Além Paraíba (MG), 2 de novembro de 2010


Carta de despedida ao Globo

Ilmo. Sr. Rodolfo Fernandes

Diretor de Redação e Editor Responsável de O Globo

Rio de Janeiro-RJ


Prezado Senhor,


Seu jornal, do qual sou assinante há anos, exibiu em sua edição de hoje a pá de cal que lhe faltava. Suponho que eu não seja o único
a pensar assim.

A publicação de um artigo de um obscuro economista na página sete - cujo nome merece ser omitido, para poupar seus filhos, netos e demais parentes da vergonha pública - usando o dia de Finados como dia de luto político e acusando os mais de cinquenta e

cinco milhões de brasileiros que votaram em Dilma de “ assassinos da Ética”
( o grifo é meu), simboliza o que o jornal se transformou: num caderno de
misérias e de rancores.


Não digo que deveriam tê-lo censurado. Uso-o como emblema.


Cancelo aqui minha assinatura.


Resisti muito. É no Globo que leio Luís Fernando Veríssimo. É no Globo que acompanho a vida cultural do Rio, cidade que os mineiros amam, com recíproca escancarada. No Globo vivi manhãs de ruínas e de triunfos.


Agora não dá mais.


Resisti aos conselhos dos que já haviam renunciado às suas páginas. Resisti pelo dever de ouvir opiniões contrárias, não sendo eu o dono das verdades. Correções às minhas visões de mundo valem quando vestidas pela honestidade e pela
decência. No Globo não acredito mais.


A compilação de suas manchetes ao longo dos dois últimos meses é uma antologia abjeta de manipulações e de desavergonhada preferência eleitoral. Despidas da coragem em assumir sua escolha eleitoral. Foram editoriais em si contra o governo, contra a candidata do
governo, contra os que votam no governo, numa tipologia garrafal tomada por depreciações
à inteligência alheia.


Os blocos de articulistas – os habituais e os esporádicos – formaram uma orquestra de ira, de inveja, de soberba. Com raríssimas exceções. Sinônimos de pecados capitais espalharam-se pelas
páginas com uma desfaçatez avassaladora. Um dos colunistas, no auge de patético
desespero, chegou à véspera do pleito a esparramar análises que poderiam ainda “salvar”
seu candidato. Na contramão ridícula de
um resultado desfavorável que já lhe batera à porta.


Todos se deram a uma importância exagerada, quando ela é nitidamente relativa. Alguns se fantasiaram com o direito de escrever a História a seu modo, tentando varrer Lula da sala para o quintal dos esquecidos.


Minha desilusão consolidou-se ao ver o impudente desrespeito aos leitores. Escrevi-lhe com frequência apontando erros propositadamente grosseiros.
Não mandei insultos, embora às vezes não tenha resistido à ironia e ao cinismo.
Só duas de minhas anotações foram publicadas, mas com cortes desleais quando eu
criticava a redação.


Sei que não tenho importância para merecer atenções especiais embora duvide da inexistência de mais leitores iguais a mim. O Globo não sabe ouvir as vozes dos que não cantam as ladainhas de seu coral . São poucas,
mas podem se multiplicar.


Escrevi também, diretamente, para Merval Pereira, Míriam Leitão, Arnaldo Jabor, Ricardo Noblat e até para o Ancelmo Gois. E para um sociólogo de sobrenome italiano, que ocupou
a página editorial quando o desespero já era escandaloso. Tentando enlamear
mais ainda, num nítido esgar de “ fim de feira”, as figuras de Lula e de sua candidata. Uma agonia confrangedora, povoada por clichês, por linguagem de
botequim e por erudições de segunda mão.


Tenho ainda mais quatro importantes motivos:


1 - seria uma traição à minha consciência continuar pagando para assistir a um contorcionismo diário de ódio e de manipulação de fatos;


2 – a rapidez e a multifacetação da internet, onde posso encontrar as informações confiáveis, está livre em minha casa, e é de graça;


3 – não sujarei mais minhas mãos com a tinta negra de jornais;


4 – eu estou salvando árvores, teremos menos papéis ordinários poluindo o mundo.


Deixo claro que sou absolutamente favorável à liberdade de opinião. Não gostaria que O Globo deixasse de existir. Mas liberdade pressupõe também responsabilidade. Inclusive a penal. Liberdade pressupõe o democrático direito
de resposta. E não existe liberdade sem a autocrítica.


É com esta liberdade que enviarei esta carta para outros, por meio da internet. Que eles reflitam, concordem ou corrijam se eu estiver errado.


Com esta liberdade aceitarei a sugestão da presidente eleita: vou usar o controle remoto e trocar de canal.


Cordialmente,


Carlos Torres Moura

Aposentado, 62 anos

Além Paraíba-MG








Exibições: 146

Comentário de Luis Otavio Pinho de Souza em 3 novembro 2010 às 15:50
Prezado Carlos,
Talvez vc não saiba, mas vc faz parte agora de um clube de centenas ou milhares de leitores que largaram o Globo. Eu assinava o jornal há mais de dez anos e por volta do mês passado não aguentei e cancelei a assinatura. Aqui no Rio está complicado, pois o JB parou com o jornal impresso e só me restou o Dia. Não me arrependo. O Dia, talvez percebendo a oportunidade histórica, está bem melhor; fazendo um jornalismo que todos querem: crítico, isento e imparcial. Me livrei da verdadeira milícia formada pelos articulistas do Globo. Proponho, inclusive, uma campanha: vamos cancelar O Globo de nossas vidas, ou algo parecido.
Sds,
Luís Otávio - RJ
Comentário de Carlos Torres Moura em 3 novembro 2010 às 16:01
A minha intenção foi essa, Luis. No blog do Escrevinhador, do Rodrigo Vianna, ao publicar uma crítica editorial ao jornal ele põe a informação de meu cancelamento. Eu quero mesmo que as pessoas de benm abandonem aquele painel de preconceitos.
Comentário de Claudio Cecere Vianna em 3 novembro 2010 às 16:29
Proponho, também, outra campanha: vamos cancelar a Veja! Já cancelei a minha assinatura faz alguns meses. Revistinha abjeta, só publicava as "cartas dos leitores" que seguissem sua linha editorial.
Comentário de José Safrany Filho em 3 novembro 2010 às 18:33
Tem muito mais coisa abjeta rodando por aí: Folha de SP (ou ditabranda), Estadão, Veja, IstoÉ, Readers-indigesto, e dezenas de revistas socialitès sem nada de aproveitável. E tem os provedores de internet dos mesmos, como o UOL da ditabranda, etc. Sugiro uma cruzada nacional (e internacional, por que não?!!!) para que todos, absolutamente todos os brasileiros honrados, patriotas, que querem um país livre de todo o lixo midiático e cultural, que CANCELEM esses famigerados jornalões, tv-a-cabo-tipo-globo-etc., revistas e blogs abjetos!
Existe coisa boa para comprar e assinar: Revistas - CAROS AMIGOS - FÓRUM. Jornal semanário BRASIL DE FATO, entre outros: assinatura@brasildefato.com.br - atendimento@carosamigos.com.br . Na internet, entre outros, sugiro a Telesurtv.net - para notícias internacionais, sobretudo de NOSSA AMÉRICA LATINA.
Comentário de Levy Luiz Souza Santos em 4 novembro 2010 às 2:40
Esquece-se essa malfadada imprensa golpista, que não é mais detentora do monopólio da comunicação em seus decrescentes índices de audiência.O fato é que, os coronéis
e barões de hoje não podem mais apostar na ignorância como escada de assunção
ao poder, e a Globo, Folha, Estadão, Veja, etc., sob pena de cair no descrédito, não pode também apostar na ignorância do povo para despejar seu lixo como se fossemos grandes lixões. Ou eles se enquadram, ou enquadramo-los pela força independente da informação em tempo real via net. A informação hoje está disseminada na rede mundial de computadores e contra isso, a imprensa golpista de sempre nada pode fazer. Atitude semelhante do Sr. Carlos Torres devem pipocar entre todos aqueles que rejeitam esse tipo de imprensa rasteira e ultrapassada. Seus arcaicos cicerones que há trinta anos pensavam que em terra de cego, quem tem um olho é rei, agora chocados tem que conviver com nova realidade. A realidade da massificação da informação via net com seus incontáveis jornalistas e investigadores anônimos, alheios ao controle desses reis depostos.

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