Castro Alves do Brasil, para quem cantaste?
Para à flor cantaste? Para a água
cuja formosura diz palavras às pedras?
Cantaste para os olhos, para o perfil recortado
da que então amaste? Para a primavera?

Sim, mas aquelas pétalas não tinham orvalho,
aquelas águas negras não tinham palavras,
aqueles olhos eram os que viram a morte,
ardiam ainda os martírios por detrás do amor,
a primavera estava salpicada de sangue.

- Cantei para os escravos, eles sobre os navios
como um cacho escuro da árvore da ira,
viajaram, e no porto se dessangrou o navio
deixando-nos o peso de um sangue roubado.

- Cantei naqueles dias contra o inferno,
contra as afiadas línguas da cobiça,
contra o ouro empapado do tormento,
contra a mão que empunhava o chicote,
contra os dirigentes de trevas.

- Cada rosa tinha um morto nas raízes.
A luz, a noite, o céu cobriam-se de pranto,
os olhos apartavam-se das mãos feridas
e era a minha voz a única que enchia o silêncio.

- Eu quis que do homem nos salvássemos,
eu cria que a rota passasse pelo homem,
e que daí tinha de sair o destino.
Cantei para aqueles que não tinham voz.
Minha voz bateu em portas até então fechadas
para que, combatendo, a liberdade entrasse.

Castro Alves do Brasil, hoje que o teu livro puro
torna a nascer para a terra livre,
deixam-me a mim, poeta da nossa América,
coroar a tua cabeça com os louros do povo.
Tua voz uniu-se à eterna e alta voz dos homens.
Cantaste bem. Cantaste como se deve cantar

Pablo Neruda
poema de seu livro "Canto Geral"

"Concebido como um Canto geral do Chile ou, mais precisamente, como "uma obra de contornos épicos" que abarcasse "toda a geografia e história do Chile e as suas repercussões no homem", o projecto, iniciado em 1938, viria a transformar-se, com o tempo (especialmente depois da visita efectuada pelo poeta às ruínas de Machu Picchu, nos Andes peruanos, em 31 de Outubro de 1943), num "Canto geral da América". (Albano Martins)

Em sua visita ao Brasil Neruda conheceu a obra do poeta brasileiro e le dedicou este poema.

Exibições: 37

Comentário de Helô em 27 outubro 2008 às 23:35
Rafael
Sempre me orgulho em ter você como amigo.
Que beleza a homenagem de Neruda ao nosso Castro Alves.
A propósito, você assistiu "O Carteiro e o Poeta"?
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 28 outubro 2008 às 21:35
Rafael
Parabéns pela primeira Mensagem de Blog. Vou ficar de olho nas próximas.
O Turíbio Santos é fantástico, eu sabia que você iria gostar. A agenda familiar não permitiu que eu fosse no sábado, mas dei uma passada na exposição (acho que foi na 5ª feira), tirei umas fotos e postei aqui na Comunidade. Você viu?
O trabalho do Erisvaldo nas escolas da rede municipal também é maravilhoso.
Abraços

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