Carmen - A cigana mais popular da ópera. Teatro São Pedro 30/03/2011

Carmen de Bizet e teatro lotado são sinônimos. A cigana enfeitiça os homens, do palco e da platéia, e deixa a mulheres com inveja. Música que fica nos ouvidos, penetra como uma flecha nos corações , apaixona o mais frio dos céticos. Sempre amei essa ópera, lembro que foi meu primeiro DVD , comprado em uma banca de jornal, uma versão do Covent Garden de Londres com Maria Ewing, Leontina Vaduva , Luis Lima e regência de Mehta. A imagem era revolucionária para a época. Ao longo dos anos fui colecionando versões, cheguei a um total de 25. Algumas delas excelentes , outras estão mofando na prateleira.

Carmen não entrega sua música com facilidade, desafia minha perseverança , testa meus limites. Para desvendar os segredos da cigana no teatro São Pedro tinha que passar por uma provação. Fui buscar o amigo e o maior conhecedor de ópera do Brasil, Edson Lima. Ele anda receoso, disse que só ia por minha causa, já viu tantas Carmens pelo mundo afora. Na casa dele o carro não pega, estávamos em cima da hora. Fiquei pasmo, pensei , justamente na Carmen, a ópera que eu mais adoro. Era rodízio do carro de sua esposa, Carmen vale mais que uma multa de trânsito , fomos assim mesmo.

O teatro lotado , o burburinho em alta, jovens presentes em grande número. Esse é o incentivo à ópera. Jovens gostam de arte. O regente Patarra mostra uma orquestra com andamentos corretos e excelente sonoridade. A qualidade dos instrumentos deixa a desejar, atrapalha em diversas passagens e os jovens músicos se perdem em algumas notas. Nada que atrapalhe a bela música de Bizet.

Carmen é sensualidade , é tesão , é excitação. As cigarreiras do coro tornam o clima quente , feromônios soltos no ar, que homem não pensa em sexo nessa hora. Suas vozes sobrevoam a orquestra e chegam perfeitas nos ouvidos. Os homens olhavam embasbacados aquelas belas e excitantes jovens, suas namoradas e esposas faziam caras de poucos amigos. O coro masculino mediano e as poucas crianças completam a parte coral.

Todos querem ver a Carmen, afinal, o amor é um pássaro rebelde. Luciana Bueno tem todos os atributos da cigana. Uma beleza exótica, uma voz consistente em todos os registros, atuação cênica impecável e um corpo compatível com a bela cigana, que transmite todos os estados da alma da personagem . Apresentou uma Carmen com voz sólida, harmoniosa e uma técnica segura. Conhecedora da personagem, mostra as diversas facetas da Carmen , desfila gestos e expressões cênicas por todos os lados. Uma Carmen sedutora, que deixa os marmanjos da platéia babando. Nunca me esqueço da primeira mensagem eletrônica que enviei a ela. O mezzo-soprano me responde de pronto, achei que nunca desse bola para um apreciador de ópera, a mulher acabara de ser capa da Veja São Paulo. A simplicidade dessa moça faz ela grande. A melhor Carmen do Brasil, sem dúvida nenhuma.

O tenor Rubens Medina foi crescendo ao longo da récita. Começou frio, se atrapalhou nos diálogos em português, sua voz áspera de início foi ganhando brilho e projeção ao decorrer dos atos. Na cena final mostrou todo o seu talento, explodiram agudos brilhantes , marcantes e densos. Cenicamente imprimiu credibilidade ao Don José, apaixonado e abandonado. Deve melhorar ao longo das próximas récitas. Edna D'Olveira tem uma voz potente, grande e volumosa. Incompatível a uma personagem que o libreto diz ter 17 anos. Sua duas intervenções foram excelentes, árias de escrita marcante, mas o peso na voz atrapalha a pobre da Micaëla. O barítono Rodrigo Esteves fez um Escamillo portentoso, sua presença física e atuação cênica estão de acordo com o que pede o libreto. Um toureiro tem que ter pinta e jeito de toureiro, ser másculo e varonil. Gordinhos fora de forma não devem se aventurar nesse personagem. Sua voz sólida , encorpada e vigorosa sustenta as notas nos belos graves, um cantor em evolução. Viva Escamillo!

Os aplausos ecoam a toda hora, a música de Bizet conquista facilmente a platéia. Intervalos vão e vêm, comentários de um público fascinado são ouvidos por todos os lados. Ninguém se importa que os cenários sejam de uma simplicidade feroz, os figurinos corretos moldam os personagens e a direção cênica de Roberto Lage fica no banal. Os diálogos em português estão se tornando rotina em óperas, mas solistas ainda tem dificuldade com eles. A luz estática e monocromática não realça a força do libreto. Carmen é puro teatro, uma história bem contada e amarada, que pode ser montada de infinitas maneiras.

Valeu o esforço! A apresentação foi interessante, montagem simples e bem feita. Teatro lotado, apenas 5 récitas, poderiam ter programado mais 5 que lotaria do mesmo jeito. Ópera é legal pelos comentários que fazemos no teatro e fora dele. Concordo com o amigo Edson em um ponto, discordo de outro. Ele relembra outros mezzos que fizeram de Carmen seu cavalo de batalha. Tantos nomes que só conhecemos por gravações. A tradicional pizza depois da récita é cancelada, carro quebrado e um monte de problemas para resolver. Mas Carmen mais uma vez nos prega uma peça, milagrosamente o carro pega na primeira. Haja emoção pra uma noite.

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