortemos!)




Micaela surge inesperadamente no refúgio das montanhas. Soube que José tornou-se contrabandista e foi informada de como chegar ao local, ali se encontrando para transmitir ao amado um angustiado recado de sua mãe doente que quer ver o filho antes de morrer.
A coragem começa a abandoná-la, diante do sinistro ambiente, e seus receios são expostos numa bela e melódica ária para o soprano, em que pede a Deus proteção e coragem coragem para prosseguir em sua missão. Mas seu anseio maior é ter forças para encontrar a mulher bela e perigosa que transformou aquele que ama num infame criminoso.

10) JE DIS QUE RIEN NE M’EPUVANTE (Eu digo que nada me assusta)



O terceiro ato termina com José partindo para ver sua mãe doente, sendo obrigado a deixar Carmen livre em busca de seu destino.

O quarto ato é iniciado com exuberante passagem coral-sinfônica e repete, com ligeiras alterações, os mesmos temas já ouvidos na primeira parte do Prelúdio do primeiro ato.
Estamos em frente à Arena de touros de Sevilha. Os toureiros entram em cena e são saudados pela multidão entusiástica, observando-se como interessante particularidade a inclusão de vozes infantis na manifestação. E, quando Escamillo aparece, o coro de saudação explode no tema da marcha que vem caracterizando essa personagem, num encerramento de extraordinária vitalidade. Carmen e Escamillo se defrontam e declaram publicamente sua mútua paixão. Carmen é advertida que José foi visto oculto na multidão e que ela deveria evitá-lo. Orgulhosa e fatalista, a cigana afirma que não é mulher de fugir, vai falar com ele e enfrentá-lo.


11) LES VOICI (Ei-los)



São os instantes finais da ópera. José tenta mais uma vez impedir que Carmen vá ao encontro de Escamillo, insistindo para que ela o siga. Lá dentro, prossegue a tourada, com a multidão aplaudindo freneticamente seu ídolo. Carmen reitera que já não o ama, seu coração é de Escamillo. José, inconformado insiste, humilha-se, fará o que ela quiser.
Carmen, já fora de si, empurra-o e brada: nascida livre, livre morrerá! Tenta correr para a arena, mas José a agarra com ferocidade, joga-a ao solo, tenta estuprá-la, mas uma vez mais é repelido. Num último gesto de desprezo, Carmen atira-lhe ao rosto o anel que ele lhe dera. Desvairado, enlouquecido de ódio e ciúmes, José a apunha-la brutalmente. A multidão, que não sabe o que acontece fora da arena, prossegue aplaudindo Escamillo.
Enquanto isso, presa de incontrolada emoção, José debruça-se sobre o cadáver da amada, chorando seu crime, e exclama desalentado: “Podeis prender-me. Fui eu que a matei! Ah, Carmen! Minha adorada Carmen!” Um grande crescendo orquestral acompanha o fechar da cortina. A tragédia é finda.

13) FINAL

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Comentário de Oscar Peixoto em 24 janeiro 2010 às 19:38
Algumas considerações sobre as postagens de óperas.
1) As ilustrações visuais/auditivas dependem da disponibilidade no YouTube dos trechos mais representativos da ópera com padrões de boa qualidade. Daí, termos espetáculos diferentes, na maioria das vezes.
2) Se você quiser aproveitar o trabalho, sem as irritantes interrupções dos “downloads” dos vídeos, a única solução é ativar todos os vídeos e pausá-los assim que começarem a baixar. Quando todos estiverem completos, aí é relaxar e ..., você sabe.
3) A ópera é um espetáculo audiovisual que envolve várias artes (música sinfônica, canto lírico, teatro, coreografia, cenografia, poesia, balé, iluminação, etc., etc.). Além dos maestros responsáveis pela parte musical, há um “diretor de cena”, responsável pela parte cênica. Daí não haver dois espetáculos totalmente iguais, além da mudança de cantores nas diferentes récitas, mudam também cenários e “mis-em-scène”, de acordo com a visão do diretor de cena. Há montagens de óperas que só têm em comum a música e o tema central da história de tão diferentes que são. Para se ter idéia, já vi um Rigoletto em que o Duque de Mântua era um “capo” mafioso, e Rigoletto um de seus capangas...
Comentário de Helô em 24 janeiro 2010 às 22:05
Que maravilha, Óscar!
Dei uma olhada geral, mas ainda volto pra ver cada detalhe e assistir a cada vídeo de Carmen. Só a conheço completa com Maria Ewin e Luis Lima. Aliás, achei que Maria brilhou nesse papel.
Já que você comentou sobre as montagens das óperas, complemento com um fato recém occorrido que li no blog Harmonia. O teatro La Scala de Milão foi palco de mais uma confusão na abertura da temporada 2009-2010, em dezembro (lembrei-me do caso Alagna). Emma Dante, diretora da ópera, "forjou um ambiente cênico repleto de símbolos, violência e misoginia. Foi recebida com vaias colossais, assim como os cenários de Richard Peduzzi, o mesmo cenografista da Tosca que abriu a temporada do MET".
No elenco da ópera, Anita Rachvelishvili, Jonas Kaufmann e Erwin Schrott, marido da Anna Netrebko.
Beijos e parabéns pelo belíssimo post.
Comentário de Oscar Peixoto em 24 janeiro 2010 às 23:38
Helô, a Ewing realmente foi uma grande Carmen, dramática e sedutora. Há pelo menos dois DVDs da ópera com ela: com o Luis Lima, no Covent Garden (a maioria dos vídeos que postei) e outro gravado no Glyndebourne, com Barry McCauley. Obviamente há inúmeras cantoras que foram Carmens marcantes, talvez até melhores do que ela, mas, como sempre, optei por vídeos de boa qualidade sonora e visual.
Essa montagem a que o Harmonia se refere, sob a regência do Baremboim, tem o Kaufmann dando show (vide ele cantando a ária da flor), mas há coisas muito esquisitas: a cigana é literalmente degolada por José! Por pouco o diretor de cena não bota a cabeça dela numa bandeja que nem Salomé com J.Batista :-)
Beijão
Comentário de Mario Abramo em 25 janeiro 2010 às 8:02
Caro Oscar,
Obrigado pelo post. Fantástico, completo, instrutivo...
Mas, se não for pedir demais, eu gostaria que você comentasse o "Carmen" de Carlos Saura. É claro que é uma visão completamente diferente (poderia dizer que é quase meta-ópera), mas a cena da Tabacalera é uma das minhas preferidas no cinema.
Abraços
Comentário de Oscar Peixoto em 25 janeiro 2010 às 17:28
Mario, eu é que agradeço pela visita e pelo interesse.
Infelizmente, meu envolvimento com o cinema foi um pouco diferente da minha ligação com a música e mais especificamente com a ópera. Embora considere que tenho um mínimo de bom gosto para apreciar mais os filmes de alto nível, em detrimento dos demais, nunca me aprofundei no estudo da sétima arte.
Já com a música meu envolvimento foi maior. Estudei um pouco de teoria musical e piano, e canto lírico um pouquinho mais, de forma que nesse campo me aventuro razoavelmente, sem que me considere um especialista, deixo bem claro.
Quanto ao filme do Saura, o vi há muitos anos e, pelo que me lembro, embora tenha alguns trechos da música de Bizet, insere também a música andaluza, e a história se inspira mais no livro de Prosper Merrimée do que no libreto da ópera. A cena da fábrica de tabaco a que v. se refere (e que acabo de rever no YouTube, pois não me lembrava dela) é realmente uma obra-prima de vigor e dramaticidade flamenca.
Mas eu não diria que o filme é uma meta-ópera, se você utilizou o prefixo grego no sentido aristotélico, isto é, o filme seria algo que transcende a ópera. Na minha opinião (será que estou puxando a brasa para a minha sardinha?) a ópera é que é um meta-teatro, quer dizer, transcende o teatro como uma arte total – o que inclui o próprio teatro).
Acho também difícil comparar teatro com cinema, são artes a meu ver distintas. O teatro é arte viva, fugaz, dificilmente repetida de forma idêntica, feita no aqui e agora (por mais que se ensaie, nunca uma récita é igual a outra). O cinema é arte cristalizada, particionada, quase laboratorial, exaustivamente repetida e gravada detalhe a detalhe (muitas vezes as sequências são filmadas de forma aleatória, de maneira que, com exceção do diretor, muitos que participam de sua confecção nem têm idéia do produto final), até atingir, na mesa de corte e montagem, a forma que o diretor (e os produtores) considera ideal. Só então iremos vê-la.
A propósito, neste post, há um vídeo da ópera em que o diretor de cena inclui uma dança flamenca – que lembra um pouco a Carmen de Saura (não a Tabacalera, claro). Veja em: 5) LES TRINGLES DES SISTRES TINTAIENT.
Um grande abraço
Comentário de Jose Arlindo em 25 janeiro 2010 às 18:25
Caro Oscar,
Excelente a postagem tanto da história da Ópera como o resumo com exemplos.
Acho que você arranjou uma sarna: fazer o mesmo com as demais - pelo menos as mais conhecidas.
Uma historinha pessoal que só um amante de ópera pode entender:
Quando fui a Roma pela primeira vez, o lugar que era para mim o mais importante de conhecer era o castelo de Sant'Angelo. Infelizmente o mesmo estava em reforma e fechado a visitação. Mesmo assim, de longe, eu o fotografei e enquanto o rodeava, revi na memória todo o ato final da Tosca. Cheguei a imaginar o ponto da muralha do qual ela teria pulado.
Comentário de Oscar Peixoto em 25 janeiro 2010 às 18:35
Arlindo, meu prezado, você viu as duas anteriores que postei, Butterfly e Rigoletto?
Agora tem até Tosca dando voadora nas escadas do castelo. Você viu a última montagem da Tosca no Metropolitan? :-)
Abração
Comentário de Helô em 25 janeiro 2010 às 22:12
Oscar
Li no blog "Notizie Del Mondo Classico":
Cinema
Ao total, 240 mil pessoas assistiram a transmissão ao vivo do Metropolitan Opera da ópera Carmen. Os Estados Unidos e Canadá venderam 140 mil entradas e a Europa 100 mil entradas.
Foi um Record, superando "Madama Butterfly" que teve um público de 197 mil pessoas.

E como sempre trago a Ópera Imaginária para cá, aqui está a Carmen. Ainda não tive tempo de ver todo o post, mas você sabe que eu volto :)
Beijos.

Comentário de Oscar Peixoto em 26 janeiro 2010 às 8:46
Maravilha, Helô! O filminho sintetiza a história. A cigana distribui as cartas, é dona de seus admiradores que desfilam diante dela, segura e bela. Mas entre eles está a Morte, que acaba por fazer retroceder a vida às suas origens.
Beijão
Comentário de Henrique Marques Porto em 27 janeiro 2010 às 22:12
Oscar,
Você acertou a mão mais uma vez. Ótima e muito bem escrtita a matéria. Acho dificílimo escrever sobre óperas, principalmente quando são títulos populares, conhecidos por toda a gente. Posso imaginar o trabalho que deve ter dado.
Na minha opinião Carmem é disparado a personagem mais forte de toda a produção operística. É uma engolidadora de homens, de público e de cantoras também! Meio-sopranos, sopranos e contraltos todas querem cantar a Carmem! A maioria é vencida pela cigana irrascível logo nas primeiras provas. Outras são por ela batidas quando tentam ser maiores do que o personagem. Outras mais, mesmo sendo ótimas cantoras, frustram as expecitativas do público, que também foi seduzido pela cigana e não aceita das intérpretes menos do que o máximo.
Mas é curioso notar que algumas cantoras menos dotadas de voz e de técnica fizeram sucesso no papel. Essas poucas exceções valorizaram a teatralidade e a riqueza de jogo cênico oferecido por Carmencita. Deixaram o personagem "entrar", não lhe opuseram resistência. Um exemplo é a brasileira Maria D'Apparecida, que nos anos 60 foi a principal Carmem do L'Opera de Paris e cantou o papel, sempre com muito sucesso, em várias capitais européias. Cantou também no Rio, em 1965, com elenco francês -o tenor Albert Lance e o barítono Jacques Mars. D'Apparecida, nascida no subúrbio carioca, mulher bonita, très charmant, hoje radicada na França, não possuía uma voz excepcional. Mas criou uma Carmem original que incorparava os dengos, a malícia e o enfezamento da típica morena carioca. Os europeus, sobretudo os franceses, adoravam.
Babe, Oscar! Com quinze para dessesseis anos fui apresentado à D'Apparecida no palco do Teatro Municipal ao final de uma Carmem! Ela ainda à caráter, com um decote hipnotizante, ali mesmo onde minutos antes o mané do D.José a havia estripado. Então, posso dizer que já ganhei um beijo em cada bochecha dados pela própria Carmem! :)
Quando vejo ou escuto essa ópera sempre me faço uma pergunta que muitos outros amantes de ópera também fazem. O que faria Maria Callas na pele de Carmem? Ela tinha a voz, o talento teatral, o físico, o rosto e principalmente o olhar de Carmem, mas apenas gravou a ópera, jamais a cantou no palco. Houve até um projeto de filme (com Callas fazendo playback de si mesma). Se não me engano com direção de Franco Zeffirelli. Algumas cenas chegaram a ser rodadas, mas Maria logo percebeu que aquela não era ela, mas seu fantasma, apenas o som de uma voz que ela já não possuía.
Por falar em gravações, vou dizer a melhor que conheço. A de 1963, com Leontine Price, Franco Corelli, Robert Merril e Mirella Freni. Herbert Von Karajan a frente da Orquestra Filarmônica de Viena. A gravação pode ser baixada em http://maisumadofalsario.blogspot.com/2008/03/1963-bizet-carmen-pri.... No blog existem outras cinco versões da ópera, inclusive a de Maria Callas.
Imagino que daqui a sei lá quantos séculos a ópera talvez seja um gênero cultivado por um público reduzido, assim como é hoje a música medieval e renascentista com suas muitas "composições anônimas". Posso até imaginar a hipótese extrema de que sobrevivam apenas alguns poucos títulos. Pois se isso acontecer não tenho dúvidas de que Carmem estará entre eles.
abraço
Henrique Marques Porto

Elina Garanca - Carmem

Maria Callas - Habanera

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