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100 ANOS DO PALÁCIO DA ARTE


As notícias da inauguração do Teatro Municipal, cujo centenário se celebra nessa terça-feira, são curiosas crônicas de época. O "Correio da Manhã", que se referiu ao prédio como um "monumento nacional", relatou "um verdadeiro sucesso, sucesso este que só se pode comparar com o que está tendo a Casa Colombo com a sua colossal liquidação". O jornal "O Século" fez um leve comentário crítico antes de concluir com um elogio: "Está oficialmente inaugurado o Teatro Municipal, obra em que se gastou muito dinheiro, mas está suntuosamente levantada". O periódico "A Imprensa" adotou um otimismo saudosista: "... o Teatro Municipal avulta num deslumbramento de ouro e mármore, de cristais e vitrais. E, para todos nós, ele, ali está, como uma esperança de melhores dias para a nossa arte dramática, que a incoerência de uns e a má compreensão de outros deixam cair até a degradação do momento atual."


Vê-se que os nossos bisavós já reclamavam que bom mesmo era no tempo dos avós deles. Mas o que todos os jornais tinham em comum era a propensão ao enaltecimento: "A Notícia" e o "Jornal do Commércio" apelidaram o teatro de "monumento suntuoso" e relataram que uma multidão foi admirá-lo, por fora, na noite de abertura, dando passagem aos poucos felizardos convidados para a festa. Um desses foi o escritor Olavo Bilac, que discursou: "Dentro do teatro reside a vida civilizada, tudo quanto ela tem de sério e amável, de forte e de meigo. Dentro dele impera o pensamento. Faltava-te este palácio, cidade amada!"


Nas décadas seguintes, a plateia do Municipal viu diante de si a atriz Gabrielle Réjane, os bailarinos Vaslav Nijinsky e Anna Pavlova, o tenor Enrico Caruso, as sopranos Maria Callas e Renata Tebaldi, o regente Arturo Toscanini, os compositores e maestros Igor Stravinsky e Richard Strauss, os pianistas Arthur Rubinstein e Claudio Arrau e muitos outros mitos capazes de convencer os jovens de hoje que consultarem seus avós de que bom mesmo era no tempo deles.

Viram-se também escândalos. O registro do primeiro é de dois anos após a inauguração, provocado pela peça "Chantecler", de Edmond Rostand. No livro "Memórias e glórias de um teatro", o autor Edgard de Brito Chaves Jr. conta que "foi uma verdadeira revolução quando se viram em cena atores e atrizes representando galos, galinhas, faisões, corujas e cachorros a dialogarem num galinheiro". Aquilo foi um acinte para um público elegante que seguia a alta moda parisiense e tinha especial apreço pela temporada de espetáculos franceses do teatro, cujos programas vinham acompanhados de um frasco de perfume e um saquinho de pó-de-arroz ou um lencinho.

Ao longo dos anos, outras histórias do gênero se somaram a essa, como quando uma soprano sem talento, amante de um ministro, interpretou Mimi na ópera "La bohème" e, ao bater numa porta cenográfica antes de voltar à cena, suscitou um grito da plateia: "Não abram! É aquela cantora horrorosa!"

Entre os vexames, conta-se o do tenor Alfredo Colosimo, que, em 1956, era carregado num trono durante a ópera “Aida”, mas acabou desabando no palco, devido à força da gravidade sobre seus 120 quilos. Ainda assim, foi menos constrangedor do que a ocasião em que o então presidente da Funarte, Guilherme Figueiredo, gestor do teatro, teve que subir ao palco e pedir desculpas aos espectadores depois que dois bailarinos com salários atrasados se demitiram em público e saíram de cena.

Num tom cômico, o encenador Fernando Bicudo tem anedotas que nada deixam a dever a cenas de filmes como “American pie”.
- Numa montagem de “Aida” que fiz em 1986, um cavalo que estava no palco deu uma forte mijada. Acontece que o palco era inclinado. O mijo escorreu em direção à orquestra e caiu dentro da tuba. Foi um alvoroço entre os músicos – conta, às gargalhadas, Bicudo.
- Em outra ocasião, quando fiz “Orfeu”, chamei o ator Vinicius Manne para fazer uma estátua viva, nu, pintado de branco. Eu e o resto do Brasil sabíamos que ele tinha um bumbum bonito, porque aparecia na abertura da novela “Brega e Chique”. Perguntei à minha irmã , que era namorada dele, se a parte da frente também era legal, e ela disse que eu poderia escalá-lo sem medo para o papel. Era verdade. As vovós do coro ficaram em polvorosa, bolinando-o e esbarrando nele o tempo todo. Até tiraram fotos nos ensaios.

A bolinação também corria solta nos bailes carnavalescos que aconteceram dentro do teatro a partir de 1933 e que atraíram personalidades como o ator Kirk Douglas. Os folguedos foram proibidos em 1977, sob a alegação de que traziam prejuízos para a casa, principalmente pela instalação de decoração e de bufês. Houve um ano em que fizeram churrasquinho no foyer, deixando tudo engordurado.



Nos bastidores do teatro, empregados humildes dão valor ao contato que travam com a grande arte. Com 30 anos de serviços prestados ao Municipal. O técnico de palco Jorge Dias conta que a maior emoção de sua carreira foi quando trabalhou na ópera “La Traviata”, dirigida pelo italiano Franco Zeffirelli.
- No fim do espetáculo, Zeffirelli chamou ao palco o Adolpho Bloch, que era presidente do teatro, e os funcionários que trabalharam na montagem. Então, ele disse que nós éramos a melhor equipe técnica que já tinha visto. Essa lembrança, terei sempre.

(Texto de Eduardo Fradkin, extraído de O GLOBO – 12.07.2009)


Divulgação - 100 ANOS Theatro Municipal do Rio de Janeiro


Veja a programação do evento, a seguir.

Dia 14 de julho de 2009

- Das 10 às 16h. - Visita ao Theatro - entrada pela Av. Rio Branco

- às 14h. - ABERTURA

ESCOLA DE DANÇA MARIA OLENEWA (Alunos do Curso Técnico)
Ballet La Valse
Coreografia: Eric Frederic
Música: La Valse, M. Ravel

BALLET DO THEATRO MUNICIPAL
- COPPÉLIA
(Balada)
Música: Léo Delibes
Coreografia: Enrique Martinez

- CANTABILE
Música: Samuel Barber
Coreografia: Oscar Araiz

- O CORSÁRIO
Música: Adolphe Adam
Coreografia: Jules Perrot

- VALSA DAS FLORES
Música: Piotr Ilitch Tchaikovsky
Coreografia: Dalal Achcar


- às 20H. - GALA

Ballet, Coro e Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal
Solistas convidados: Marcelo Álvarez (tenor) e Sumi Jo (soprano)
Regência: Roberto Minczuk


Hino Nacional Brasileiro

Carlos Gomes
Aspra Crudel - Il Guarani

Gounod
Je veux vivre - Romeo et Juliet

Massenet
Pourquoi me Réveiller - Werther

Offenbach
Chanson d"Olympia - Tales from Hoffman

Carlos Gomes
Quando Nascesti Tu - Lo Schiavo

Bizet
Abertura - Carmen
Parle moi de moi merè - Carmen
Les Voici - Carmen

F. Mignone
Maracatu de Chico Rei

Villa-Lobos
Canção de Amor - Floresta do Amazonas

Floresta Amazônica | Tarde Azul
Coreografia: Dalal Achcar

Chabrier
Fête Polonaise

Grand Finale
Coreografia: Dalal Achcar

Ravel
Bolero

Hino da França
Marseillaise
- Orquestração de Berlioz


Sumi Jo canta "Je veux vivre" - Romeo et Juliette, Gounod



Marcelo Alvarez canta "Pourquoi me réveiller" - Werther, Massenet

Exibições: 399

Comentário de Helô em 13 julho 2009 às 13:34
Óscar
Voltei ao ano de 78, na reinauguração do Municipal depois de passar por sua primeira grande reforma. Eu passava a semana santa no Rio e, curiosa para conhecer aquele belo palácio, fui assistir Turandot. Com 23 anos de idade e sem alguém que me despertasse o interesse para a beleza da ópera, meus ouvidos ainda não estavam preparados para aquela cantoria, mas meus olhos brilharam intensamente com aquela maravilhosa construção. Mal sabia eu que anos mais tarde Turandot seria uma das minhas óperas favoritas. Aquela noite foi mágica e até mesmo surreal. No intervalo de um dos atos, enquanto a sociedade carioca exibia os brilhantes no Salão do Assírio, na outra esquina o carnaval rolava solto no Bola Preta. Era sábado de aleluia!
Aleluia, Oscar! Viva o Teatro e viva você, que um dia já cantou no Municipal e não deixou passar em branco a data solene. O documentário de divulgação é emocionante.
Em homenagem ao centenário, trouxe duas fotos da Revista Fon Fon. Uma dela mostra o local onde foi construído o Theatro, antes e depois. A outra mostra a atriz francesa Réjane, certamente a Gabrielle Réjane citada no post. Foram publicadas no dia 03-07-1909, poucos dias antes da inauguração.
Beijos!

"O que era ainda há pouco tempo o local onde se ergue hoje o Theatro Municipal"



"A visita da celebre artista franceza ao Theatro Municipal. (da direita para esquerda) Réjane, o Dr. Oliveira Passos, Dario Nicodemi, o festejado autor de Le Refuge, ultimamente representado em Pariz e o Dr. Alvarenga, engenheiro auxiliar das obras do Theatro Municipal." (cliche especial de Fon-Fon)
Comentário de Laura Macedo em 15 julho 2009 às 21:32
Oscar,
O Teatro Municipal bate palmas para essa sua homenagem... E pensar que tenho um amigo que já cantou no centenário Teatro Municipal...quanta emoção...
Beijos.
Comentário de Oscar Peixoto em 16 julho 2009 às 0:37
Laura,
Minha amiga Helô me deixou, como diria..., numa bermuda justa! Dizem que a amizade, não vê os defeitos e exagera as qualidades dos amigos. Para ela, minha fã número um, sou um Caruso redivivo... Creio que isso explica seu equívoco.
Confesso, cometi pecadilhos canoros no passado. Andei, depois de aposentado, gorjeando por aí (as más línguas diziam que era mais gorgolejo do que gorjeio), o que muito me gratificou (até financeiramente, diga-se) nos primeiros anos de “dolce far niente”. Como isso aconteceu é uma história curiosa, meio inverossímil (embora fartamente documentada), mas para ser contada em mesinha de bar acompanhada de chopinho gelado.
Ocorre que não cheguei a cantar no Teatro Municipal. Cantei, sim, parecidinho com o Marcelo Alvarez (hohohoho), em frente ao Teatro Municipal (creio que o teatro também estava em obras na época), em 30 de maio de 1996, na Cinelândia, na mesma base de palanque armado na calçada, por ocasião do Concerto Comemorativo do Centenário da Morte de Antônio Carlos Gomes, com a Orquestra Filarmônica do Rio de Janeiro, sob a regência do Maestro Florentino Dias.
Outra semelhança (talvez a única, infelizmente) com o Marcelo Alvarez, foi uma das peças que cantei naquela ocasião, a ária “Quando nascesti tu”, do Schiavo, de Carlos Gomes. Até que dei conta do recado direitinho, considerando que essa ária é um tremendo destronca-peito que já derrubou muito tenor bom por aí.
Então, fica esclarecido: fui cantor amador, na acepção literal da palavra. Quando deixei de amar o que fazia, parei. Outro papo para o tal encontro no boteco. Não quero ser processado por propaganda enganosa :-)
Comentário de Laura Macedo em 19 julho 2009 às 23:04
Oscar,
Sou mais Brasil do que Argentina, portanto o Marcelo Alvarez que me desculpe, fico com a prata da casa, você :-)
A amizade é uma das coisas mais belas da vida. E como você bem disse, dos amigos não enxergamos os defeitos e tão somente as qualidades. Como é bom ter amigos! É muito bom tê-lo como amigo!
Quem sabe um dia a “trupe” do teatro de revista se encontre na cidade maravilhosa e você nos conte o que só pode ser contado numa mesa de bar regada a um chopinho?
As suas ressalvas não diminuíram minha emoção...
Beijos.
Comentário de Henrique Marques Porto em 22 julho 2009 às 23:04
Oscar,
Vou entregar o nome da "soprano horrorosa" protagonista da noite em que foi impedida de cantar a Bohéme. Trata-se de Lia Salgado, e não era amante, mas esposa do poderoso Clóvis Salgado, ministro de Getúlio. A história que me contaram foi assim: Montagem da Bohéme e Lia Salgado no papel principal, por "sugestão" do marido. Logo no primeiro ato, a personagem Mimi (no caso a Lia Salgado) bate à porta de Rodolfo para acender uma vela. A orquestra faz silêncio. "Toc...toc...toc...". Rodolfo teria que responder e dar sequência à cena romântica que encerra o primeiro ato. Mas antes que ele cometesse a temeridade um gaiato espirituoso empoleirado lá nas galerias se esticou e gritou aflito com as mãos em concha na boca: "Rodolfo! Não abre a porta não que é a Lia Salgado!". Coro de gargalhadas e pano rápido até chamarem uma substituta.
Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Bebê de Lima Castro era uma senhora bonita e rica. Podre de rica. Bem jovem foi Miss Brasil do início século e depois... "soprano lírico". Destroçava canções e cançonetas com a vozinha irritante nos saraus domésticos. Mas queria muito mais do que isso. Queria o palco do Municipal e cantando o quê? La Traviatta, uma ópera que atrai as divas equivocadas. O maridão endinheirado praticamente alugou o teatro para Bebê de Lima Castro se esgoelar a vontade no palco imenso e nobre. Até contratou o respeitado empresário Silvio Piergigli para formar o resto do elenco e se encarregar da montagem. Mas esqueceu de combinar o assassinato de Verdi com o público. Sábio público, naquele tempo muito bem educado musicalmente. A bela abertura da ópera correu normalmente e o público, em respeito à orquestra e ao regente, manteve-se quieto e se deliciou com a música. Mas assim que o pano abriu um rumor uníssino cresceu da galeria e balcões e evoluiu rápido para enorme e indomável vaia. Soube-se então que grande parte do público comprara ingressos para defender Verdi da voz de Bebê de Lima Castro. Silvio Piergigli, o empresário, identificou com surpresa um amigo seu como um dos líderes da pateada e pediu aos seguranças que o trouxessem à sua frisa. Tentou convencê-lo a ceder e até o ameaçou de prisão. Ao que ele respondeu: "- Silvio, não adianta me manter na sua frisa ou me prender. Hoje, essa mulherzinha não berra aqui!" E assim Verdi foi salvo. Ao menos por uma noite.
abração
Henrique Marques Porto
Comentário de julio campos em 1 novembro 2010 às 18:44
eU Q NUNCA , MAS SOU AMANTE DO CANTO LIRICO E SOU APAIXONADO PELO NOSSO BELO tEAYRO MUNICIPAL, LEMBRO DE ALGUMAS PASSAGENS GROTESCAS.
uMA SOPRANO ITALIANA Q NA ÓPERA tOSCA AO SER JOGADA NUMA PEQUENA POLTRONA, A MESMA QUEBROU .
lEMBRO TAMBEM QUANDO O SENHOR gUILHERME FIGUEIREDO LEVOU UMA VAIA HOMERICA AO JUSTIFICAR A DESISTENCIA DOS CANTORES ITALIANOS Q SE RECUSARAM A CONTINUAR A CANTAR A tOSCA, TUDO POR FALTA DE PG, QUEM SALVOU O ESPETACULO FOI O GRANDE TENOR ZACARIAS MERQUES, TENHOS OUTRAS PASSAGENS INTERESANTES, MAIS NÃO QUERO ME PROLONGAR.

mAS TENHO COISAS BOAS , AOS MEUS 76 ANOS, AUTOGRAFO DE DEZENAS DE CANTORES NACIONAIS E ESTRNGEIROS, COMO mARIA cALLAS, jOSE iTURBI, dORITI KRYSTIM, ETC ABRAÇOS JULIO
Comentário de Helô em 16 janeiro 2012 às 14:32

Laurinha

Eis o registro em vídeo do que disse o Oscar. Na época, o Municipal estava realmente em reformas. O vídeo foi colocado no YouTube pelo nosso querido Henrique.

Comentário de Henrique Marques Porto em 16 janeiro 2012 às 15:12

Helô e Laurinha,

O Oscar deve ter penado nesse concerto, coitado! Mas ele nunca me falou sobre ele. Só ontem na casa dele eu fui conhecer a existência do vídeo. Seu filho mostrou e me deu uma cópia.

Por que o Oscar deve ter penado? É que ele nem devia estar se ouvindo, pô! Por falta de retorno. Ou então se ouvia, mas não ouvia bem a orquestra. Dá para notar a precariedade do palco e da aparelhagem de som. Some-se a isso o barulho do trânsito e mais o falatório das pessoas. Certamente foi por isso que ele não dispensou a partitura -forma segura de seguir o que foi combinado nos ensaios e na passagem de som. Então é preciso dar esse desconto em alguns pequenos deslizes.

No entanto, com todas as dificuldades das condições do placo e do ambiente, é possível reparar na facilidade com que Oscar emitia o som. Respira corretamente, não se nota esforço algum. O agudo final saiu perfeito! Talvez a maior qualidade de um tenor seja essa: não temer os agudos. Os tenores são vozes vocacionadas para o agudo. É essa a natureza de sua tessitura, assim como os sopranos. Já vi montes de tenores cantarem "para dentro", na hora do agudo. O Oscar abria a boca e mandava ver!

O vídeo VHS, que tem apenas 20 min (capacidade da fita usada), foi feito pelos filhos do Oscar, Marcus e Sandra. Eles me disseram que só tinham um ângulo para a filmagem. Se afastassem mais a câmera para uma visão geral ou buscassem outra posição, a luz dos refletores batia direto na lente e ficava tudo branco. Mas a qualidade do vídeo é ótima. 

Por sinal, o Oscar está bombando no YouTube! O "Lamento di Federico", postado no dia 12, já está com 441 visualizações!

beijão

Henrique

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