Carmen Miranda e os Baianos decisivos em sua vida




Quando dei de cara com a foto acima (livro do Tárik de Souza), instantaneamente, ocorreu-me a idéia de um post. Como a nossa Pequena Notável está entre dois baianos – Assis Valente e Dorival Caymmi – o título seria “Dois Baianos na Vida de Carmen Miranda”. Mas fiquei pensando: onde foi que já vi (li) um título parecido com esse? Como demorou a cair minha ficha, comecei pesquisando todas as músicas que Carmen Miranda tinha gravado dos dois baianos citados.

Confesso que fiquei surpresa em constatar o placar entre Assis Valente (25) X Dorival Caymmi (04). Todas, músicas da melhor qualidade.

Aí veio o insight: “Revista da Música Popular”, só pode ter sido lá. Depois de folhear as várias edições encontro uma matéria de Armando Pacheco, só que em vez de dois baianos ele destaca um terceiro – Josué de Barros – super importante na vida da nossa “notável”.

Para não quantificar dois ou três, optei pelo título acima, ou seja, o número de baianos está em aberto.



Josué de Barros e Carmen Miranda



O baiano Josué de Barros (1888-1959) que desembarcou no Rio de Janeiro (1904) com 16 anos de idade não poderia nem imaginar que viria ser o “padrinho” artístico de Carmen Miranda.

Compositor e violonista integrou-se ao meio boêmio de Índio das Neves, Catulo da Paixão Cearense, Ernesto Nazareth, Donga e Sinhô, tornando-se uma figura de prestígio no mundo artístico carioca.

Josué, no finalzinho de 1928, estava ocupado com a parte musical de uma festa de caridade promovida por um deputado conterrâneo (morador da pensão da mãe de Carmen Miranda), que sugeriu o nome de Carmen que Josué não conhecia.

O primeiro encontro dos dois foi embaixo do relógio da Galeria Cruzeiro.


“Antes de ouvi-la cantar, tive nitidamente a impressão de que estava diante de alguém que trazia uma mensagem nova, nos olhos, no sorriso, na voz”. (Josué de Barros).

E foi participando da tal festa beneficente, no palco do Instituto Nacional de Música, no Passeio Público, que Carmen Miranda fez seu primeiro espetáculo, no inicio de 1929.

Segundo Ana Rita Mendonça, durante aquele ano, Josué de Barros levou sua pupila para cantar nas rádios Educadora e Sociedade, fomentou suas apresentações públicas e gravações de discos nas gravadoras Brunswick e Victor.


Carmen gravou oito músicas de Josué, entre 1929 e 1931:


01- “Dona Balbina” (samba). Disco Victor (33249) *
02- “Triste jandaia” (toada). Disco Victor (33249) *
03- “Não vás imbora” ou “Não vá s’imbora” (samba). Disco Brunsnick (10013) **
04- “Se samba é moda” (samba). Disco Brunsnick (10013) **
05- “Iaiá, ioiô” ou “Yaya, yoyô” (marcha carnavalesca). Disco Victor (33604) ***
06- “Carnavá tá aí” (marcha carnavalesca). Disco Victor (33399) ***
07- “Vamos brincar” (marcha). Disco Victor (33604) ***
08 “Por ti estou presa” (marcha). ****

* disponíveis só no IMS (Instituto Moreira Salles)
** disponíveis só no site da cantora, em “Discografia”
*** disponíveis no IMS e no Site
**** disponível só no site da cantora, em “Repertório”. (Parceria com Carmen Miranda).

Dona Balbina” (Josué de Barros) # Carmen Miranda. Disco Victor (33249-B) / Matriz (50135) Gravação (4/12/1929) / Lançamento (janeiro/1930).



 

Vamos brincar” (Josué de Barros) # Carmen Miranda e Coro da Orquestra Victor. Disco Victor (33399-B). Gravação (1930) / Lançamento (1931).



 

Iaiá, ioiô” ou “Yaiá, Yoyô” (Josué de Barros) # Carmen Miranda. Disco Victor (33604-A). Lançamento (1930).

 



O segundo baiano - Assis Valente (1911-1958) -, aporta no Rio de Janeiro em 1927. Seus dons aflorados na Bahia de orador, comediante, desenhista e protético, desenvolvem-se na cidade maravilhosa, agora, aliados ao dom musical.

Foi no Teatro João Caetano que viu Carmen Miranda pela primeira vez e ficou enfeitiçado. Feitiço que se transformaria em amizade e talvez até em paixão secreta, segundo alguns. Era o ano de 1932. Não descansou até consegui se aproximar da Pequena Notável, chegando a ter aulas de violão com Josué de Barros na esperança de vê-la. Esforço em vão. Mas Josué deu uma forcinha aproximando-os numa festa no desaparecido Cinema Broadway, na Cinelândia.

Com meio caminho andado, um dia encheu-se de coragem e ofereceu à cantora uma composição sua. Era “Etc...”

“Etc...”(Assis Valente) # Carmen Miranda e Diabos do Céu. Disco Victor (33604-B), 1932.



 

Carmen gostou do samba e lançou-o no ar, nos microfones da Rádio Mayrink Veiga. A partir daí ela seria a intérprete mais constante e importante da carreira de Assis Valente.

Carmen Miranda gravaria 22 (segundo o site oficial da cantora e o site do IMS) ou 25 (segundo Moacir Andrade e a dupla Zuza Homem de Mello e Jairo Severiano) músicas de Assis Valente.

01- Acorda São João
02- Camisa listrada
03- Candieiro * (?)
04- Deixa comigo
05- E bateu-se a chapa
06- ... E o mundo não se acabou
07- Elogio da raça
08- Etc...
09- Fala, meu pandeiro
10- Good-bye
11- Isso não se atura
12- Lulu
13- Minha embaixada chegou
14- Ô...
15- Por causa de você, ioiô **
16- Pra que amar
17- Pra quem sabe dar valor ***
18- Recadinho de Papai Noel
19- Recenseamento
20- Roda pião
21- Sapateia no chão
22- Tão grande, tão bobo
23- ... Te já
24- Tenho raiva do luar
25- Uva de caminhão
26- Vou espalhando por aí ****

*- Essa música consta no site da cantora como sendo de Assis Valente e no IMS como sendo de David Nasser e Kid Pepe. No Dicionário Cravo Albin não consta a autoria de Assis Valente. Creio que tenha ocorrido um erro no site da cantora.

** “Por causa de você” e “Por causa de você, ioiô” são duas músicas distintas de Assis Valente. Ambas não constam no site da cantora. A primeira consta no Dicionário Cravo Albin e no IMS (gravada por Aurora Miranda); a segunda só consta no IMS (gravada por Carmen Miranda).

*** “Prá quem sabe dar valor” não consta no site da cantora, mas consta no IMS. Ela canta junto com Carlos Galhardo.

**** “Vou espalhando por aí”. Idem ao item anterior. Ela canta juntamente com o cantor Castro Barbosa.


Controvérsias a parte o certo é que a dupla Assis Valente e Carmen Miranda arrasaram por muito tempo...

O afastamento dos dois teria início quando da ida da cantora para os Estados Unidos, em 1939. Gradativamente a carreira da Pequena Notável tomava rumos que não incluía Assis Valente. A gota d’água que deixou nosso compositor profundamente magoado foi recusa de Carmen (a quem venerava) em gravar o samba “Brasil Pandeiro”.

Essa desfeita ficaria para sempre na cabeça de Assis Valente engendrando uma nova fase em sua vida, infelizmente, de abandono e ressentimento.

O pesquisador, crítico, escritor e musicólogo Abel Cardoso Júnior opina sobre a recusa de Carmen Miranda.


“Penso que Carmen não gravou ‘Brasil Pandeiro’ porque a letra a exalta e ela, por modéstia ou receio de parecer cabotina, a recusou”.

Seguindo a mesma linha de pensamento Ruy Castro diz:



“Brasil Pandeiro é um samba de exaltação à pessoa de Carmen, cheia de frases que são referências diretas a ela”.


É verdade que foi pensando em Carmen Miranda, e no seu estilo “brejeiro e malicioso”, que o baiano Assis Valente criou o melhor segmento de sua obra; como também é verdade que as interpretações de Carmen foram decisivas para o sucesso de ambos.

Assis Valente e Carmen Miranda






O terceiro baiano – Dorival Caymmi (1914-2008) - embarcaria num “Ita, em 1938, como tantos outros nordestinos, rumo à capital federal de então, com o inseparável violão e, na alma, todos os sonhos do mundo.

O único elo que Dorival tinha com esse novo e desconhecido mundo da Cidade Maravilhosa era José Brito Pitanga, um rapaz criado por uma irmã de sua mãe que foi logo lhe dando o conselho: “Aqui é a terra do rádio, do futebol e da música. Se fizer sucesso, fica rico!”

Alojado na pensão de Dona Julieta, na rua São José, nº 35, no centro, o tempo foi passando e o dinheirinho acabando. O jeito era encarar a única oferta de trabalho – cozinheiro de restaurante. Para a sorte dele e da sua famosa preguiça baiana, Pitanga o apresenta a Lamartine Babo, intermediando, assim, a estreia de Dorival na Rádio Tupi, dirigida à época por Teófilo de Barros Filho.

Naqueles idos de 1938, Carmen Miranda já era um dos grandes nomes da música popular brasileira e sua atuação era diversificada, ou seja, apresentações em rádios, shows em cassinos, discos gravados e atuara em quatro musicais de sucesso, preparando-se para o próximo – “Banana da Terra”, produzido pelo americano Wallace Downey.

Não havendo acordo financeiro entre o autor de duas músicas (Ary Barroso) e o produtor americano – que contava com os cenários e figurinos prontos -, o jeito foi sair à procura de um samba típico baiano.

Foram Braguinha e Almirante os intermediadores do encontro entre Dorival Caymmi e Carmen Miranda. Ela, expert em “baianos” (Josué de Barros e Assis Valente) percebeu logo o talento de Dorival que, aproveitando o empurrãozinho dos orixás, foi logo emplacando “O que é que a baiana tem?” que resultou num estrondoso sucesso no cinema e no disco.

Conta-se que o próprio Dorival ensinou a Carmen a coreografia que ela deveria adotar para se encaixar no vai-e-vem e nos requebros que já estavam escritos na sua melodia

O que é que a baiana tem?” (Dorival Caymmi) # Carmen Miranda/Dorival Caymmi e Regional. Disco Odeon (11710-A). 1939.


Carmen Miranda – “O que é que a baiana tem?”. Cenas do filme “Banana da Terra”.

O filme foi de fato um grande sucesso e abriu veredas a serem pavimentadas por Caymmi. Em consequência vieram os primeiros discos, as apresentações aumentaram e o baiano era convidado pelas melhores casas de espetáculos do Rio de Janeiro.

Carmen Miranda foi a primeira cantora a gravar as músicas de Dorival Caymmi, totalizando 4 composições.

01- O que é que a baiana tem?
02- A preta do acarajé
03- O dengo que a nega tem
04- Roda pião *

* Há informações contraditórias no site oficial da cantora quando afirma que essa música é de autor desconhecido e ao mesmo tempo apresenta o áudio da dupla Carmen e Dorival Caymmi.

A preta do acarajé” (Dorival Caymmi) # Carmen Miranda/Dorival Caymmi. Disco Odeon (11710-B), 1939.



 

O dengo que a nega tem” (Dorival Caymmi) # Dorival Caymmi/Carmen Miranda e Conjunto Odeon. Disco Odeon (11976-A), 1940.



 

Roda pião” (Dorival Caymmi) # Dorival Caymmi)/Carmen Miranda e Conjunto Odeon. Disco Odeon (11751-A). Gravação (29/4/1939) / Lançamento (agosto/1939).

 



 

(Foto tirada no velório de Carmen Miranda)



E os baianos decisivos em sua vida e vice -versa


Dedico este post ao meu amigo Gilberto Cruvinel, fã de carteirinha da notável Carmen Miranda.



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FONTES

- ASSIS VALENTE: coleção folha raízes da música popular brasileira (nº 22). Texto: Moacyr Andrade. Rio de Janeiro: Ed. Mediafashion, 2010.

- ASSIS VALENTE: MPB compositores (nº 37). Ed. globo, 1996.

- ASSIS VALENTE: nova história da música popular brasileira. 2ª ed. rev. e ampl. São Paulo: Abril Cultural, 1976.

- DORIVAL CAYMMI: coleção folha raízes da música popular brasileira (nº 12). Texto: Aluísio Didier: Ed. Mediafashion, 2010.

- DORIVAL CAYMMI: MPB compositores (nº14). Ed. Globo, 1996.

- DORIVAL CAYMMI: nova história da música popular brasileira. 2ª ed. rev. e ampl. São Paulo: Abril Cultural, 1976.

- MENDONÇA, Ana Rita. Carmen Miranda foi a Washington. Rio de Janeiro: Record, 1999.

- SOUZA, Tárik de. Tem mais samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Ed. 34, 2003.

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Comentário de Gilberto Cruvinel em 24 outubro 2010 às 15:19
Obrigado, muitíssimo obrigado Laura

Pelo post tão bem construído e um painel tão abrangente do período em que Carmen estourou por aqui. A primeira grande vendedoras de discos, sucesso absoluto. E ainda por cima, cercada da nata dos compositores da época. Bela foto incial dela cercada por Dorival e Assis Valente. Os dois eram galãs não? Deviam fazer o maior sucesso com as mulheres.
Carmem, como sempre, deslumbrante, alegre, cheia daquela energia vital, aquele não sei quê que certamente hipnotizava a audiência e me hiptoniza ate hoje. Que mulher formidável!

Devo observar também sua invejáveis fontes bibliográficas. Você possoui uma biblioteca de história da música formidável. Coisa preciosa mesmo.

Muito obrigado pelo post tão bem feito e pela gentileza da dedicatória. Emocionante

Beijos Beijos Beijos
Gilberto
Comentário de Gregório Macedo em 12 novembro 2010 às 1:12
Que fantásticas as músicas dos anos trinta! A 'Etc', do Assis Valente, serve de exemplo, e já evoca a velha Bahia, tão louvada nos anos (décadas) seguintes.
Agora, não haveria cabotinismo por parte da deusa ao cantar 'Brasil Pandeiro'; o que houve mesmo foi grande lacuna em face da recusa. O autor ficou ressabiado, e com razão.
Belezura de matéria. Parabéns.
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 12 novembro 2010 às 20:45
Gregório e Gilberto,

Confesso que a ideia inicial desse post era apenas destacar a bela foto e disponibilizar alguns áudios. Mas a pesquisa inicial puxou outras, e mais outras e fui me apaixonando pelo trabalho que durou um bom tempo, também, em virtude de outros temas atuais que foram surgindo e fui paralelamente trabalhando com ambos.

Os comentários de vocês são um incentivo ao meu trabalho de resgate da memória musical brasileira, os quais agradeço de coração.

Beijos.

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