DILERMANDO dos Santos REIS


*22/09/1916 - Guaratinguetá (SP)
+02/01/1977 - Rio de Janeiro (RJ)

Compositor / Violonista

Dados Pessoais e Familiares

Oriundo de uma família de quinze filhos, Dilermando Reis nasceu em Guaratinguetá (SP), em 22 de setembro de 1916. Seu pai “arranhava” o violão, como se dizia na época; já a mãe não gostava nada do interesse do filho pelo instrumento, que naquela época era visto de forma preconceituosa.

Levino da Conceição e Dilermando Reis

Ajuda do Destino

Uma das primeiras portas abertas para Dilermando aconteceu pelas mãos do violonista  Levino da Conceição, que convenceu seus pais em liberar o garoto a seguir com ele Brasil afora; em contrapartida Dilermando ajudaria o professor, cego, atuando como seu guia.

Aterrissando no Rio de Janeiro

Em 1933, mestre e aluno lançaram âncora no Rio de Janeiro e o destino mais uma vez favoreceu o jovem violonista, quando se hospedaram na mesma pensão em que morava o violonista João Pernambuco.

Deu-se então um fato até hoje não muito bem esclarecido: Levino deixou 15 dias de pensão pagos e foi à Bahia, prometendo retorno rápido, o que não aconteceu. Quanto a esse episódio, em depoimento à Rádio Jornal do Brasil, Dilermando relembra:

Fiquei num mato sem cachorro, sem dinheiro e sem ninguém, perdido no Rio. Daí, como o Levino não apareceu e nem deu notícias, resolvi lutar pela vida, só eu e meu violão”.

Início da Carreira

 

Dilermando, com a ajuda preciosa de João Pernambuco, não negou fogo e tratou logo de ministrar aulas de violão em várias Lojas de Instrumentos musicais da Cidade Maravilhosa. Felizmente a demanda era grande e, em 1935, concentrou suas aulas na famosa loja “A Guitarra de Prata”. A jornada de trabalho era exaustiva, mas felizmente dava para cobrir as despesas com a pensão.

Rádio Transmissora

Renato Murce e Dilermando Reis

Estudiosos da obra de Dilermando Reis advogam que sua carreira profissional emplacou, mesmo, em 1936, quando o radialista Renato Murce convidou-o para participar de seus programas na Rádio Transmissora - com sucesso.

Logo depois veio outro convite tentador: a criação de um programa diário, de solo de violão, com ele no comando. Era tudo o que faltava para deslanchar a carreira.

Dilermando Reis e o Regional de Pixinguinha

Ainda na década de 1930, Dilermando Reis foi convidado por Pixinguinha a integrar seu Regional, que à época era formado por Luiz Americano (sax), João da Baiana (ritmo), Tute (violão de 7 cordas), Luperce Miranda (bandolim) e o próprio Pixinguinha na flauta.

O recorte acima foi feito na Revista Careta. Edição nº 1747 / 20 de dezembro de 1944 / página 20.

A atividade no Rádio proporcionou-lhe uma integração com os artistas, a exemplo de Sílvio Caldas, João Petra de Barros, Carmen Miranda e Francisco Alves, com quem tocava/cantava em serestas nas noites cariocas.

Mesmo com todos os avanços, faltava a gravação de um disco. Os estudiosos da carreira de Dilermando Reis apontam que a demora residia na sua absoluta falta de tempo.

Primeiras Gravações - Década de 1940: 10 Discos em 78 rpm, totalizando 19 faixas.

Finalmente, em 1941 grava seu primeiro disco pelo selo Columbia (depois rebatizado de “Continental”), sua única gravadora, onde emplacou 35 discos de 78 rpm e 25 LPs, até 1977.

Noite de lua” (Dilermando Reis) # Dilermando Reis. Disco Columbia (55.290-A) / Matriz (427). Lançamento (agosto/1941).

Magoado” (Dilermando Reis) # Dilermando Reis. Disco Columbia (55.290-B) / Matriz (428). Lançamento (agosto/1941).

Em 1942 formou uma Orquestra de Violões com repertório eclético atuando na APR-3 – Rádio Clube do Brasil e no Cassino da Urca.

Década de 1950

A popularidade de Dilermando Reis chega ao topo em 1950, com a boa vendagem dos seus discos e a motivação dos jovens para aprender a arte violonística, a exemplo de Baden Powell (foto acima com o violonista e professor Meira) que, aos 10 anos de idade, executou “Magoado”, de Dilermando, obtendo o primeiro lugar no programa “Papel Carbono”, conduzido pela radialista Renato Murce, na Rádio Nacional.

Algumas das suas gravações na década de 1950

Xodó da Baiana” (Dilermando Reis) # Dilermando Reis (violão) / Radamés Gnattali e Orquestra.  Disco Continental (16.370-A) / Matriz (2398). Lançamento (março/1951).

Abismo de rosas” (Américo Jacomino [Canhoto]) # Dilermando Reis. Disco Continental (16.560-B) / Matriz (2828). Lançamento (maio/1952).

Sons de carrilhões” [Choro] (João Pernambuco) # Dilermando Reis. Disco Continental (16.560-A) / Matriz (C-2829). Lançamento (maio/1952).

Alma nordestina” (Dilermando Reis) # Dilermando Reis (violão). Disco Continental (16.803-A) / Matriz (C-3076). Gravação (04/03/1953) / Lançamento (julho/1953).

Em 1953, Dilermando Reis emplaca a sua primeira e única temporada de shows nos Estados Unidos. Já perto de retornar ao Brasil inscreve-se no concurso promovido pela CBS para novos violonistas. Resultado: “Foram noventa dias em que Dilermando Reis foi visto e ouvido por milhões de norte-americanos”.

Ainda na década de 1950, Dilermando Reis é contratado pela Rádio Nacional. Especulou-se na época que a sua nomeação teve o “dedo” do Presidente Bossa Nova - Juscelino Kubitschek.

O certo é que Dilermando deu conta do recado e o seu programa, “Sua Majestade, o Violão”, foi um grande sucesso até o ano de 1969, ocasião em que o rádio começa a perder espaços hegemônicos para a novidade do momento - a televisão.

Na baixa do sapateiro” (Ary Barroso) # Dilermando Reis. Disco “Volta ao Mundo”, LP de 12 Polegadas (33 1/3 rpm), 1958.

No início da década de 1960, Dilermando Reis concentra sua agenda no programa da Rádio Nacional (manhã), reservando a tarde para aulas de violão e gravações.

Marcha dos Marinheiros” (Américo Jacomino ‘Canhoto’) # Dilermando Reis. Disco Continental (17.888-B) / Matriz (C-4414). Lançamento (maio/1961).

Gotas de lágrimas” (Mozart Bicalho) # Dilermando Reis (violão). Disco Continental (78.220-A), 1963.

Os Discos selecionados a seguir são ilustrativos do estilo e das preferências musicais de Dilermando Reis:

Sua Majestade o Violão” (Continental, LP/1957), no qual interpreta composições brasileiras e transcrições de peças clássicas.

Se ela perguntar” (Dilermando Reis/Jair Amorim) # Dilermando Reis. Disco Continental (17.522-A) / Matriz (C-4075). Lançamento (janeiro/1958).

Dilermando Reis” (Continental, LP/1969), no qual interpreta composições próprias e uma das raras obras de Meira, seu parceiro de gravações durante muitos anos.

Contratempo” (Dilermando Reis) # Dilermando Reis. Disco Continental (1969).

Concerto nº. 1 para Violão e Orquestra", de Radamés Gnattali (1970), peça escrita por Radamés em sua homenagem.

Dilermando Reis Interpreta Pixinguinha” (Continental, LP/1972), um disco representativo da sua técnica de transcrições para violão.

Proezas do Solon” e “Vou vivendo” (Pixinguinha/Benedito Lacerda) # Dilermando Reis. Disco Continental (1972).

"Homenagem a Ernesto Nazareth" (Continental, LP/1973), outro disco de transcrições.

Apanhei-te cavaquinho” (Ernesto Nazareth) # Dilermando Reis. Disco Continental (1973).

Entre 1961 e 1975, Dilermando Reis gravou série composta de 7 discos, intitulada “Uma voz e um violão em serenata”, em duo com o cantor Francisco Petrônio, sempre pelo Selo Continental.

Se ela perguntar” (Dilermando Reis/Jair Amorim) # Francisco Petrônio (voz) / Dilermando Reis (violão). Disco Continental – “Uma voz e um violão em serenata”, 1962.

Embora pareça um paradoxo, Dilermando Reis convivia com o estilo conservador e moderno, ou seja, defendia os métodos do violão erudito, mas não se descuidava do violão popular. Gostava dos antigos, mas apreciava o moderno, a exemplo de Baden Powell, Tom Jobim, Edu Lobo, Carlos Lyra, Egberto Gismonti e Chico Buarque. “São autores que não perderam de vista a característica da alma brasileira”, dizia.

Grandes nomes do violão brasileiro e mundial gravaram composições de Dilermando Reis, a exemplo de Turíbio Santos, Maria Lívia São Marcos, Paulo Bellinati, Fred Scheneiter, Luis Carlos Barbieri, Yamandú Costa, Raphael Rabelo e Marco Pereira.

Dilermando Reis continuou com suas gravações até dois anos antes de sua morte, em 2 de janeiro de 1977.

A saída de cena do compositor e violonista Dilermando Reis, em 2 de janeiro de 1977, foi motivada por uma parada cardíaca; uma surpresa para os mais próximos, que conheciam sua força de vontade e sua vida regrada, temperada apenas pelo uisquinho doméstico.

No dia do seu enterro, um amigo de infância, de apelido Tietê, preto velho e magro, vestido num macacão puído e imundo de tinta, acompanhou chorando seu velório. Até que, num instante, enxugou as lágrimas e balbuciou: ‘O Dilermando não está morto. Artista não morre. Artista apenas descansa’” (observação sem autor definido).

O Jornal O Estado de São Paulo noticiou a morte de Dilermando Reis, conforme foto acima.

Comemorações do seu Centenário de Nascimento

O violonista paraibano Vinícius de Lucena fez única apresentação nessa sexta-feira, dia 16/9, às 20h, no Teatro Arthur Azevedo, da turnê “Sua majestade o Violão”. (Saiba mais AQUI).

Violão e Ponto” e “Mostra de Cordas Dedilhadas” debateram a obra de Dilermando Reis, que faria 100 anos em 2016.

Em uma parceria inédita, os dois projetos se uniram para promover uma tarde de bate papo e apresentações musicais sobre a obra de Dilermando Reis, um dos mestres do Violão Brasileiro Instrumental. O evento foi gratuito e ocorreu dia 10 de setembro de 2016, na Fundação Ema Klabin, em São Paulo. (Saiba mais AQUI).

 

Dilermando Reis é homenageado todos os anos em sua terra natal - Guaratinguetá (SP). No seu Centenário de nascimento a homenagem será especial.

O compositor/arranjador e violonista Marco Pereira gravou em homenagem a Dilermando Reis o CD “Dois Destinos - Marco Pereira toca Dilermando Reis”, objetivando despertar nas novas gerações um novo interesse por sua obra.

Registro do concerto para o Ciclo Violonístico de Niterói, realizado em junho de 2016. O violonista Marco Pereira explica a concepção do Projeto “Dois Destinos”, com que homenageia o violonista Dilermando Reis.

Se ela perguntar” (Dilermando Reis) # Marco Pereira. Concerto Ciclo Violonístico de Niterói (junho/2016).

Confesso que decidi estudar violão em função da música “Se ela perguntar”, de Dilermando Reis, mas como ficou provado que eu não tinha aptidão, resolvi, depois da minha aposentadoria da UFPI (Universidade Federal do Piauí), enveredar na garimpagem musical, atividade que desenvolvo, prazerosamente, desde o ano de 2008. Sempre gostei muito do violão e do repertório de Dilermando Reis.

Durante sua carreira artística, Dilermando Reis enveredou por múltiplos caminhos: seresta, boemia, rádio, ensino, cassino, composição e gravação. Em todos eles deixou a marca da sua competência e foi formando uma plateia fiel ao seu estilo na arte violonística. É difícil encontrar, na área, quem não saiba executar uma das suas composições.

A prova cabal da perenidade do seu legado são as homenagens que vem recebendo nas comemorações do seu Centenário de Nascimento, na sua terra natal e em outras unidades da federação brasileira.

Que esse legado se mantenha aceso na memória dos violonistas e do público em geral, para que tão grande obra nunca caia no esquecimento.

 

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Agradecimentos especiais:

- Ao jornalista, escritor e pesquisador Miguel NIREZ Azevedo pela liberação dos fonogramas: “Noite de lua” / “Magoado” / “Abismo de rosas” / “Marcha dos marinheiros”.

- Ao pesquisador/colecionador de Discos Gilberto Inácio Gonçalves, pela liberação das fotos dos “Selos” do primeiro disco gravado por Dilermando Reis.

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Post dedicado ao compositor/violonista e amigo Marco Pereira.

 

 

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Fontes:

 

- Acervo Digital do Violão Brasileiro (AQUI).

- Banco de Dados do Acervo Nirez / liberação de fonogramas. (AQUI).

- Consulta ao escritor/pesquisador Jairo Severiano.

- Consulta ao violonista Gilson Antunes.

- Dicionário Cravo Albin da MPB / Verbete/Dilermando Reis (AQUI).

- Fotomontagem: Laura Macedo.

- Fotos Selos do primeiro Disco: Gilberto Inácio Gonçalves.

- Montagem Áudios Sould Cloud: Laura Macedo.

- O Violão Brasileiro de Dilermando / Luis Nassif (AQUI).

- Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia Instrumental / Dilermando Reis (AQUI)

- Site YouTube / Canais: “Classical Guitar Songs”, “The Mild Bunch”, “Augusto Simão”, “bralmabrasil”, “Raimundo nonato andrade”, “Damião Maia”, “Acroporium sp”, “luciano hortencio”, “Rafael  Bittencourt”, “Borandá”, “Registro Arte”.

- Violões do Brasil, de Myriam Taubki (Org.). São Paulo. - Ed. SENAC São Paulo, 2007.

- Violão Ibérico / Carlos Galilea. Trem Mineiro Produções. 1ª Edição. Rio de Janeiro, 2012.

 

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Exibições: 791

Comentário de José Carlos de Souza em 26 setembro 2016 às 23:29

Muitos ainda beberão dessa fonte.

Comentário de Laura Macedo em 27 setembro 2016 às 1:10

José Carlos,

É a pura verdade! Abraços.

A foto acima foi postada no Facebook pelo amigo Barão Do Pandeiro depois da nossa homenagem ao Centenário de Dilermando Reis.

Foto: João da Baiana, Radamés Gnattali, Dilermando Reis e Waldemar Melo (1954/1955).

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