por Laura Macedo e Luciano Hortêncio

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vide atualização no final do post

 

Aloysio de Alencar Pinto
* 03/02/1912 ¹ - Fortaleza (CE)
+ 06/10/2007 - Rio de Janeiro (RJ)

Pianista / Compositor / Musicólogo / Folclorista

 

 

Aloysio de Alencar Pinto foi um grande brasileiro que durante seus 96 anos bem vividos deixou um legado imensurável à cultura brasileira e áreas afins, atuando como pianista, compositor, musicólogo e folclorista, além de professor, pesquisador, diretor de rádio e integrante de várias instituições ligadas à área cultural.

Cearense de Fortaleza, começou a estudar piano com a tia Hortência Jaguaribe de Alencar, aos sete anos. Posteriormente foi aluno da professora Ester Salgado Studart da Fonseca, uma das fundadoras do Conservatório Musical Alberto Nepomuceno, ainda hoje a principal instituição de ensino de música do Ceará.

 

 

 

 

Aos 16 anos conheceu Nicolai Orloff, virtuose do piano, que se tornou seu professor e mentor por toda a sua vida, mediante contatos frequentes no Brasil e na Europa, até a morte daquele mestre, nos anos 60. Ainda na terra natal concluiu o curso de Direito.

 

 

Depois eu estudei harmonia aqui com um grande professor italiano, que viveu alguns anos no Ceará, e que teve o seu nome muito ligado ao Ceará. Foi o professor Luigi Maria Smiddo. Era um grande maestro italiano, regente, professor de matérias teóricas, com quem estudei harmonia aqui no Ceará. E foi o maestro Smiddo quem me deu, vamos dizer, os primeiros rudimentos da arte de compor.

 

 

Aloysio, na sua modéstia, acrescenta: “apesar de ter tomado as aulas com o maestro, eu levei muito tempo sem me dedicar, sem ter tempo de me dedicar à composição. Gostava, mas não levei à frente, não levei pra adiante”.

 

 

Segundo o site Sovaco de Cobra, “constam na obra de Aloysio mais de 400 peças, entre missas, cânticos sacros, música para canto, orquestra, órgão, piano, além de ritmos indígenas e afro-brasileiros. Imaginem no caso de dedicação e tempo à arte de compor.

 

 

 

 

Outro ponto em sua formação é o fato de que seu pai foi um dos pioneiros do cinema no Ceará (não como cineasta, mas como proprietário de uma sala de projeção) e amante da Sétima Arte.

 

Estudioso da música para o cinema, em especial do cinema brasileiro, produziu para a Cinemateca do MAM - Museu de Arte Moderna, do Rio de Janeiro, uma série de trilhas sonoras para filmes mudos ali exibidos.

 

Foi consultor brasileiro na ‘finalização’ do filme "It’s all true" (É tudo verdade), sobre fotogramas da obra inacabada de Orson Welles no Ceará, nos anos 40.

 

 

 

 

Segundo Georges Frederic Mirault Pinto, seu filho, Aloysio “era um admirador do cinema western e da obra de Orson Welles, com quem conviveu nos anos 40, quando da passagem daquele cineasta por Fortaleza.

 

 

No Rio de Janeiro, onde estudou com o pianista Barroso Neto, concluiu com louvor o curso de piano no Instituto Nacional de Música, sendo agraciado com a medalha de ouro por seu excelente desempenho. Esse prêmio oportunizou sua ida a Paris, objetivando seu aperfeiçoamento com grandes nomes do piano mundial - Robert Casadeus, Nicolai Orlov, Marguerite Long e Nadia Boulanger -, recebendo no fim do curso o grande prêmio Mention d’Honneur du Concours de Virtuosité, maior prêmio concedido pelo Conservatoire Américain au Palais de Fontainebleau a um músico.

 

 

Ao retornar, fixou residência definitiva no Rio de Janeiro, priorizando inicialmente a atividade concertística, realizando concertos diversos pelo país afora. Posteriormente focou seu trabalho nas áreas da docência, composição, pesquisa histórica da música brasileira e outras atividades afins, como veremos a seguir.

 

 

Como compositor notabilizou-se pelo “Ciclo de canções afro- brasileiras”, “Cantos indígenas”,Acalantos brasileiros”, “Suíte sul americana (plano)”,Suíte brasileira” (ciclo - para 2 pianos),  O Natal brasileiro”, para coro misto,Ponteios para violão”,Glória in excelsis”, para soprano e orquestra”, “Sarau de Sinhá” -ballet, para piano a quatro mãos e orquestra sinfônica - além de numerosas peças avulsas para piano solo e música de câmara. Estas obras foram gravadas em, pelo menos, 18 discos LP e CD, no país e no exterior.

 

 

Entre as suas obras citadas acima destacamos o bailado “Sarau de Sinhá”, original
para piano a 4 mãos, gravado em Discos Marcus Pereira, pelo duo Kaplan-Parente.

 

 

 

Sarau de Sinhá é um pequeno balé, um balé em uma parte, uma espécie de divertimento coreográfico sobre cenas de uma festa no Rio antigo. Nela, eu apresento algumas danças do século XIX, danças européias que se aclimataram no Brasil, como a
Polca, a Schottisch, a Contra-dança, a Valsa, que aqui chegou ainda no século XVIII, e uma série de cenas que integram o que eu denominei o Sarau. Quer dizer, a festa, misturada, um pouco festa e um pouco tertúlia porque no balé aparece um recitativo, há um poeta que declama alguma coisa, algum soneto, versos, como era de praxe nos salões artísticos da época
”. (Depoimento de Aloysio de Alencar Pinto ao Museu Fonográfico de Fortaleza).

 

 

 

 

O disco do duo Parente-Kaplan tocando o Sarau de Sinhá é notável, só que, segundo o próprio compositor, ele nunca chegou a receber pelos direitos autorais desse álbum, que vendeu bastante.

 

 

Sarau De Sinhá” – Schottish / Polca / Romance / Contradança / Valsa / Noturno / Capricho / Lundu / Recitativo / Galope. (Aloysio de Alencar Pinto) # José Alberto Kaplan & Geraldo Parente.

 

 

 

 

 

 

Foram também gravadas as suas harmonizações de cantos indígenas e
afro-brasileiros, por Maura Moreira e Sônia Maria Vieira, pela PROMEUS da
Funarte, 1979.

 

 

 

Clique no nome do disco e ouça todas as faixas: O Canto da Terra

 

 

 

 

 

Aloysio foi um estudioso e grande intérprete da obra de Ernesto Nazareth. Confiram no vídeo abaixo.

 

 

Fon-Fon” – tango - (Ernesto Nazareth) # Aloysio de Alencar Pinto. Album: Os Pianeiros.

 

 

 

 

 

 

 

Aloysio integrou o Instituto Nacional do Folclore, do qual foi Diretor de Pesquisa, e lá produziu dois dos mais importantes trabalhos sobre o folclore brasileiro: o "Documentário Sonoro do Folclore Nacional", com 44 discos, e "Da Arte da Cantoria", com 4 discos reunindo belíssima antologia sobre cantadores do nordeste brasileiro.

 

 

 

 

Ainda no referido instituto realizou pesquisas de campo, principalmente no seu estado natal, como a “Romarias de Canindé”, da série "Romarias brasileiras", contando com o apoio da Embaixada da Itália no Brasil.

 

 

 

 

Foi por muitos anos diretor da Rádio MEC, na qual produziu, em colaboração com Haroldo Costa, programas sobre a música popular brasileira e internacional, como "Estampas brasileiras" e "Mosaico panamericano".

 

Ocupou a cadeira de membro titular da Academia Nacional de Música e da Academia Brasileira de Música.

 

Atuou nos dois conselhos do Museu da Imagem e do Som, música erudita e música popular, organizando e dirigindo a coleção de depoimentos ao vivo de vários músicos brasileiros, como Francisco Mignone, Guiomar Novaes e Magdalena Tagliaferro.

 

E por falar em Francisco Mignone, Aloysio foi o responsável pela revelação de que  Mignone era o titular  do então popular pseudônimo “Chico Bororó”.

 

Francisco Mignone, Aloysio de Alencar Pinto (centro) e Luiz Antônio Almeida, na residência do último.

 

 

Aloysio teve peças a ele dedicadas por Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Radamés Gnattali, Frutuoso Viana, Helza Camêu, José Siqueira e Arnaldo Rebello.

 

 

 

 

 

Adorava participar de encontros com os mestres da música popular e folclórica brasileira, como Azulão, Jacob do Bandolim, Patativa do Assaré, Jararaca e Ratinho, Luiz Gonzaga, Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, Pixinguinhae tantos outros.

 

Segundo seu filho Georges Miraulti: “Para ele, o importante é que a música tivesse qualidade e real inspiração popular. Era homem simples e orgulhoso de ser brasileiro. Nunca se promoveu e tirou proveito das suas posições de trabalho para divulgar sua obra. Posso dizer que tinha uma sensibilidade superior e um raro senso intuitivo para compreender o fenômeno musical. Admirava o movimento hyppie e era um cultor das liberdades civis”.

 

 

 

 

 

No ano de 1965, sob os auspícios do Ministério das Relações Exteriores, levou a Paris o conjunto de Balé Folclórico do Brasil, que se apresentou no Theâtre Sarah Bernhardt com grande sucesso.

 

 

Recebeu em vida honrariascomo o título de Doutor Honoris Causa, pelo conjunto da sua obra, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e a Medalha Rui Barbosa, conferida pela Fundação Casa Rui Barbosa, ambas pela sua contribuição à cultura brasileira.

 

 

 

 

 

 

 

Na capa acima, a caricatura que aparece é do músico/compositor Aurélio Cavalcanti sentado ao piano com várias dúzias de dedos em cada mão, publicada na revista O Malho nº 84, de 23 de abril de 1904. (Foto abaixo).

 

 

 

Em 1986, participou, organizou e produziu juntamente com José Silas Xavier o LP "Os Pianeiros", lançado pela FENAB (Federação Nacional de Associações Atléticas Banco do Brasil). Participam também desse LP os pianistas Carolina Cardoso de Menezes e Antônio Adolfo.

 

Comemoração de aniversário, especialmente de Centenário, só com muita música. Por isso selecionamos algumas faixas do LP “Os pianeiros”, executadas pelo nosso homenageado. Um verdadeiro presente para todos nós.

 

 

Aloysio de Alencar Pinto interpretando grandes compositores. Album: Os Pianeiros.



Morrer sonhando” (valsa), de J.Garcia de Christo.

 

 

"Sultana” (polca), de Chiquinha Gonzaga.

 

 

 

 

 

 

"Pisando em ovos” (tango), de Carlos de Abreu. 

 

 

 

 

 

"É café pequeno"” (tango), de José Emygdio de Castro.

 

 

 

 

"Maghi” (shottisch), de Raimundo Donizetti Gondim.

 

 

 

 

O Brasil de norte a sul/leste a oeste tem uma dívida de gratidão com o multifacetado artista Aloysio de Alencar Pinto, que, com competência, amor e extrema dedicação, consolidou um legado significativo para a compreensão das origens da música e do folclore brasileiros.

A dívida também diz respeito a uma maior divulgação de sua obra às novas gerações, pois é inconcebível, um crime contra a cultura brasileira, que tamanho tesouro não seja compartilhado por todos.

Confessamos que na montagem deste post fomos, gradativa e inexplicavelmente, estabelecendo um vínculo afetivo com o homenageado. Agora, hora de colocar o ponto final, prevalece a sensação de que adoraríamos tê-lo conhecido pessoalmente.




 

 

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1. Nas fontes pesquisadas sobre Aloysio de Alencar Pinto detectamos um dado controverso, que diz respeito ao ano de seu nascimento: 1911 ou 1912? Quando da leitura de um convite divulgado por seu filho Georges Miraulti - para uma celebração em homenagem ao centenário de Aloysio, na Igreja Nossa Senhora da Esperança, no dia 3 de fevereiro de 2012 (sexta-feira, às 18h) na rua Conde de Pirajá, 465, Botafogo (RJ) -, deduzimos que o ano a ser considerado é 1912. Mesmo assim mantivemos contato com o Georges e ele gentilmente trouxe mais luz à questão. O fato é que Aloysio nasceu em 1911, mas no seu registro consta o ano de 1912. Segundo ele a família sempre optou por divulgar a data oficial, ou seja, 1912.

__________

 

Atualização (23 de abril de 2012)

 

 

O vídeo abaixo foi gentilmente cedido por Georges Miraut Pinto ao site "Ernesto Nazareth 150 Anos".

 

 

"Ser músico - Entrevista de Aloysio de Alencar Pinto" / em 05/03/1987.

 

 

 

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FONTES:

- Encarte do LP “Os pianeiros”

- Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira.

- Site da Academia Brasileira de Música.

- Site Músicos do Brasil

- Site Sovaco de Cobra.

- Site Brasil Memória das Artes

FOTOS

- Acervo do pesquisador Luiz Antonio de Almeida.

- Nosso acervo pessoal.

- Internet.

VÍDEOS

- Luciano Hortêncio

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Exibições: 787

Comentário de lucianohortencio em 23 fevereiro 2012 às 21:34

Meu velho e querido pai, Murillo Hortencio de Medeiros, diria:

Amiga Laura, está cento por cento!

Obrigado pelo convite para participar dessa linda homenagem, sobretudo pelo fato de Aloysio de Alencar Pinto ser cearense e fortalezense, o que nos causa orgulho e honra.

abraço fraterno do lucianohortencio.

 

Comentário de Laura Macedo em 24 fevereiro 2012 às 0:19

Amigo Luciano,

O índice de 100% é o somatório dos nossos esforços. Trabalho em grupo, resultado dobrado :)) O Aloysio merece todas as homenagens, sempre. Grata pela parceria.

Abraços.

Noite de Reis, a primeira da série "Valsas (no Estilo Popular)" de Aloysio de Alencar Pinto com o meu estimado amigo Alexandre Dias, ao piano. Video produzido por ele em homenagem ao Centenário de Aloysio de Alencar Pinto. Uma maravilha!

Comentário de Gregório Macedo em 4 março 2012 às 17:40

Essa homenagem está verdadeiramente à altura do talento e dedicação de Aloysio.

Laurinha, o Aloysio, diante de tão singelo reconhecimento, fez verdadeira a recíproca: estabeleceu um vínculo afetivo com os autores desta homenagem.

Beijos.

Comentário de Laura Macedo em 5 março 2012 às 1:26

Gregório,

Adorei o sentido da reciprocidade muito bem colocado por você.

Beijos.

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