Carmen Miranda: Aplausos e Vaias que Deram o que Falar

por Helô e Laura

1930 - A revista "Vai dar o que falar", da dupla Luiz Peixoto e Marques Porto, estreia dia 13 de setembro, no Teatro João Caetano.



Precedida por grande divulgação publicitária, inclusive com efeitos de luz como eram comuns às revistas de Paris, Nova Iorque e Londres, o público a aguardava com grande expectativa. Prova cabal é que todos os ingressos esgotaram-se rapidamente, vendidos ao preço de três mil-reis, nas torrinhas, e 35 mil-reis, nas frisas.

O empresário Antônio Neves, amante do "show-business" e da revista, escalou um time de primeira convocando Zaíra Cavalcanti, Eva Stachino, Sara Nobre, Olga Navarro, Lia Binatti, Tina de Jarque, Raul Neroni (ou Verona), João Martins, Palitos, Manoelito Teixeira e o barítono Sylvio Vieira. A esses, acrescentou 30 girls e 20 boys.

Com partituras de Ary Barroso e Augusto Vasseur, a qualidade musical do espetáculo estava garantida. Antônio Neves, não se dando por satisfeito, convida ainda Carmen Miranda para cantar algumas músicas, que topa a empreitada.

A confirmação do seu nome contagiou mais ainda a expectativa do público de vê-la pela primeira vez nos palcos da Praça Tiradentes.


Confiram na foto abaixo, os autores das partituras, do texto e o empresário da revista.




Existem versões diferentes sobre o que aconteceu naquela tumultuada estréia de Carmen Miranda no Teatro de Revista.


Segundo Lysias Enio e Luis Fernando Vieira, autores do livro "Luiz Peixoto pelo Buraco da Fechadura", às 19h45m, sob a batuta de Augusto Vasseur, a orquestra inicia a abertura do espetáculo. Logo surgem os primeiros aplausos, demonstrando a receptividade do público, os números cantados, os esquetes, os quadros e fantasia. Carmen Miranda faz sua primeira entrada e deixa o palco aclamadíssima.



Em seu livro "Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira", Jota Efegê diz que "depois de um primeiro ato feliz, concluído com a chamada dos autores, atores, regente e até mesmo do pessoal da maquinaria, não se poderia prever o incidente que iria ocorrer pouco depois. Carmen Miranda (foto - 1930) voltaria a aparecer na segunda parte da revista e deveria ter palmas tão expansivas quanto as que já lhe haviam sido dadas.

O quadro causador da manifestação hostil da assistência denominava-se "Mangue" e reproduzia com perfeita fidelidade "certo trecho infeliz da cidade" (como escreveu o crítico Mário Nunes). O realismo da cena, que certamente a Censura não proibiu, ou ignorava, chocou os espectadores e causou a violenta manifestação de desagrado
".

Carmen Miranda interpreta "O Nêgo no Samba", de Ary Barroso, Luiz Peixoto e Marques Porto. Discos RCA VICTOR, 1930.







"- Calhordas! Imorais! Depravados! – eram os gritos de uma platéia enfurecida, em meio a uma vaia ensurdecedora.

- Entra Carmen, entra! - pedia o contra-regra aos gritos.

Ela, paralisada, descontrolada, chorando compulsivamente em meio à confusão generalizada, não sabia o que fazer e o que estava acontecendo. O público contestava e há quem diga que houve briga, discurso moral, apupos, assoada e tiroteio. O bastante para assustar os cavalos cedidos pela Polícia Militar para dar mais realismo às cenas."








Jota Efegê , testemunha ocular desse episódio, narra em sua crônica que foi o comediante argentino Palitos (foto ao lado) quem enfrentou o furor da plateia, prometendo que o quadro 'Mangue' seria retirado do roteiro. Carmen, acalmada pelos companheiros do elenco, volta ao palco e consegue cantar seus outros números.

Alguns pesquisadores afirmam que ela voltou cantando "Pra você gostar de mim" ("Taí"), de Joubert de Carvalho.




**********

Outra versão do que aconteceu em “Vai dar o que falar”, é do nosso amigo Henrique, integrante da nossa Página do Teatro de Revista. Ele não só se lembra da história contada por seu pai, o crítico musical Henrique Marques Porto, como também possui cópia de um discurso de Paulo Orlando em uma homenagem da SBAT ao seu tio, o revistógrafo Agostinho Marques Porto, logo após seu falecimento.

"Meu pai estava no teatro, foi testemunha dos episódios e me contou a história. A peça foi interrompida e a Companhia formada por Antônio Neves desfeita na mesma noite. Carmen teria cantado apenas um número "O Nêgo no Samba", de Ary Barroso. Tenho comigo uma cópia de um manuscrito do escritor Paulo Orlando em que ele conta como foi essa vaia histórica. Versão, por sinal, idêntica à contada por meu pai.

Papai e Paulo Orlando não mencionavam o Palitos, que teria tentado se dirigir ao público para acalmá-lo, mas sim o tio Agostinho. Mas Palitos talvez tenha tentado também. Vai ver estava em cena na hora em que a vaia começou.

O documento, apesar de assinado por Paulo Orlando, não está datado. Mas é seguramente de 1934, pouco depois do falecimento do tio Agostinho. É o texto do discurso lido por Paulo Orlando - último parceiro do tio Agostinho - numa reunião da SBAT para homenagear o falecido "Conselheiro Perpétuo", como eram chamados os membros do Conselho Deliberativo da entidade. Transcrevo a parte sobre a vaia de "Vai dar o que Falar".


"(...)

("Vai dar que falar", a revista da vaia!) [trecho riscado pelo autor]

Um dos fatos mais ruidosos da carreira teatral de Marques Porto foi o da estréia da revista "Vai dar que falar", escrita em colaboração com Luiz Peixoto, no Teatro João Caetano. Casa à cunha! Um ambiente de grande curiosidade em torno dessa "premiére". A representação começa! Os quadros se sucedem com aplausos gerais. A revista está agradando em cheio!

Surge uma cena representando um determinado local do Rio em toda a sua realidade chocante. O público não gosta! Protestos de todos os cantos! E uma vaia estridente irrompe da platéia, das galerias, dos camarotes!
A confusão é geral! Os artistas amedrontam-se e a representação para. Ninguém se entende. Querem invadir a "caixa" e a polícia consegue conter o povo!
Nisto Marques Porto aparece em cena. Está pálido, mas calmo. Quer falar mas o público não o permite. E debaixo de estrondosa, e quiça uma das maiores demonstrações de desagrado por parte da platéia carioca, retira-se ele do palco, sem conseguir acalmar os ânimos.

O espetáculo não prosseguiu e a temporada terminou nessa mesma noite, tendo o empresário Antônio Neves dissolvido a companhia, cujo "record" de duração dificilmente será batido! Nasceu e morreu nessa mesma noite!

Marques Porto não se deixou abater por esse contratempo natural na vida daqueles que escrevem para teatro. Continuou a produzir e novos sucessos obteve com inúmeras outras revistas. E quando lhe falavam sobre esse episódio Marques Porto com muita naturalidade explicava:

"Aquela vaia foi a minha verdadeira consagração!"
E com pose concluía:

"Agora sim, sou um autor teatral!"


(...)"

Os originais foram encontrados em 1996, no antigo Instituto Brasileiro de Artes Cênicas (IBAC) da Funarte.


**********

Ainda com relação ao quadro poêmico, Luiz Peixoto e Marques Porto foram acusados de colocar um puteiro no palco do Teatro João Caetano. Um só não, foram vários, a zona toda em cena.

O certo é que mesmo de modo sutil os autores não agradaram à moral vigente às vésperas da Revolução de 30. As mulheres nem mesmo apareciam. Bastou a multidão masculina característica, gigolôs pelas calçadas, o vaivém dos homens a vagar sob os lampioões, as janelas dos bordéis iluminadas para provocar todo esse tumulto, dando realmente muito o que falar...

Deu o que falar, também, pelo "conteúdo político, o deboche da figura do home de Itu, futuro ditador e paizinho da nação".

Ainda deu muito o que falar nas páginas dos jornais. Mário Nunes caiu de pau em cima da "célebre parceria", Luiz Peixoto x Marques Porto, em sua coluna no Jornal do Brasil: "Os autores foram além da licença reinante, já excessiva. Atolaram-se na imoralidade, reproduzindo aspectos obsenos da zona de meretrício e pilhérias de mau gosto".

Deu o que falar nas páginas do jornal O País, onde se lia que Carmen Miranda "será em breve um dos mais brilhantes esteios de nosso teatro ligeiro".

Depois dessa experiência Carmen Miranda só voltaria ao teatro de revista, em 1939, nos Estados Unidos, num quadro da revista Street of Paris, onde apenas cantava e dançava.

Provalvelmente, o tratamento norte-americano dado às ruas de Paris eram bem menos chocantes que o de Luiz Peixoto e Marques Porto ao desnudar as ruas do Mangue.

**********

Fontes:

- Luiz Peixoto pelo buraco da fechadura, de Lysias Enio / Luís Fernando Vieira. Rio de Janeiro: Vieira&Leont, 2002.
- Viva o Rebolado: vida e morte do teatro de revista brasileiro, de Salvyano Cavalcanti de Paiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
- Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira - Volume I, de Jota Efegê. Rio de Janeiro: Funarte, 1978.
- Meninos, eu vi, de Jota Efegê. Rio de Janeiro: Funarte, 1985.
- Áudio disponibilizado: Instituto Moreira Salles.

**********

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Comentário de Henrique Marques Porto em 17 outubro 2009 às 17:23
Helô e Laura,
Virei fonte! Secundária, mas ainda assim fonte. Minha careca está desvanecida. :)
Fonte pode comentar? Acho que não deveria, mas não resisto.
Episódios precariamente registrados como esse -uma grande vaia que coincidiu com a estréia de uma grande artista- correm o risco de receber versões fantasiosas ou romanceadas. Vejam o caso do Jota Efegê. Na década de 70 ele escreveu uma crônica para O Globo não sobre a revista Vai dar o que falar, mas sobre a estréia de Carmem Miranda. Seu tema era esse. Não podia fazer um relato frio e distanciado sobre a estréia de Carmem, como faria talvez um historiador. Mestre na arte de contar casos, ele sempre procurava divertir os leitores. Ainda que tivesse que mencionar como fatos coisas bastante improváveis ou inverossímeis. Um exemplo é o trecho: "- Entra Carmen, entra! - pedia o contra-regra aos gritos."
Contra-regra nenhum faria isso. Contra-regra é um funcionário discretíssimo, ocupado com montes de tralhas e que quase não fala. Muito menos em dia de vaia e confusão, com diretor, ensaiador, empresário, diretor do teatro, todo o elenco mais os autores plantados nas coxias. Mesmo um ator de destaque como o Palitos nao teria autoridade suficiente para prometer à platéia que "o quadro 'Mangue' seria retirado do roteiro". Como de fato não foi, segundo depoimento do Luiz Peixoto, que menciona uma segunda exibição apenas para a crítica na tentativa de explicar o quadro polêmico.
Mas a história fica mais saborosa contada como foi por Jota Efegê, com esses pequenos cacos do cronista, que afinal não interferem no fundamental.
Mas é no fundamental que as dúvidas persistem. A participação de Carmem Miranda, por exemplo, provavelmente vai continuar a ser misteriosa. Quantas vezes cantou? Que músicas? A única afirmação direta e mais consistente dá conta de que cantou O Nêgo no Samba. As fontes que dizem ter ela cantado mais de um número fazem a afirmação no condicional "teria cantado", sem indicar com precisão que músicas cantou.
Idem em relação à trajetória de Vai dar o que falar. Existem fontes que afirmam ter a peça ficado até 12 dias em cartaz. Pouco provável. Lendo todos os depoimentos, fica a idéia de que o mais certo é que ouve o fiasco da estréa e dias depois uma segunda e última apresentação exclusiva para a crítica especializada. Então, tecnicamente a peça teria ficado alguns dias em cartaz. Mas esse "em cartaz" só vale com a presença do público! E o distinto público só compareceu na estréia. Para vaiar e enterrar a peça. Pobre Neves...Deve ter passado os três meses restantes de 1930 vendendo bacalhau na Rua do Acre para cobrir os prejuízos.
O episódio é um prato cheio para antropólogos e sociológos interessados em estudar a formação dos códigos morais das sociedades carioca e brasileira na primeira metade do século passado. O mesmo público que sacolejava de rir com piadas de pesadísimo duplo sentido ofendeu-se com a "Zona do Mangue" montada no palco. A mesma "Zona" que todo mundo viu, ao vivo, em cores e com personagens reais, quando voltava de bonde para casa. Sim, os bondes passavam bem na esquina do pecado!
Por fim, duas curiosidades.
1) No mesmo ano -em abril de 1930- a parceria Marques Porto/Luiz Peixoto tinha emplacado um grande sucesso, a revista "Pau Brasil", com música de diversos compositores, entre eles Chiquinha Gonzaga. Nessa revista, que ficou meses em cartaz, havia um número de cortina para atriz e dois atores que, em terceto, cantavam uma música cuja letra jocosa e apimentadíssima fazia referência direta ao chamado baixo meretrício, entre outras indecências sugeridas. Tenho o original da peça que foi usado pelo "Ponto" (portanto, o que foi realmente levado à cena), inclusive com os cortes da censura. Não tenho dúvidas de que a letra foi escrita por Marques Porto. O original indica ritmo de Jazz Band. A letra era mais falada do que cantada. Transcrevo duas estrofes tal como estão no original:
"(...)
O Zezinho das abóbra
engole cobra
engole cobra
engole cobra
E o irmão que é mestre d'obras
Vai engolindo as suas sobras.

chupei [censurado e substituído por comi] mas é segredo
Com o Godofredo
O Azevedo
E o Sezefredo
Já chupei limão azedo
Lá na Pinto de Azevedo. * (...)


* Rua Pinto de Azevedo, entrada principal da "Zona do Mangue".

2) Acho que a matéria esclareceu um pouco a história da foto de grupo que foi postada e que é do meu arquivo. Ela pode ter sido tirada poucos dias antes da estréia de Vai dar o que falar como peça de divulgação para a imprensa. Exceção do Cardoso de Menezes os demais estão envolvidos com a peça. No entanto, essa foto foi tirada no Teatro Recreio e a revista foi montada no João Caetano. Mas essa dúvida, como outras, só pode ser esclarecida indo perguntar lá no outro mundo, no além dos revisteiros.
abraço
Henrique Marques Porto
Comentário de Cafu em 18 outubro 2009 às 14:04
O Mário Nunes faz duas referências ao episódio em seu livro 40 anos de Teatro. Vou transcrevê-la para completar as informações. Podemos até criticá-lo, ou questioná-lo, por sua visão moralista (aos nossos olhos modernos) e conservadora. Mas impossível desconsiderá-lo como crítico confiável e testemunha ocular da história.
O primeiro registro está na resenha dos acontecimentos teatrais do ano de 1930. Eis o trecho (pag. 157/8, 3º volume):

..." No teatro com música e na revista, os líderes continuaram: Araci, Mesquitinha e Palitos; Zaira Cavalcanti ascende ao estrelato. Em segundo plano honroso Sarah Nobre, Lídia Campos, Olga Navarro, Lely Morel, Afonso Stuart, Lídia Binatti, Cidália Matos, Dulce de Almeida; impondo-se, Francisco Alves, Dora Brasil. A assinalar a colaboração de Carmem Miranda, já muito popular no rádio, integrando elenco da Companhia de Revistas da Empresa Neves, que reinaugurou o João Caetano, e que fracassou.
...Revistógrafos mais representados e queridos, Marques Porto e Luiz Peixoto. Insucesso, o de Vai dar o que Falar, vazia, ultra imoral; foi vaiada e, concertada (sic!), ficou dez dias em cartaz no João Caetano. Êxitos: Dá Nela, carnavalesca, e Pau Brasil, a melhor dos dois, até então, ambas mais de 100 representações no Recreio, onde foi à cena também, Dá no Couro, quatro semanas"...

Será que esse "concertada" acima foi erro de ortografia, ou revisão, e o que o Mario Nunes quis dizer é que a peça foi modificada em algumas parte para poder prosseguir, após o estrondoso fracasso da estréia? E que o "conserto" não deu certo e ela teve uma sobrevida de 10 dias? Tudo indica que sim.

Algum de vocês tem a biografia da Carmem Miranda escrita pelo Ruy Castro? Estou curiosa pra saber o ele conta sobre a participação da Carmem na Vai Dar que Falar. A conferir.
Comentário de Cafu em 18 outubro 2009 às 14:43
Ainda sobre os babados da Grande Companhia de Revistas, Mario Nunes assim relata (pag. 177/8, 3º volume):

"GRANDE COMPANHIA DE REVISTAS

Foi Antônio Neves o primeiro arredatário do novo João Caetano. Organizou elenco em que se acumulavam figuras de proa.
Silvio Vieira, Manoelino Teixeira, Paita Palos, Raul Neroni, Vicente Marchelli, Albino Vidal, J. Mafra; e - Carmem Miranda, Eva Stachino, Zaira Cavalcante, Lia Binatti, Olga Navarro, Sarah Nobre, Lely Morel, Tina de Jarque, Julieta Bastos.
Diretores: Artístico, Luiz Peixoto; De cena, Otávio Rangel; Coreográfico, Lou e janot; Musical, Augusto Vasseur.
Maquinistas: Osório Zalut e Antônio Novelino.
Cenógrafos: Ângelo Lazary, Raul de Castro, Luiz Aires.
Setembro, 13 - Vai Dar o Que Falar - Marques Porto e Luiz Peixoto - Música: Vasseur e Ari Barroso - Dá mesmo que falar e muito: os autores foram além da licença reinante, já excessiva, atolaram-se na imoralidade, reproduzindo aspectos obcenos da zona do meretrício, e pilhérias de mau gosto, nos quadros Caso Urgente e Desfile de Misses, e o público interrompeu o espetáculo com tremenda pateada, coisa que não ocorria no Rio há muitos anos. A revista sobremodo fraca, vazia de idéias, não agradou. Somente Carmem Miranda, Zaira Cavalcanti e Raul Neroni, em suas especialidades, já aplaudida em outros teatros, conseguiram quebrar a algidez da platéia. Interessantes, todavia, os bailados: Kalatan, Piratas, Espectros, Lou, Janot e girls; o scketche Não é Meu Marido, Palitos e Sarah Nobre; Rainha Cubana, charge, Lely Morel, Palitos Lou e Janot. Encenação medíocre; 23 - foi nomeado diretor de cena, Joracy Camargo; e nesse dia Vai Dar o que Falar saiu do cartaz, entrando em ensaios nova revista; 30 - Ciranda, Cirandinha - Joracy Camargo - Música: B. Vivas, Vasseur e Heckel - Historieta simples, sentimental, o amor tem como tropeço a diferença social; leve, sem situações forçadas, pontilhada de bons diálogos, por vezes espirituosos, agradou. Foram aplaudidos os quadros: Ciranda, cirandinha; Um Lindo Baile de Maltrapilhos, original; Na Confusão do sons e Casamento da Sinhá. Cenários bonitos. Pleno êxito de Palitos, Olga e Sílvio, nos papeis principais; e Lou e Janot, nos bailados.
Outubro 1º - Ciranda, cirandinha...; a 9 suspendeu os espetáculos.
Comentário de Cafu em 18 outubro 2009 às 14:47
Pôxa! Agora percebi que não saiu - de novo!- o primeiro parágrafo do meu primeiro comentário. É este aqui:
Laurinha, Helô e Henrique,
O post ficou ótimo. O assunto é polêmico, os registros incompletos e contraditórios, mas vocês levantaram o material disponível e mostraram o emaranhado de versões e confusões geradas por este quiprocó todo. Parabéns, Helô e Laura. Com algumas peças do quebra-cabeça vocês conseguiram dar uma idéia do todo. Não é coisa fácil, 8 décadas depois e com fontes precárias.
Faltou também fechar as aspas do texto do Mario Nunes. Eita!!!!
Beijos.
Comentário de Henrique Marques Porto em 18 outubro 2009 às 15:22
Cafu, Helô e Laura
Vejam como era complicada a vida dos revisteiros. Vai dar o que falar foi vaiada pelo público e execrada pela crítica. Teria ficado uns 10 dias em cartaz. Em seu lugar entrou Ciranda, cirandinha de Joracy Camargo. A comédia de Joracy agradou e até recebeu elogios, embora discretos, da crítica. Mas ficou menos tempo em cartaz!
Cafu, as minhas esperanças em esclarecer esse episódio estão todas depositadas nas tais memórias do tio Agostinho. Mas são apenas 100 páginas e não sei se ele teve tempo de contar o que aconteceu em 13 de setembro de 1930.
beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Henrique Marques Porto em 18 outubro 2009 às 15:48
Helô e Laura,
No início da matéria vocês mencionam Sylvio Vieira. Era barítono. E muito bom, por sinal. Esse me carregou no colo e conheci bem. Aliás está citado num comentário que fiz numa ótima matéria sobre a ópera Madamme Butterfly postada pelo Oscar. Já na década de 20, Sylvio se dividia entre o teatro ligeiro (operetas, comédias, burletas e revistas) e o repertório clássico, cantando óperas no Lyrico e no Teatro Municipal. Ele, o soprano Carmem Gomes e o tenor Reis e Silva são os principais nomes da primeira geração de cantores líricos brasileiros. Teve longa carreira. Cantou até 1959. Vou postar uma foto lá na página do Oscar onde se pode ver Sylvio em cena.
beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Teatro de Revista em 19 outubro 2009 às 0:49
Henrique,
Seus comentários, como sempre, "henriquecem" bastante qualquer post. Oscar que o diga. Aguardamos mais coisas desse valiosao baú.

Quer dizer que no 1º semestre do ano, na revista Pau Brasil, permitiu-se fazer referência ao baixo meretrício e no 2º semestre, não? Eita moral volúvel!
A revista estreou no Teatro João Caetano por conta da reforma do Teatro Recreio. Acredito (na minha santa ignorância no assunto) que as reuniões preliminares dos responsáveis, em várias áreas, pela montagem da revista tenham acontecido, ainda, várias vezes no Recreio e foi aí que o fotógrafo soltou o flash.
Realmente só as memórias do tio Agostinho para nos esclarecer essas e outras questões.
Beijos.
Laura
Comentário de Teatro de Revista em 19 outubro 2009 às 1:12
Cafu,
Você também "cafuenriqueceu" nosso post! Valeu!
Como você mencionou, o assunto é super polêmico e os registros, incompletos e contraditórios;
difícil de chegar a uma conclusão.
Mesmo assim eu a Helô resolvemos publicar, acreditando que os comentários de vocês nos ajudariam nessa empreitada. E acertamos na mosca.
Agora um segredo: no auge do embrólio do post, desejei o aparecimento do tio Agostinho, em sonhos, me contando tudinho... tudinho... nos mínimos detalhes... :)))))
Beijos.
Laura
Comentário de Teatro de Revista em 19 outubro 2009 às 1:25
Cafu,
Esqueci de mencionar que não tenho a biografia da Carmen Miranda escrita pelo Ruy Castro, mas acho que vale a pena consultarmos.
Tenho o livro, "Carmen Miranda Foi a Washington", de Ana Maria Mendonça. Não é novo (1999), mas só agora que adquiri a preço de banana (R$10,00). Pelo Índice Onomástico não localizei nada com relação a revista, mas assim que o tempo permita vou olhar com mais atenção.
Super beijo.
Laura.
Comentário de Helô em 20 outubro 2009 às 23:50
Henrique, Cafu e Laura, minha excelente parceira de post
Os comentários, como sempre, enriqueceram e complementaram o post. Obrigada a vocês.
Lembrei-me que no outro computador tinha o livro do Ruy Castro. Fui consultá-lo e reproduzo aqui o trecho inteiro de "Vai dar o que falar". Pelo que pude perceber, Ruy bebeu em algumas fontes citadas aqui, mas há novas e interessantes informações sobre os possíveis motivos da confusão. Os grifos são meus.
Beijos a todos.

1930 - 1931
Rainha do disco
(páginas 59, 60 e 61)

"No dia 13 de setembro de 1930, Carmen estava na coxia do Teatro João Caetano, na praça Tiradentes, pronta para entrar e cantar "Taí" em Vai dar o que falar, a nova revista musical da cidade. A produção era caprichada, com cenários que tomavam o enorme palco do João Caetano. No fosso, uma orquestra de vinte figuras. Do teto, efeitos de luz "dignos de Paris". O espetáculo tinha 35 quadros, entre esquetes humorísticos de Luiz Peixoto e Marques Porto e números musicais a cargo do veterano Augusto Vasseur e do compositor revelação do ano, Ary Barroso.

Era a estréia de Carmen no gênero que tradicionalmente consagrava os cantores brasileiros. Mas Carmen, invertendo essa longa tradição, já chegava a ele consagrada. Até ali, os cantores tinham de se tornar estrelas do teatro de revista para serem convidados a gravar um disco. Carmen começara por cima, pelos discos, e só agora, pelo assédio de Luiz Peixoto, se dava ao luxo de aparecer numa revista. Houve até quem se espantasse por ela ter aceitado - o que só fez sob a garantia de não ter de participar de esquetes cômicos, limitando-se a cantar alguns de seus sucessos. Mas, pelo que aconteceu no João Caetano pouco antes de sua entrada em cena, a carreira de Carmen no teatro de revista não passaria daquela noite.

O número que a antecedia mostrava o Mangue, a zona do baixo meretrício carioca, num cenário altamente estilizado, com malandros, marinheiros e cafetões desfilando diante de janelas em que se viam silhuetas de mulheres seminuas. Em dado momento, PMS montando cavalos de verdade desfilariam pelo palco, certificando-se de que a zona estava em paz e
sossego. Não se sabe quais seriam as demais atrações do quadro, porque ele acabou logo depois de começar.

Assim que o pano subiu e o elenco se movimentou, parte da platéia reconheceu o cenário e começou a vaiar. Os que tentavam fazer "Psiu!" foram silenciados pelos assobios e pela pateada. Ouviram-se gritos de "Canalhas! Imorais! Depravados!". Um homem nas frisas berrou,
apoplético: "Isto é uma afronta à família brasileira!". Objetos eram atirados ao palco. O elenco fugiu correndo, com as coristas chorando e os figurantes se chocando no atropelo. Em meio ao pandemônio, ouviu-se um estampido, talvez de tiro. Os cavalos se assustaram nas coxias e
invadiram o cenário a galope. Zoeira geral - caos no palco, na platéia e nos bastidores. As cortinas desceram e continuaram a ser bombardeadas por objetos, enquanto metade dos espectadores se retirava. Lá dentro, o telão do Mangue foi levantado às pressas, deixando o palco nu. O espetáculo tinha sido literalmente posto abaixo.

O contra-regra ordenou:
"Vai, Carmen! Vai!"


Era sob esse clima que a aturdida Carmen, também chorando, deveria entrar para cantar "Taí".

O experiente comediante Palitos, tio de um jovem chamado Oscarito, mandou Carmen esperar e entrou na frente. Pediu calma à platéia e chamou de volta os espectadores que estavam indo embora. Depois se desculpou em nome da companhia. Mas fez isso só formalmente, porque não havia do que se desculpar - o quadro do Mangue não era muito diferente do que se praticava no teatro de revista que, desde 1859, fazia a delícia da "família brasileira". E desde quando a prostituição era novidade? Pois, se era a especialidade do bairro mais famoso do Rio, a Lapa - freqüentada pelas mesmas pessoas que estavam ali vaiando!

Na verdade, a aversão a Vai dar o que falar começara na véspera, como se tivesse sido encomendada. Os jornais de oposição ao prefeito estavam revoltados pela cessão do Teatro João Caetano, controlado pela prefeitura, a um tipo de espetáculo que para eles só cabia em palcos fuleiros, como o do Teatro Recreio. Mas o Recreio estava em obras, e o produtor, o português Antônio Neves, misto de importador de banha e empresário teatral, conseguira justamente o João Caetano. E aí estava o problema: a cidade ainda não se recuperara da demolição do lindo Teatro São Pedro de Alcântara, que existia naquele lugar desde 1813, e sua substituição pelo João Caetano, inaugurado em junho, menos de três meses antes. O velho São Pedro tinha toda uma história. Fora de seu camarote real, quando ainda se chamava Teatro São João, que, na noite de 10 de janeiro de 1822, o príncipe dom Pedro foi aclamado pela sociedade ao repetir o "Fico!" que dissera à tarde de uma janela do Paço. Depois, o teatro se tornara o favorito do imperador Pedro I, e seu palco recebera um naipe de divas européias, de Bernhardt a Galli-Curci. Mesmo assim, fora derrubado pelo prefeito do Rio, o paulista Prado Júnior, nomeado pelo presidente Washington Luiz. E, quando se pensava que o novo prédio, apesar da fachada futurista e art déco, fosse respeitar aquele passado, vinha a prefeitura e o cedia à "troupe da maxixada". O quadro do Mangue fora só o pretexto para o tumulto.

Outra versão, muito menos nobre, afirmava que o distúrbio fora incitado por Mathias da Silva, o notório proprietário da Casa Mathias, uma loja de artigos gerais na avenida Passos. Teria sido dele o grito contra a "afronta à família brasileira" - mas por motivos estritamente pessoais contra seu patrício Antônio Neves. Só podia ser, dizia-se - porque
Mathias estava longe de poder dar lições de moral a quem quer que fosse. Os anúncios de seu estabelecimento nos jornais, escritos por ele, também eram uma "afronta à família", pela formidável grossura. Tinham como mote as aventuras entre o próprio Mathias e a cabrocha Virgulina (que o chamava de "meu xodó cheiroso"), porta-bandeira do Bloco dos Lanfranhudos, o qual saía da Casa Mathias no Carnaval. (Lánfranhudo queria dizer valentão.) Não admira que Mathias visse Antônio Neves como seu concorrente direto na colônia. Os dois deviam estar às turras naquela época. Mathias tentou melar o sucesso do rival e, com isso, quem quase levou a breca foi o elenco da revista.

Palitos conseguiu acalmar a turba e convocou Carmen. Isso é que era prova de fogo - principalmente porque, de certa forma, era a primeira vez que ela enfrentava uma platéia de verdade, não a dos shows beneficentes. Carmen recompôs-se. Entrou, cantou "Taí", relampejou o brilho dos dentes, despejou chispas com os olhos e saiu sob aplausos.
Depois disso, a revista pôde chegar ao final. No dia seguinte, os jornais arrasaram todo mundo - os autores, o espetáculo e a platéia -, e pouparam Carmen, em quem viram um talento para o teatro musicado. Mas Carmen não precisava daquilo. Pediu dispensa a Luiz Peixoto. Não voltou mais e Vai dar o que falar, mesmo com o expurgo do quadro maldito, só se agüentou por uma semana em cartaz".

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