CECILIA BARTOLI FAZ UM RESGATE HISTÓRICO

Cantora meio-soprano italiana grava álgum dedicado aos castrati e estoura nas paradas europeias

João Marcos Coelho, especial para O Estado


Cecilia Bartoli: sucesso de marketing e qualidade ímpar na realização artística

Reuters/Herwig Prammer



SÃO PAULO - O CD teima em não morrer - e ainda é capaz de convulsionar o mercado e ao mesmo tempo emocionar os consumidores. Os números envolvendo Sacrificium, da meio-soprano italiana Cecilia Bartoli, lançado há menos de um mês no mercado internacional (e esta semana no Brasil, selo Universal), comprovam que o paciente está ferido de morte, mas de vez em quando tem espasmos deslumbrantes: um mês antes do lançamento, já era um dos dez mais vendidos do site Amazon; 500 mil cópias desapareceram das lojas na primeira semana; na Espanha, o CD é um dos dez mais vendidos (incluindo pop); no iTunes, é o quinto em número de downloads.

Como ela consegue estes números prodigiosos? Simples: ela transforma cada CD em projeto de marketing. Por isso é o maior best-seller de discos clássicos do planeta: já vendeu, ao longo da carreira, mais de 6 milhões de cópias. Em seu penúltimo CD, Maria, de 2006, fez um tributo à célebre soprano Maria Malibran (1808- 1836). E foi além de gravar as árias que a tornaram famosa: montou uma exposição itinerante num trailer que percorreu a Europa em uma turnê de cerca de dois anos; deixou-se fotografar com roupas e adereços autênticos da Malibran. No ano passado, bicentenário de nascimento da Malibran, fez uma maratona em Paris: cantou em três concertos durante um dia, com Lang Lang, Vadim Repin, Adam Fischer e Myung-Whun Chung.

Agora, transforma Sacrificium em algo atualíssimo. Vamos aos fatos: ela grava, pela primeira vez, 11 árias de compositores italianos desconhecidos, do século 18, escritas para os castrati - cantores castrados ainda meninos, a fim de conservar o timbre angelical de suas vozes; atingindo a idade adulta, uniam duas características impossíveis de se encontrar nas mulheres: tessituras amplas e potência vocal inigualável. Eles dominaram a cena lírica e sacra europeia nos séculos 17 e 18, enquanto perdurou a proibição, pela Igreja Católica, de mulheres cantarem nos templos.

Criador de Vozes

Seus nomes são praticamente desconhecidos: Nicola Porpora, Leonardo Vinci (não confundir com o pintor ), Leonardo Leo, Francesco Araia, Antonio Caldara e o alemão Carl Heinrich Graun. Destes, aqui e ali ouve-se falar no máximo em Porpora e Caldara. O líder era Porpora (1686-1768), o maior "criador de vozes" do século 18. Os cinco maiores castrati da história - Farinelli, Caffareli, Salimbeni, Appiani e Porporino - foram seus alunos. Mas ele deu aulas também para o poeta e libretista Pietro Metastasio, a Johann Adolf Hasse e até para Joseph Haydn.

Bartoli mergulhou em centenas de óperas, cantatas e música sacra destinadas aos discípulos da Scuola dei Castrati, em Nápoles. Saiu com 11 primeiras gravações mundiais que fazem da virtuosidade sua principal marca: piruetas de coloratura, longas frases exigindo pulmões privilegiados, tessitura indo do contralto até o soprano, passando pelo "mezzo". Sem exagero, são as árias mais exigentes, do ponto de vista técnico, já compostas para a voz humana.

Tinha tudo para dar errado, em termos de marketing. Mas La Bartoli, nas entrevistas para a imprensa internacional, enfatiza sempre a atualidade do sofrimento dos castrati. Porpora tocava uma verdadeira "fábrica de máquinas cantantes" em Nápoles, cidade que castrava anualmente 4 mil crianças - e fornecia andróginos sopranos e contraltos para as cortes de toda a Europa. Igualzinho, diz a cantora romana de 44 anos, às fábricas atuais de modelos anoréxicas.

No século 18, o público, extasiado com as impossíveis piruetas vocais dos castrati, gritava delirando "Evviva il coltellino!"; hoje, diz Bartoli, grita-se "Evviva l’anoressia!" no gargarejo das passarelas de moda. Ela traz até Michael Jackson a este universo: "Era um músico magnífico, de grande talento, um gênio de fato. Mas também era vítima de si mesmo. Mutilou-se, veja o que fez com seu corpo, sua pele, seu nariz", declarou numa entrevista recente.

E, depois de tudo isso, é preciso reconhecer: como ela canta maravilhosamente! É hoje talvez a única cantora capaz de enfrentar este repertório praticamente impossível de ser cantado por uma mulher. A edição nacional do CD Sacrificium empobrece demais o projeto. A versão internacional contém um livreto de mais de cem páginas, fartamente ilustrado, com um dicionário A-Z da era dos castrati, além de um CD-bônus com três das árias mais conhecidas, como, por exemplo, "Ombra mai fu", de Haendel.

Por tudo isso, a audição de Sacrificium provoca espanto. Ouça com cuidado, por exemplo, "Cadrò, ma qual si mira", de Francesco Araia: 30 compassos de coloratura ininterrupta, onde Araia reproduz em música palavras como "cadrò" (cairei) e "monte" (montanha) em vertiginosas piruetas ascendentes e descendentes; "Qual farfalla", de Leonardo Leo, de acompanhamento instrumental diferente, com harpa e cordas em surdina, numa ária emotivamente intensa; "Quel buon pastor sono io", do oratório A Morte de Abel, de Caldara, música sacra italiana feita para castrati; "Nobil onda", de Porpora: foi Farinelli que criou Adelaide na ópera de mesmo nome; e "Chi temea Giove regnante", da ópera Farnace, de Leonardo Vinci, também criada por Farinelli.

Esta última é um assombro. Tem até a participação de um artefato barroco chamado "máquina de trovões" que reproduz os sons de uma tempestade. As notas repetidas em staccato a uma velocidade impossível, as frases longuíssimas exigindo pulmões masculinos - você duvida que Bartoli chegue inteira ao final. E ela vence. Aliás, de nada adianta um afiadíssimo projeto de marketing envolvendo uma gravação se não há o principal: uma artista genial capaz de produzir música de altíssima qualidade.

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Comentário de Oscar Peixoto em 21 novembro 2009 às 19:46
Se você quiser complementar o tema em questão, dê uma olhada no meu post de 4 de março de 2009, "De Castrados e Contratenores". Nele, você poderá, inclusive, ouvir La Bartoli cantando All’arme si acessi Guerrieri, de Domenico Scarlatti.
Comentário de Gilberto Cruvinel em 22 novembro 2009 às 13:52
Nossa Oscar.

Só de ler seu belo post, já me deu uma vontade enorme de comprar o CD.
O marketing dela não é fraco não! :-)
Brincadeira à parte, gosto muito da Cecília Bartoli e fiquei realmente interessado
em conhecer este trabalho inusitado. Acho que vou pedir ao bom velhinho que
me traga no Natal.
Excelente artigo Oscar.
Comentário de Henrique Marques Porto em 25 novembro 2009 às 15:49
Oscar,
Ótima dica de CD. A capa é essa aí.
abraço
Henrique Marques Porto

Comentário de Henrique Marques Porto em 25 novembro 2009 às 16:46
E um aperitivo para o meio da tarde.
Henrique Marques Porto

Cecilia Bartoli - Nicola Porpora - Parto, ti lascio, o cara

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