Vinicius de Morais

*19/10/1913 - Rio de Janeiro (RJ)
+ 9/7/1980 - Rio de Janeiro (RJ)

 

Poeta / Compositor / Teatrólogo / Jornalista / Diplomata.

 

Celebrar o Centenário de Vinicius de Moraes é sinônimo de Poesia, Música e Paixão três vertentes que permearam sua vida e obra.

 

Poesia, Música e Paixão - Tudo Misturado.

 

 

 

 

Casos Pitorescos do Poetinha, por Maria Lúcia Rangel *

 

 

 

Tive a sorte de ser amiga de Vinicius de Moraes graças ao meu pai, Lucio Rangel, também um apaixonado por música, e a minha profissão de jornalista.

Não lembro exatamente quanto começaram minhas conversas esotéricas com Vinicius de Moraes. Aconteciam sempre depois das entrevistas para o Caderno B, do Jornal do Brasil, onde eu trabalhei nos anos 1970.

Ele na banheira cheia de espuma e, dependendo da hora, com um copo de uísque numa mão e um cigarro na outra. Eu, sentada num banco baixinho ao lado. Ele dava uma meia pausa e introduzia o assunto: “Sabe que o fulano me apareceu?”. Fulano podia ser Antonio Maria ou Sérgio Porto, ambos mortos havia pouco tempo. E por “aparecer”, que fique bem claro, Vinicius sentia uma percepção daquela pessoa através de um copo que caía sozinho, uma luz que se apagava ou algo assim. (Mª Lúcia Rangel).

 

 

 

 

 

CASO 1

 

 

 

 

A história mais impressionante aconteceu durante a Segunda Guerra, ele ainda casado com Tati e morando no Leblon. Acordou de madrugada com o quarto todo tremendo. Pensou ser uma ressaca do mar. Levantou-se pé ante pé para não acordar a mulher, foi até a sala e deparou-se com um mar calmíssimo. Voltou para a cama, agora munido de uma folha de papel e um lápis, sentou-se no escuro e sentiu sua mão riscando o papel. Riscou, riscou e terminou como se estivesse assinando algo. O quarto então parou de tremer. Ele acendeu a luz e deparou-se com um desenho de seu amigo Carlos Scliar, assinado pelo artista. Tento agora escrever suas exatas palavras verbatim:

 

 

Fiquei tão triste, sabe? Me deu uma fossa! O Scliar era pracinha e estava na Itália. Meu primeiro pensamento foi: Scliar morreu e está me avisando. Esperei o dia clarear e fui para o Amarelinho [bar na Cinelândia onde os jornalistas se reuniam]. Dali a pouco um deles chegou com a notícia: a mãe do Scliar tinha morrido durante a madrugada no Rio Grande do Sul. Foi um alívio! Minha irmã guardou esse desenho”. (Vinicius de Moraes).

 

 

 

 

 

 

 

 

CASO 2

 

 

 

Anos depois, um grupo de jovens foi conhecer Ouro Preto ciceroneados pelo poeta: Vera Hime, na época namorada de Vinicius, Wanda Sá com o namorado e arquiteto Manoel Ribeiro, Dori Caymmi e a mulher, Ana Beatriz, e eu. Tive oportunidade, então, de constatar como Vinicius “via” um morto. Todos nós “vimos” com ele.

 

 

Saímos do Rio para Belo Horizonte no trem noturno. E como era praxe com Vinicius, passamos a noite toda no vagão-restaurante bebendo e conversando. Em plena ditadura – era 1968 – levamos uma dura, ainda na estação, por conta de um beijo que Wanda deu no namorado Manoel. Vinicius quis encarar o coronel “em nome do amor”, mas a turma do deixa-disso conseguiu dissuadi-lo. Dois táxis nos levaram da estação mineira à casa de Eloy Heraldo Lima, médico de Vinicius e de Fernando Sabino, para um café da manhã. De lá, seguimos nos táxis para Ouro Preto.

 

 

Chegamos com a cidade repleta de jovens, em pleno festival de inverno. Vinicius e Dori se hospedaram na Pousada do Chico Rey. O belo sobrado ficava bem no centro da cidade e era frequentado por celebridades, como Zélia e Jorge Amado, Elizabeth Bishop, Pablo Neruda, o pintor Carlos Scliar. Até Sartre e Simone de Beauvoir passaram por lá. Bem ao lado da pousada ficava a casa de Rodrigo Mello Franco de Andrade, pai do cineasta Joaquim Pedro e na época diretor do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Muito amigo de Vinicius, cedeu a casa aos mais jovens: Wanda, Manoel e eu. Passávamos o dia juntos ou passeando pela cidade com os jovens mineiros atrás de Vinicius.

 

 

Uma tarde, depois do almoço, somente nosso grupo, sentados numa mesa redonda diante da lareira, embalados pelo uísque, começamos a cantar ao som dos violões de Wanda, Dori e Vinicius. O dia foi caindo, a sala escurecendo aos poucos, iluminada apenas pelas chamas de lareira. E o assunto caiu em Dolores Duran. Vinicius lembrou que moraram no mesmo prédio e não era raro ela bater em sua porta de madrugada com crise de depressão. E, claro, começamos a cantar músicas de Dolores. O violão passava de mão em mão, cada um lembrando uma canção. Foi aí que “vimos” Dolores.

 

 

Por acaso, eu tinha atarraxado a tampa da garrafa de uísque. De repente, no meio de uma música, a tampa pulou alto e pousou na mão de Vinicius. “Saravá”, gritou Wanda, seguida por todos. Ela preparou um uísque para Dolores, colocou na mesa e continuamos cantando suas composições, agora com sua presença.

 

 

 

 

 

 

CASO 3

 

 

Vinicius já era muito amigo de meu pai [Lúcio Rangel] quando o conheci. Cursaram Direito juntos e partilhavam o gosto por literatura francesa, música brasileira, jazz e uísque. Tenho certeza ter sido este o motivo de não terem levado adiante o projeto de uma enciclopédia da música popular assinada pelos dois.

 

Foi em Petrópolis que conversamos pela primeira vez, na antiga Confeitaria Copacabana, ele casado com Lucinha Proença. Nesta época me convidou para um show que daria no ginásio da PUC, no Rio. E surpreendeu Edu Lobo ao chamá-lo ao palco. Foi a primeira vez que Edu se apresentou em público. E me surpreendeu também. Ao entrar no ginásio ele já estava no palco e me acenou de longe. Tive que enfrentar os olhares de todos os estudantes.

 

 

 

 

 

CASO 4

 

 

 

Quando ele se casou com Nelita, a cobertura em que moravam no Jardim Botânico estava sempre repleta de jovens. E as festas eram memoráveis, só com os amigos mais chegados, como Tonia Carrero e César Thedim, Fernando Sabino, Wanda Sá, Rubem Braga e os filhos com namorados e namoradas.

 

 

Quando se separaram, Nelita continuou no apartamento. Um dia Vinicius me telefonou pedindo um favor: “Lucinha, será que você pode pedir à Nelita para me dar meu retrato feito pelo Portinari?” Na mesma hora Nelita tirou o quadro da parede e me entregou. Saí com a tela sem qualquer proteção, colocada no chão do meu fusca. Hoje o quadro está na casa de sua filha Suzana

 

 

 

 

 

 

CASO 5

 

 

 

Petrópolis era uma cidade que Vinicius adorava. A casa de Cícero Leuenroth, publicitário e pai de Olivia Hime, estava sempre aberta aos amigos da filha. O poeta às vezes chegava de táxi, sem avisar, dizendo que dormiria na “vaga”. Se alguém acordava mais cedo ele corria para a cama desocupada e tirava um cochilo.

 

Numa madrugada de 1971 fui dormir e deixei Vinicius e Toquinho na sala. Acordei no meio da madrugada com os dois entrando quarto adentro e me entregando um copo de uísque. Eufóricos, sentaram-se na minha cama, Toquinho deu os primeiros acordes e começaram a cantar a música que tinham acabado de compor, “Tomara”. Foi uma alegria. Repetiram umas dez vezes, felizes com a nova parceria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Francis Hime, Dori Caymmi, Vinicius e Wanda Sá no show - Só por amor

 

 

 

CASO 6

 

 

Amoroso gostava de contar histórias e ensinar aos jovens. Eu me lembro dele discorrendo sobre como escovar os dentes: “Escovem sempre a língua e o céu da boca para não terem mal hálito”. Sua sensibilidade foi mais longe ainda ao detectar que eu andava com problemas: “Lucinha, você não acha que está precisando de uma psicoterapiazinha?”. Marcou então uma hora pra mim com um psicanalista amigo dele.

Ensinava também muita diversão. Quando fez o show "Só por amor" no Teatro Poeira, na praça General Osório, em Ipanema, acompanhado por Francis Hime ao piano, Dori Caymmi no violão e Wanda Sá cantando, nos levava depois a um bar na esquina da praça para oferecer caipirinha, bebida que ninguém conhecia até então.

 

 

 

 

 

 

Poderia continuar falando de Vinicius por muito tempo, como quando conheceu a cantora Maria Creuza e me fez ficar em sua casa para conhecê-la também, ou quando se apaixonou por Gesse e perdeu o medo de avião, apresentado que foi à Mãe Menininha, ou quando apanhou de uma ex-mulher e ficou com a virilha toda ferida. Mas prefiro terminar com a dedicatória que fez numa primeira edição, rara, do livro A casa:

 

 

Para minha Lucinha querida, com A Casa, o poeta e tudo o que, de amor e carinho eles comportam; e o beijo mais amigo do Vinicius”.

 

 

 

Maria Lúcia Rangel o seu amigo Vinicius de Moraes, certamente, está aplaudindo seu belo, delicioso e emocionante relato. VIVA VINICIUS DE MORAES!

 

 

 

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* Maria Lúcia Rangel é jornalista/escritora.

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Fontes:

Blog do IMS (Instituto Moreira Salles).

- Montagem de fotos: Laura Macedo.

- Site YouTube.

 

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Comentário de Gregório Macedo em 16 outubro 2013 às 3:14

Os causos são mesmo deliciosos - e não falo mais nada, visto que você, querida, no final já disse tudo.

Beijos.

 

Comentário de Laura Macedo em 16 outubro 2013 às 14:34

Gregório, nós dois adoramos "causos", não é mesmo?

Estou tentando garimpar outros.

Beijos.

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