Cartola, no moinho do mundo, por Carlos Drummond de Andrade

 

Cartola (Angenor de Oliveira)
* 11/10/1908 - Rio de Janeiro (RJ)
+ 30/11/1980 - Rio de Janeiro (RJ)

 

 

Hoje, 30 de novembro de 2011, 31 Anos sem Cartola, um dos grandes mestres do samba e referência na música brasileira do século XX.

 

 

Nasceu e cresceu no meio dos bambas cariocas, vendeu sambas no início da carreira para grandes nomes do rádio, fundou a Estação Primeira de Mangueira, fez parcerias com Noel Rosa, Elton Medeiros, Carlos Cachaça e muitos outros, virou lavador de carros, montou o famoso Zicartola, registrou sua obra em discos antológicos. Viva Cartola!!

 

 

 

Transcrevo abaixo crônica de Carlos Drummond de Andrade publicada no Jornal do Brasil, em 27 de novembro de 1980.

 

 

 

 

 

Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita na sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.

 

 

Eu fiz o ninho
Te ensinei o bom caminho,
Mas quando a mulher
Não tem brio,
É malhar em ferro frio.

 

 

 

 “Na floresta” (Carola/Sílvio Caldas) # Sílvio Caldas. Disco Victor (33712-A) / Matriz (65546). Gravação (13/7/1932) / Lançamento (outubro/1933).

 

 

 

Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba da Cartola: Na floresta (na interpretação de Sílvio Caldas).

 

 

Esse Cartola! Desta vez está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: "Tenho um novo amor”, é como se desse a senha para a renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

 

 

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até a sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

 

 

Em “Tempos idos”, o divino Cartola, como qualificou Lúcio Rangel, fez o histórico poético da evolução do samba, que se processou, alías, com sua participação eficiente:

 

 

Com a mesma roupagem
Que saiu daqui,
Exibiu-se para a duquesa de Kent
No Itamaraty.

 

 

Tempos idos” (Cartola/Carlos Cachaça).

 

 

 

 

 

Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar seu samba “Quem me vê sorrir" (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockwski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes da nossa população. Coisa que contagiou a ilustre duquesa.

 

 

Quem me ver sorrindo” (Cartola / Carlos Cachaça).

 

 

 

 

 

Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia cética do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava do compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não.Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo.

 

 

Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho...” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida.O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da  poesia, essa iluminação.

 

 

 

O mundo é um moinho” (Cartola)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As rosas não falam” (Cartola).

 

 

 

 

 

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Fonte:

- Cartola: semente de amor sei que sou, desde nascença, de Arley Pereira; prefácio de Elton Medeiros. – São Paulo: Edições SESC SP, 2008.

- HISTÓRIA DO SAMBA. Rio de Janeiro: Globo, 1997-1998. Quinzenal. 40 fasc. 40 CDs.

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Exibições: 1720

Comentário de Gilberto Cruvinel em 30 novembro 2011 às 20:57

Que maravilha, Laura.

 

Juntar Drummond e Cartola. Ficou muito tocante este post. E lindo, muito lindo. Fiquei muito emocionado lendo e ouvindo o Cartola cantar O Mundo é um Moinho.

Gol de placa, Laura querida

Beijos

Comentário de Laura Macedo em 3 dezembro 2011 às 18:34

Sabe, Gilberto, eu também gostei da junção Drummond & Cartola.

Peguei o livro, recém comprado, do Arley Pereira sobre o Cartola afim de garimpar uma foto do compositor quando me deparei com a crônica do Drummond. Aí juntou a "fome com a vontade de comer" :))

Beijos.

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