Cyro Monteiro


* 28/5/1913 - Rio de Janeiro (RJ)
+ 13/7/1973 - Rio de Janeiro (RJ)

 

 

 

Cyro Monteiro nasceu no subúrbio carioca do Rocha e foi criado desde os dois anos de idade em Niterói. Oriundo de uma família musical – sobrinho de Romualdo Peixoto, o pianista Nonô - cuja casa frequentava com assiduidade, e vice-versa. Provavelmente o ambiente musical provocou cócegas no seu DNA, o que, completado pela observação atenta do modo de cantar de Mário Reis (precisão rítmica) e de Luiz Barbosa (espontaneidade/breques), contribuiu para formar sua personalidade musical.

 

 

 

 

Romualdo Peixoto (Nanô) - O Chopin do Samba

 

 

 

 

Segundo Jairo Severiano, “numa tarde Cyro Monteiro estava à janela de sua casa, em Niterói, quando viu, com surpresa, Sílvio Caldas descer de um ônibus e dirigir-se a ele, propondo-lhe que assumisse o lugar de Luiz Barbosa na dupla que formavam no Programa Casé”. Desta forma nasceu a carreira artística de Ciro Monteiro, em 1933.

 

 

 

 

 

Luiz Barbosa e Sílvio Caldas

 

 

 

 

O curioso é que Cyro e seu irmão Careno cantavam, em dueto, procurando imitar justamente a dupla Sílvio Caldas/Luiz Barbosa, que seu tio Nonô costumava levar a sua casa para apresentações esporádicas.

 

 

 

 

 

 

 

Mesmo fazendo relativo sucesso ao lado de Sílvio Caldas, optou por abrir mão da dupla,  mantendo a que tinha com o irmão. Não demorou a surgir nova oportunidade, que favoreceu sua atuação na Rádio Mayrink Veiga, a partir de 1934.

 

 

 

 

 

 

 

 

Num período de quase quatro anos participou, em várias emissoras, de coros em gravações de outros artistas. E foi num desses coros que conheceu a cantora Odete Amaral (foto ao lado), com quem casou e viveu durante onze anos. Dessa união nasceu seu único filho, Ciro Monteiro Júnior.

 

 

 

 

Foi nessa época que começou a criar um estilo que o imortalizaria: descobriu no ritmo de uma caixinha de fósforos o toque instrumental para suas interpretações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O êxito no rádio fez com que, em 1936, gravasse seu primeiro disco, com o samba “Perdoa”, de Kid Pepe/João Barcelos) e a marcha “Vê se desguia”, de Kid Pepe/Germano Augusto/Fadel.

 

 

 

Perdoa” (Kid Pepe/João Barcelos) # Cyro Monteiro. Disco Odeon (11.309-A) /Matriz (5208). Gravação (10/12/1935) / Lançamento (janeiro/1936).

 

 

 

Vê se desguia” (Kid Pepe/Germano Augusto/Alberto Fadel) # Cyro Monteiro. Disco Odeon (11.309-B) / Matriz (5207). Gravação (10/12/1935) / Lançamento (janeiro/1936).

 

 

 

 

 

Também conhecido como “Formigão”, apelido que ganhou do compositor Frazão pelo fato de ser muito magro, Cyro teve o primeiro grande sucesso em 1937, quando lançou no rádio o samba “Se acaso você chegasse”, de Lupicínio Rodrigues/Felisberto Martins, gravada no ano seguinte.

 

 

 

 

Cyro relata como a música chegou a ele: “Um amigo, Célio Ferreira, trouxe do Rio Grande o samba e chegou na porta da Mayrink e disse: ‘Olha aí, Cyro, eu trouxe esse samba gaúcho pra você’. E eu aprendi na hora; fui lá pra cima e tal, e Nonô, meu saudoso tio, ao piano, me acompanhou, adorou o samba, e eu lancei naquela mesma hora. Aí o telefone não parou. Eu tive que cantar o samba três vezes”.

 

 

 

 

Se acaso você chegasse” (Lupicínio Rodrigues/Felisberto Martins) # Ciro Monteiro. Disco Victor (34.360A), 1938.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ainda nessa época, começou a compor com regularidade, tendo Dias da Cruz como parceiro mais constante. Apesar disso, continuava a investir na sua carreira de cantor e, no final da década de 1930, passou a apresentar-se com Dilermando Pinheiro, surgindo a Dupla 11 (onze), para fazer piada com a magreza de ambos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 1960, Cyro e Dilermando reeditariam a parceria no show “Telecoteco Opus nº 1”, no Teatro Opinião, idealizado por Sérgio Cabral e escrito por Oduvaldo Vianna Filho/Teresa Aragão. Só que agora a chamaram de Dupla 10 (dez), em virtude de Cyro encontrar-se redondinho.... Este show resultou no excelente disco abaixo, disponível para audição na # Radinha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O slogan acima foi dado pelo radialista César Ladeira, em 1940 e, convenhamos, caiu como uma luva.

 

 

 

Depois do sucesso da gravação de “Se acaso você chegasse”, em 1938, Cyro viveria, pelos próximos nove anos, a melhor fase da sua carreira gravando sambas antológicos:

 

 

 

 

"Ó Seu Oscar” (Wilson Batista/Ataulfo Alves) # Cyro Monteiro. Disco Victor (34.515B), 1939.

 

 

 

 

 

 

 

 

Mania da falecida” (Wilson Batista/Ataulfo Alves) # Cyro Monteiro. Gravação em 78 rpm, 1939.

 

 

 

 

 

 

 

O bonde de São Januário” (Wilson Batista/Ataulfo Alves) # Cyro Monteiro. Disco Victor, 1940.

 

 

 

 

 

 

 

 

A mulher que eu gosto” (Wilson Batista/Ciro de Souza) # Cyro Monteiro. Gravação em 78 rpm, 1941.

 

 

 

 

 

 

 

 

Botões de laranjeira” (Pedro Caetano) # Cyro Monteiro. Disco Victor, 1942

 

 

 

 

 

 

 

 

Beija-me (Roberto Martins/Mário Rossi) # Cyro Monteiro. Disco Victor (800.070A), 1943.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao conhecer o compositor mineiro (Juiz de Fora) e mangueirense Geraldo Pereira, a quem, por conta da sua estatura, chamava carinhosamente de “Coqueiro Preto”, Cyro descobriu a mina do samba sincopado, do qual se tornou um dos maiores intérpretes.

 

 

 

 “Falsa baiana” (Geraldo Pereira) # Cyro Monteiro. Disco Victor (800.181A), 1944.

 

 

 

 

 

 

 

 

Boogie-woogie na favela” (Denis Brean) # Cyro Monteiro. Disco Victor, 1945.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cyro foi um dos descobridores de Nelson Cavaquinho, quando esse ainda assinava Nelson Silva, de quem gravou alguns de seus sambas, a exemplo de “Rugas”.

 

 

 

 

Rugas” (Nelson Cavaquinho/Augusto Garcez/Ari Monteiro) # Cyro Monteiro. Disco Victor (800.406A), 1946.

 

 

 

 

 

 

 

 

Pisei num despacho” (Geraldo Pereira/Elpídio Viana) # Cyro Monteiro. Disco Victor (800.518A), 1947.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi nos anos 50 que Cyro Monteiro passou a ter problemas pulmonares, que, obviamente, prejudicaram sua carreira artística por conta de internações hospitalares.  Nesta época estava casado com sua segunda mulher - Maria José de Oliveira -, carinhosamente chamada por ele de Lu.

 

 

Mesmo assim, ainda teve pique para gravar o samba “Tem que rebolar” (José Batista/Magno de Oliveira)

 

 

 “Tem que rebolar (José Batista/Magno de Oliveira) # Cyro/Mariúza. Disco Todamérica (5516A), 1955.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cyro ainda teve fôlego de interpretar o papel de Apolo, pai de Orfeu, na peça “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes, seu único trabalho no campo das artes cênicas. Na foto acima ela contracena com a atriz Zeni Pereira.

 

 

 

 

Autor de cerca de cinquenta sambas, segundo Jairo Severiano, criou em 1958 seu maior sucesso como compositor, o samba “Madame Fulano de Tal”, com Cândido Dias da Cruz.

 

 

 

 

Madame Fulano de Tal” (Cyro Monteiro/Dias da Cruz) # Elizeth Cardoso. Disco Continental, 1958.

 

 

 

 

 

 

 

 

As cirurgias pelas quais passou deixaram Cyro Monteiro com apenas um pulmão e seis costelas a menos. Será que era chegada a hora do Formigão sossegar? Resposta negativa. Em 1961 ele voltou à ativa, gravando na Columbia o disco “Sr. Samba”, logrando o prêmio de melhor LP do ano. Ouça abaixo, na íntegra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cyro Monteiro, em 1967, integra o show “Mudando de conversa”, produzido por Hermínio Bello de Carvalho, que escalou, também,  Clementina de Jesus, Nora Ney, Dino 7 Cordas com seu Regional e o grupo “Os cinco crioulos”.

 

 

 

 

 

Na foto, alguns dos integrantes do show “Mudando de Conversa”: Cyro, Hermínio, Dino 7 Cordas, Clementina e Nora Ney.

 

 

 

 

 

 

 

 

No vídeo abaixo a segunda faixa do disco “Mudando de Conversa” # Cyro Monteiro. Pout Pourri: “Formosa” (Baden Powell/Vinicius de Moraes), “Sacode corola” (Alfredo Marques/Hélio Nascimento) , “Madame Fulano de Tal” (Cyro Monteiro/Cruz da Silva), “Sofrer é da vida” (Ismael Silva/Francisco Alves), “Divina dama” (Cartola), “Risoleta” (Raul Marques/Moacyr Bernadino).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 1972 Cyro concedeu entrevista ao programa MPB Especial, da TV Cultura de São Paulo, aos 59 anos (um ano antes de falecer). Confiram um trecho do referido programa, onde ele interpreta fragmentos de “Se acaso você chegasse”, “Emília”, “Izaura”, “Olga”, “Seu Libório” e “Escurinho”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Até o ano de sua morte (1973) Cyro Monteiro gravou mais nove LPs, destacando-se os álbuns:  De Vinicius e Baden, especialmente para Cyro Monteiro”, lançado pelo selo Elenco, em 1965, em que canta dez sambas da famosa dupla; “Bossaudade”, também de 1965, registro ao vivo do programa homônimo da TV Record, ao lado de Elizeth Cardoso, e “Alô jovens”, de 1970, cujo repertório foi constituído exclusivamente de músicas de jovens compositores da época, como Chico Buarque e Paulinho da Viola.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cyro Monteiro era torcedor roxo do Flamengo, mas um flamenguista de quem até mesmo os "adversários" gostavam. Por conta de seu célebre entusiasmo pelo clube do coração, na ocasião do nascimento da primeira filha de Chico Buarque, a pequena Sílvia, enviou de presente para o bebê uma camisa rubro-negra.

 

 

 

 

 

 

 

 

O tricolor Chico respondeu à provocação do amigo compondo a canção "Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita para virar casaca de neném".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A última vez que Cyro Monteiro entrou num estúdio foi para participar do disco “Toquinho, Vinicius & Amigos”, em 1973, lançado no ano seguinte, no qual cantou os sambas “Que martírio!” (Haroldo Lobo/Milton de Oliveira) e “Você errou”, do próprio Cyro.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ouçam no áudio abaixo o que Vinicius de Moraes falou sobre o amigo e o agradecimento de Cyro com palavras e a música “Você errou. (De quebra ele ainda interpreta “Se acaso você chegasse”).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vinicius de Moraes considerava Cyro Monteironão só o maior cantor popular brasileiro de todos os tempos – emparelhado apenas, na nova fase, com João Gilberto -, mas uma criatura humana de qualidades tão raras que eu acho improvável qualquer de seus amigos não se haver dito, num dia de humildade, que gostaria de ser Cyro Monteiro. Pois Cyro, pra lá de cantor e do homem excepcional, é um abraço em toda a humanidade”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As palavras de Vinicius de Moraes justificam as homenagens após sua morte. Uma delas foi o show “Amigo Cyro”, que teve a direção de Fernando Faro/Elifas Andreato e um baita time de estrelas dignas do homenageado: Chico Buarque, MPB-4, Jards Macalé, Conjunto Época de Ouro, Paulinho da Viola, Walter Franco, Milton Nascimento, Martinho da Vila, Toquinho, Elton Medeiros, Quarteto em Cy, Caetano Veloso, Edu Lobo e Vinicius de Moraes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma afirmação, praticamente unânime, é a de que jamais existiu na área musical brasileira artista mais simpático e espirituoso do que Cyro Monteiro. Segundo Jairo Severiano, uma prova derradeira de seu humor foi dada a poucas horas da morte, quando, já condenado por um processo de falência geral do organismo, declarou à apresentadora de televisão Edna Savaget: “Leve um recado para os amigos Vinicius de Moraes, Fernando Lobo e Reinaldo Dias Leme: diga a eles para não chorar, porque tenho encontro marcado com Pixinguinha, Stanislaw Ponte Preta e Benedito Lacerda. Não bebo há dois anos e agora vou tomar o maior pileque da minha vida”.

 

 

 

 

A foto acima é reveladora da alegria e irreverência de Cyro Monteiro. Compôs, interpretou e encantou a todos com sua empatia contagiante. Impossível separar o artista extraordinário do ser humano iluminado. Como uma “das mil e uma fãs” de Cyro Monteiro”,  presto minha homenagem ao Centenário deste artista que é realmente (o Poetinha acertou na mosca) “um grande abraço [e um beijo carinhoso] em toda a  humanidade”.

 

 

 

 

Um samba para Cyro Monteiro” (Paulo César Pinheiro/Wilson das Neves) # Wilson das Neves com a participação de João Nogueira, 1966.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Fontes:

 

 LIVROS:

 

- A Canção no Tempo - 85 Anos de Músicas Brasileiras, Vol 1: 1901-1957 / Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. - São Paulo: Ed. 34, 1997.

- A Música Brasileira deste Século por seus Autores e Intérpretes, Vol: 2 / J.C. Pelão Botezelli e Arley Pereira. - São Paulo: SESC, 2000.
- A História do Samba. Fascículos publicados pela Ed. Globo, 1997-1978.

- Dicionário Houaiss Ilustrado (da) Música Popular Brasileira. Supervisão geral; Ricardo Cravo Albin. - Rio de Janeiro: Paracatu, 2006.

- Na cadência do samba, de Haroldo Costa. – Rio de Janeiro: Ed. Novas Direções, 2000.
- Tem mais samba: das raízes à eletrônica. Tárik de Souza. - São Paulo: Ed. 34, 2003

- Uma História da Música Popular Brasileira - Das Origens à Modernidade / Jairo Severiano. - São Paulo: Ed. 34, 2008.

-  Vinicius de Moraes – Samba Falado (crônicas musicais), de Miguel Jost, Sérgio Cohn e Simone Campos (Org.). – Rio de Janeiro: Ed. Beco do Azougue, 2008.

 

 

SITES

 

- # Radinha

- IMS (Instituto Moreira Salles)

- Dicionário Cravo Albin da MPB

- YouTube

- Discos do Brasil

 

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Comentário de Gregório Macedo em 29 maio 2013 às 2:17

Eita, homenagem bonita!

Vou aproveitar e transcrever quase integralmente o comentário que deixei no post publicado no LuisNassifOnLine, pois amanhã estará 'afogado' em outros (novos) posts:

 

"(...). o post da Laurinha, a exemplo dos oferecidos a outros 'centenariantes', está simplesmente completo (muito embora eu tenha brincado com ela e 'reclamado' da ausência do causo da indisposição estomacal do Formigão num dos comes e bebes patrocinados por Dona Zica, o amor do Cartola, onde Cyro exibira seus dotes culinários, quero dizer, seu apetite pantagruélico).

Um registro: hoje, no "Pontapé Inicial", excelente programa esportivo da ESPN, a tônica foi o 'vira-casaca' Cyro Monteiro. Foi citado o causo do presente (camiseta do Flamengo) mandado por ele para a recém nascida Sílvia, filhinha de Chico Buarque e Marieta, sendo que foi "cantado" na hora o samba com que o tricolor Chico respondeu à 'ofensa' do Formigão, coisa que esse fazia com tudo quanto era de amigo. O passo seguinte dos apresentadores foi listar craques famosos que viraram a casaca pelo Brasil e pela Europa, o que consumiu boa parcela da uma hora e meia de duração do Pontapé. Ou seja: Cyro Monteiro pautou o Pontapé! (...)".

Parabéns. E beijos.

Comentário de Laura Macedo em 29 maio 2013 às 3:06

Gregório,

Foi ótimo você transcrever seu excelente comentário. Valeu, fofinho.

Beijos.

Comentário de Laura Macedo em 14 junho 2013 às 1:12

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